Bonum Legere – J. R. R. Tolkien / A Folha de Niggle (Leaf by Niggle) (1.4)

Comentário inicial: A partir desta postagem entraremos pouco a pouco na bibliografia tolkieniana. Antes de chegarmos aos grandes e famosos livros, vamos apresentar um pequeno conto. Como havia falado inicialmente, não conseguiremos esgotar os assuntos sobre sua vida e obra nestes breves relatos, nossa intenção é apenas acender o estopim.

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1.3 Bonum Legere – J. R. R. Tolkien / Biografia – Valores Cristãos (1.3)

J. R. R. Tolkien – A Folha de Niggle (Leaf by Niggle)

tree and leaf

Como sabemos Tolkien tinha um grande amor, as línguas. Criou várias, e para que não morressem criou mundos e povos para elas. Tolkien era um viajante. Um imaginário criador de um mundo secundário. Talvez pouquíssimos conseguiram adentrar na sua genialidade, e nem por isso ele se reservou num mundo isolado para que se dedicasse exclusivamente ao seu intento.

Era um homem com fortes relacionamentos, foi filho, fiel católico, interno órfão, namorado, noivo e esposo, pai, e amigo, estudante, professor, escritor etc.

Um dos seus contos, muito pouco difundido por sinal, é lindo, e se chama “Leaf by Niggle” (A Folha de Niggle“. Tudo indica ser autobiográfico. Indico a todos a leitura, não há livro publicado em língua portuguesa, mas há um livro em inglês sobre literatura fantástica com este conto inteirinho (o link para o textto em inglês está aqui).

O conto fora publicado por Tolkien em um livro, Tree and Leaf (Árvore e Folha) em 1945. O livro é divido em três partes, com temas aparentemente distintos, mas que analisado com mais calma são correlatos.

A primeira parte,  “On Fairy Stories” (Sobre Contos de Fadas) originada a partir de  um ensaio feito para uma palestra na Universidade de St. Andrews, na Escócia em 1939, apresenta a defesa desses tipos de “estórias”, muitas vezes vistas com preconceitos.

A segunda contêm um poema chamado “Mythopeia” (fazer dos mitos) que fora escrita no início da década de 1930. A poesia é como uma fala de: Philomythus (que ama o mito) a Misomythus (que odeia o mito).

Estudiosos afirmam que Tolkien em ambos os textos demonstram a sua visão transcedente. Acredita que sua criação literária poderia ser uma “sub-criação”, contribuindo assim humanamente com a criação Divina.

As duas seções, a primeira parte argumentativa e a segunda poética, são a defesa de Tolkien de que os mitos não-cristãos apresentados em um mundo secundário guardam verdades do Grande Mito do nosso mundo primário, o Evangelho (guardadas evidentemente as devidas proporsões, afinal o relato evangélico não é um mito).

Essas duas, a que tudo indica,  foram frutos dos inesgotáveis diálogos entre ele, Tolkien (Philomythus), e seu amigo, Lewis (Misomythus). Tolkien nessas discussões tentava comprovar o fiel propósito da mitologia para o mundo real. Lembro que quando se conheceram, Lewis era agnóstico e posteriormente converteu-se ao cristianismo (anglicanismo).

Manuscrito - Leaf by Niggle

Manuscrito – Leaf by Niggle

Enfim, a terceira parte deste livro, foco desta postagem, é o conto “Folha de Nieggle”, escrito no final da década de 1930. O texto não é muito longo, mas alegoricamente destaca sua vida com um ar de profunda humildade e de certa forma, resignação por não ter chegado a perfeição almejada.

Os dois principais personagens do conto são Niggle, do verbo “to niggle” (enrolar, incomodar) e Parish, que em português seria paróquia, origem no latim paroikos (o que mora ao lado).

Lendo o trecho de uma carta de Tolkien, somos induzidos sem dificuldade a pensar que de fato Niggle se trata dele mesmo (claro que o Hobbit também):

Nasci em 1892 e passei toda a infância numa região chamada “The Shire”, numa época anterior à mecanização da lavoura. Em outras palavras, e o que importa ressaltar é que sou cristão (o que se pode inferir muito bem das minhas histórias), na verdade sou católico romano. Já este segundo “fato” pode não ser tão facilmente inferido… na verdade o que sou mesmo é um hobbit (em todos os aspectos, exceto pelo tamanho). Gosto muito dos jardins, árvores e lavouras não mecanizadas; fumo cachimbo e aprecio boa comida caseira… gosto dos trajes alinhados e tenho a pachorra de usar coletes, numa era tão sem graça, quanto a nossa. Amo cogumelos (colhidos diretamente do campo); meu senso de humor é coloquial (mesmo os meus críticos mais simpáticos costumam considera-lo tedioso); costumo ir dormir tarde e (de preferência) acordo tarde. Não sou de viajar muito.[2] Tolkien, J.R.R. Letters of Tolkien, Carta de 25 de outubro, 1958, em Duriez, Manual de J.R.R. Tolkien, 1992, 253]

Tudo bem então, consideremos que Niggle é Tolkien, mas e quem seria Parish, seu vizinho no conto? Provavelmente seu grande amigo Lewis. O maior crítico e motivador de suas obras. Em um relato de Lewis sobre Tolkien, podemos até sentir Parish falando de Niggle:

Ele é um sujeitinho lustroso, pálido e carrancudo. Devia ser chato demais para ler um Spenser – que só deve interessar para as aulas de inglês – na concepção dele, a literatura só deve servir para a diversão de pessoas entre seus trinta e quarenta anos de idade… No fundo é gente boa: só está precisando de uns bons corretivos. [Duriez, Manual de J.R.R. Tolkien, 1992, 256]

No conto, Niggle é um pintor, ótimo em pintar e desenhar folhas, detalhista ao extremo. Ele começa a pintar o que acredita ser sua obra prima, uma árvore. Só que a cada pintura que faz, vislumbra que há algo maior por fazer. Uma paisagem ao fundo, uma luz aqui, uma sombra acolá, diversas folhas com particularidades, porém com similaridades por terem origem numa mesma árvore.

Niggle era ranzinza e vivia angustiado. Primeiramente porque teria uma longa viagem a fazer, sem volta. Segundo porque teria um coração mole demais, pois a todo instante tinha que parar para ajudar outras pessoas, principalmente seu vizinho Parish, que era manco. Seu coração mole, não impedia que fizesse tudo sem resmungos e xingamentos.

Sua pintura ia crescendo a ponto de precisar subir numa escada para continuar a pintá-la, e sua ansiedade estava a flor da pele, pois sabia que logo viriam buscá-lo para a viagem, e ainda não havia arrumado a bagagem, não sabia quem conservaria seu jardim e não conseguia terminar sua obra prima.

Nessa angústia um fato o “atrapalhou” profundamente. Era outono, o tempo estava úmido, o telhado do seu vizinho Parish quebrou e sua esposa estava doente, como era manco foi até o atelier de Niggle pedir ajuda, pois precisava chamar o médico e os pedreiros. Niggle não queria ajudá-lo, e tentou disuadir Parish, porém este insistira pela ajuda, principalmente porque precisava de materiais para o conserto.

Niggle a contragosto foi chamar o médico e os pedreiros, de bicicleta e na chuva. Encontrou o médico e deixou recado para os pedreiros que não estavam em casa. No dia seguinte o médico constatou que a Sra Parish estava apenas com um leve resfriado, porém Niggle pegou uma gripe, e ficou de cama por uns dias. O vento arrancou também alguns de seus telhados, e os pedreiros não vieram.

O pior de tudo, é que o tempo, que já era apertado para concluir sua pintura, ficou mínimo. Quando se recuperou e começou a trabalhar na pintura recebeu uma visita inesperada, um inspetor de casas (Este diálogo é profundíssimo, mesmo parecendo um pouco sem nexo).

O inspetor questiona Niggle sobre a casa de seu vizinho, que estava insatisfatória. Niggle reponde que deixou recado para os pedreiros e que esses não vieram, e ainda informou que por causa disto ficou doente e não pôde ajudar seu vizinho.

O inspetor exortou Niggle, afirmando que deveria ter ajudado seu vizinho nos reparos para evitar danos maiores, e ainda que ele tinha muito material para doar para a reforma. Niggle não acreditou e reclamou, mas o inspetor informou que era a lei, pois as casa vem primeiro do que as pinturas.

Naquele momento confuso, entrou outro homem, o condutor. Niggle resmungou, e questionou ao condutor do que se tratava. O condutor informou que seu vagão de viagem havia chegado. O inspetor interpelou dizendo que não era bom iniciar esta viagem assim sem estar preparado, mas eles davam um jeito.

Niggle começou a chorar, a bagagem não estava pronta e a tela não estava terminada. Niggle foi conduzido para o vagão, e mais uma vez reclamou que estava sem mala, que precisava terminar a pintura, mas o condutor disse que sua tela estava acabada e que o inspetor faria bom uso dela (usariam o material para consertar as casas).

Niggle entrou triste no vagão. O trem parou numa plataforma escura e sombria. Escutou um carregador chamando o seu nome. O carregador o recebeu e viu que estava sem bagagem, e informou que ele deveria ir para a oficina. Niggle que há pouco se recuperara de uma gripe, estava fraco e atônito, desmaiou e foi levado para a enfermaria da oficina.

Na enferamaria só via o médico, e era um lugar hostil. Depois começou a ser acordado muito cedo para trabalhar, todos os dias. Algumas vezes era colocado no escuro para pensar um pouco mais, e começou a lembrar-se do passado. Poderia ter ajudado o Parish e sua esposa, e dado mais atenção às outras coisas.

Com o passar do tempo (no conto fala até de um século) Niggle começa a trabalhar melhor e sem reclamar se dedicando com mais afinco na tarefas. Puseram-no para trabalhar sem descanso, mas sua mente já tinha esquecido de reclamar e dos xingamentos. Puseram-no para cavar todos os dias sem parar. Após dias suas costas já doiam demasiadamente e sua mão já estava em carne viva, quando o médico o enviou para um descanso completo no escuro.

Então o médico e outro personagem (de voz severa) começam a conversar e avaliar a melhora do Niggle (este trecho compartilho):

“‘Now the Niggle case’, said a Voice, a severe voice, more severe than the doctor’s. ‘What was the matter with him?’ said a Second Voice, a voice that you might have called gentle, though it was not soft – it was a voice of authority, and sounded at once hopeful and sad. ‘What was the matter with Niggle? His heart was in the right place.

‘Yes, but it did not function properly,’ said the First Voice. ‘And his head was not screwed on tight enough: he hardly ever thought at all. Look at the time he wasted,not even amusing himself! He never got ready for his journey. He was moderately well-off, and yet he arrived here almost destitute, and had to be put in the paupers’ wing. A bad case, I am afraid. I think he should stay some time yet.’ ‘It would not do him any harm, perhaps,’ said the Second Voice. ‘But, of course, he is only a little man. He was never meant to be anything very much; and he was never very strong. Let us look at the Records. Yes. There are some favourable points, you know.'”

[“‘Agora o caso Niggle”, disse uma voz, uma voz grave, mais grave do que o médico. ‘Qual era o problema com ele?’ disse uma segunda voz, uma voz que você poderia ter chamado gentil, embora não fosse suave – era uma voz de autoridade, e soava ao mesmo tempo esperançosa e triste ‘Qual era o problema com Niggle? Seu coração estava no lugar certo?’.
‘Sim, mas ele não funciona corretamente’, disse a primeira voz ‘E a sua cabeça não estava parafusada firme o suficiente… ele quase nunca pensava. Olha o tempo que ele perdeu, nem mesmo pensou em se divertir! Nem ficou pronto para sua viagem. Ele estava moderadamente tranquilo de vida, e ainda assim ele chegou aqui quase desamparado, e teve que ser colocado na ala dos indigentes. Um caso complicado, eu receio. Acho que ele deveria ficar mais algum tempo. ‘Não lhe faria mal nenhum, talvez’, disse a Segunda Voz. ‘Mas, é claro, ele é apenas um pequeno homem. Ele nunca foi feito para ser alguém maior, e ele nunca foi muito forte. Vejamos os registros. Sim. Existem alguns pontos favoráveis, você sabe.”]

Depois de um longo exame realizado pelo médico e o outro personagem, Niggle que ouvira tudo perguntou se poderia rever Parish, e se eles poderiam curar sua perna.

Considerado pronto para o outro estágio, Niggle amanheceu num ambiente claro, com roupas novas e foi encaminahdo pelo condutor ao trem que lhe levou por um caminho brilhante.

Foi levado a uma encosta verde, viu sua bicicleta, subiu nela e desceu o morro sentindo a brisa leve e o suave calor do sol em seu rosto. O caminho parecia familiar, até que se deparou com sua árvore, e ela estava terminada, mas não acabada. E voltando para a floresta viu que havia mais coisas não concluídas.

Percebeu que não conseguiria concluir nada sem ajuda, e lembrou-se de Parish, exímio conhecedor das plantas. Percebeu enfim que nada fazemos sozinhos.

Ele viu um homem perdido, sem saber o que fazer. Era Parish, e ambos felizes como nunca começam a realizar tarefas no campo.

Um dia ao terminar o trabalho, caminharam até o limite daquele lugar, e ao longe avistaram um pastor que caminhava ao encontro deles. Ao chegar o pastor perguntou se eles queriam um guia.

Niggle percebeu que deveria continuar, mas Parish exitou pois queria esperar por sua esposa, outro belo trecho:

“I must wait for my wife,” said Parish to Niggle. “She’d be lonely. I rather gathered that they would send her after me, some time or other, when she was ready, and when I had got things ready for her. The house is finished now, as well as we could make it; but I should like to show it to her. She’ll be able to make it better, I expect: more homely. I hope she’ll like this country, too.” He turned to the shepherd. “Are you a guide?” he asked. “Could you tell me the name of this country?” “Don’t you know?” said the man. “It is Niggle’s Country. It is Niggle’s Picture, or most of it: a little of it is now Parish’s Garden.”

“Eu tenho que esperar pela minha esposa”, disse Parish a Niggle. “Ela se sentiria sozinha. Achava que iriam mandá-la atrás de mim, em algum momento ou outro, quando estivesse pronta, e quando eu tivesse deixado as coisas pronto para ela. A casa está acabada agora, tão bem como nós poderíamos fazê-la, mas eu gostaria de mostrar a ela. Ela vai ser capaz de torná-la ainda melhor, eu espero: mais caseira. Eu espero que ela goste deste país, também. Ele se virou para o pastor: Você é um guia?”, ele perguntou. “Você poderia me dizer o nome deste país?” “Você não sabe?” disse o homem. “É o país de Niggle. Ele é a pintura do Niggle, ou mais que isso: um pouco dela é agora o Jardim de Parish”.

Os dois admirados se reconciliaram como nunca, e se despediram de forma amorosa, e Niggle partiu com o Pastor.

No seu país de origem, dois personagens discutem o que fazer com a pintura de Niggle que estava em sua casa. Por fim foi desmanchada, mas uma parte, uma bonita folha, foi enquadrada e levada para um museu. Depois de um tempo o museu pegou fogo, sua obra queimou e seu nome fora esquecido para sempre em seu antigo país.

Porém a obra concluída por Niggle e Parish se tornou um lugar maravilhoso, onde muitos outros puderam se curar, e ficou conhecida como “Niggle’s Parish” (ou traduzindo: Freguesia de Niggle ou Paróquia de Niggle).

Amigos. Não deixem de ler este belíssimo conto. O conto além de apresentar muito do próprio sentimento de Tolkien (perfeccionista, perseverante, etc), apresenta sua mente piedosa e católica, daí não nos espantarmos em encontrar nos eventos e ambientes realidades da fé católica, tais como: expiação, purgatório, paraíso etc.

Continua(…) em breve postaremos a sequência, aguardem!

Cláudio Santos

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