Bonum Legere – J. R. R. Tolkien / Biografia – O amor pela Filologia (1.2)

Comentário inicial: Amigos, nesta segunda postagem sobre a biografia de Tolkien, relataremos um pouco sobre sua paixão pelas línguas, e quem e o que o motivou. Sua capacidade de estudar uma língua, sem esquecer da sua literatura e dos movimentos históricos e culturais que a envolvem, o tornou um dos maiores filólogos do século passado. Tornou-se doutor em Letras e Filologia pela Universidade de Liège e Dublin, e foi professor na Universidade de Oxford durante cerca de 35 anos, ensinando anglo-saxão, inglês e literatura inglesa.

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1.1 Bonum Legere – J. R. R. Tolkien / Biografia – Primeiros Anos (1.1)

J. R. R. Tolkien – O amor pela Filologia

O alfabeto do Quenya - Língua Élfica (Parma Eldalamberon XX, jornal linguístico sobre J.R.R. Tolkien)

O alfabeto do Quenya – Língua Élfica (Parma Eldalamberon XX, jornal linguístico sobre J.R.R. Tolkien)

Tolkien foi um homem de uma capacidade impressionante. Ainda adolescente, ficou confuso ao ouvir seu primos e colegas falando uma língua estranha, o que chamavam de Animalic. Era uma brincadeira infantil, onde as crianças misturavam os nomes animais e formavam frases que só elas entendiam. Inteligente, Tolkien logo decifrou os segredos desta “língua”.

Curiosidade:

Tolkien escreveu um ensaio, onde revelou que a filologia sempre foi um vício, e publicou nas páginas do “The Monsters and the Critics”, um exemplo desta estranha linguagem o Animalic: “Dog nightingale woodpecker forty”, que traduzido para o inglês seria “you are an ass”, em português, “você é um idiota” (Nota: Tolkien explica que “forty” (40) é “donkey” (burro), e “donkey” é “forty”, entendeu? rs).

Pouco depois entre as crianças, o “Animalic” parou de ser usado (tornou-se uma língua morta, hehe), mas logo criaram outra, um pouco mais desenvolvida a “Nevbosh” (a “new nonsense” linguagem). Tolkien não foi o criador desta linguagem, mas agora ele efetivamente era membro do grupo falante (“I was a member of the Nevbosh-speaking world“, afirmou Tolkien).

As brincadeiras infantis não foram inúteis como muitos adultos pensavam, na verdade em sua mente procurava novos meios de criação. Solitariamente ainda brincou de criar novas línguas, como o “Naffarim“, porém nada o satisfazia plenamente. Em todas estas linguagens infantis, Tolkien tentou empregar seus conhecimentos de outras línguas, como o próprio inglês, o espanhol, o francês e o latim.

Certamente o mundo literário de Tolkien seria diferente sem a influência de sua mãe, que passava seus conhecimentos do indioma grego e do latim a seus filhos desde pequenos, além das leituras de contos de fadas. O espanhol, língua nativa do Padre Francis também teve grande influencia, além do italiano, francês, e finalmente o finlandês e o galês, línguas mais influentes nas futuras línguas élficas que criaria (o finlandês serviu de base para criação do Quenya, e o galês base para o Sindarin). Tolkien primava pela beleza da língua e pelos sons produzidos por seus fonemas.

Após a morte de sua mãe, e de terem ingressado no orfanato, Padre Francis, considerado por Tolkien como seu segundo pai e responsável pelo seu caráter caridoso e piedoso, logo percebeu seu talento linguístico, e sua forte motivação pelos estudos. A paixão pelas línguas era aparente, tanto que sempre se destacou pelo rápido aprendizado do grego, latim, línguas antigas e modernas, como o finlandês.

Curiosidade:

Com dezesseis anos, em 1908, Tolkien e seu irmão foram alojados próximos a jovem Edith Bratt, três anos mais velha. Tolkien se apaixonou pela moça, e os dois começam a namorar às escondidas. Padre Francis Morgan, descobriu, e preocupado com estudos de Tolkien, proibiu os encontros, e ordenou a Tolkien que somente tornaria a vê-la quando fosse maior de idade, ao completar vinte e um anos de idade.

Sua obra também poderia não ter atingido a dimensão conquistada, se não fossem as sociedades em que participou. Em 1911, Tolkien e três amigos que estudavam com ele na King Edward’s School, em Birmingham, formaram a “Tea Club and Barrovian Society”, TCBS. O nome foi escolhido devido ao gosto que tinham em tomar chá na Barrow’s Stores, que ficava próximo a escola. Neste grupo conversavam sobre línguas, literatura, folclores e cultura. Quando termiram os estudos na King Edward’s, os três se reuniram mais uma vez em dezembro de 1914, o que motivou Tolkien a escrever poesia e estudar novas línguas.

Outro grupo de estudos, ou sociedade como gostavam de chamar, foi o “The Coalbiters“. Este grupo se dedicava mais à literatura nórdica, como exemplo, liam as lendas de Beowulf. O termo “Coalbiters” tinha origem em “Kolbitars”, que significava mais ou menos homens de fogo que vivem no frio e comem carvão. Esta sociedade tinha dez membros, porém uma muito significativa para a literatura inglesa moderna, e que se tornou extremamente influente na vida e obra tolkieana, Clive Staples Lewis, ou, C.S. Lewis.

Curiosidade:

Tolkien e Lewis foram grandes amigos durante décadas, até a morte de Lewis (em 1963, aos 64 anos, quase dez anos antes da morte do próprio Tolkien), e essa amizade foi explorada no livro O Dom da Amizade: Tolkien e C. S. Lewis. De fato, O Senhor dos Anéis provavelmente não existiria sem os conselhos e o incentivo de Lewis, que aliás foi o primeiro a ouvir a história, e Tolkien jamais deixou de admirar a grande inteligência e criatividade de Lewis, e vice-versa. [Fonte: Wikipedia]

Tolkien, no seu uniforme militar, em 1916.

Tolkien, no seu uniforme militar, em 1916.

Tolkien ficou noivo em 1914 com Edith Bratt (esta história ainda renderá uma postagem). Como todos sabem, 1914 foi o ano em que iniciou a Primeira Guerra Mundial, e em 1916 Tolkien não se livrou de ser convocado para a guerra. No ano anterior ele recebeu com honras o diploma de gradução em línguas, porém mesmo assim foi para a guerra e enviado para a província de Somme, na região ao norte da França.

Tolkien sempre deixou claro que sua intenção não era apenas  criar histórias de ficção soltas no tempo com cenas excitantes de aventuras com monstros e heróis. Sua fixação era a linguagem. Ainda durante a guerra, Tolkien iniciou a construção das línguas élficas e ao mesmo tempo exitou em continuar, conforme relatado pelo mesmo em uma carta escrita para Edith: “I had been working nonsense fairy language – to its improvement. I often long to work at it and don’t let myself ‘cause though I love it so it does seem such a mad hobby!” Mad or not, he was to give in to his longing and keep working on this hobby throughout his life. – Letters:8. (traduzindo: “eu estava trabalhando na absurda linguagem dos elfos  – a sua melhoria. Eu frequentemente gasto muito tempo trabalhando nisso e não me permito mais, porque embora eu adore, ela parece um passatempo tão louco!“).

Tolkien participou da Batalha de Somme, uma das piores ações dos aliados naquela guerra, onde morreram mais de 500 mil combatentes. Tolkien não foi um deles, porém contraiu tifo e retornou a Inglaterra. Neste período de batalha, doença e recuperação além da primeira lista de palavras élficas, surgiram os primeiros relatos da “Mythology for England”. Os relatos se juntaram a outros, e formaram o Livro dos Contos Inacabados. Parte destes contos formaram o grande e preferido livro de Tolkien, “O Silmarillion” de 1919, e que só viria a ser publicado pelo seu filho, quatro anos após a sua morte.

Tolkien afirmou no seu ensaio “The Secret Vice” que: “The making of language and mythology are related functions” (A criação do idioma e mitologia são funções relacionadas), e ainda que “Your language construction will breed a mythology” (Sua construção de idioma irá gerar uma mitologia). Muitos anos após, depois da publicação do Senhor dos Anéis, Tolkien afirmou em uma carta que: “The invention of languages is the foundation. The ‘stories’ were made rather to provide a world for the languages than the reverse. To me a name comes first and the story follows… [LotR] is to me…largely an essay in ‘linguistic aesthetic’ ” (A invenção de idiomas é a base. As histórias foram feitas mais para fornecer um mundo para os idiomas do que o inverso. Para mim, um nome vem primeiro e a história segue … O Senhor dos Anéis é para mim … em grande parte um ensaio na estética lingüística” (Letters:219-220).

tolkien_lewis

É difícil de atingir a capacidade deste homem, e o próprio sabia que poucas pessoas o levavam a sério: “Nobody believes me when I say that my long book is an attempt to create a world in which a form of language agreeable to my personal aesthetic might seem real … But it is true.” (Ninguém acredita em mim quando eu digo que meu longo livro é uma tentativa de criar um mundo no qual uma forma de idioma agradável à minha estética pessoal pudesse parecer real, Mas é verdade.” (Letters:264).

Ao terminar a guerra, Tolkien retornou a Oxford como professor. Rapidamente tornou-se respeitado na academia, tornando-se um dos maiores filólogos da Inglaterra. Foi responsável pela criação da equipe que criou o New English Dictionary (equivalente ao Aurélio). O supervisor de seu trabalho afirmou que Tolkien em “Seu trabalho dá provas de um domínio excepcional de anglo-saxão e dos fatos e princípios da gramática comparada das línguas germânicas. Na verdade, não hesito em dizer que nunca conheci um homem da sua idade que se igualasse a ele nesses aspetos.”

Posteriormente ambos, Tolkien e Lewis, a partir de 1930, começaram a se reunir com outros acadêmicos da Universidade Oxford, no pub “The Eagle and Child”. Destes encontros formou-se outro grupo chamado “The Inklings”,  que manteve encontros até 1949. Os Inklings tinham como característica motivar a fantasia sem esquecer os cuidados necessários na narrativa na ficção. O grupo não era formado por pensadores de apenas uma religião, no caso a cristã. Ao contrário incluía pessoas de outras denominações religiosas, inclusive ateus e antroposofistas.

Curiosidade:

O estudo das línguas élficas iniciou-se em 1954, na ocasião do lançamento de “A Sociedade do Anel” na Inglaterra.
Hoje, existem duas publicações tradicionais em inglês que tratam somente do estudo das línguas criadas por Tolkien, além da edição e publicação de manuscritos inéditos. Estas são o Parma Eldalamberon e o Vinyar Tengwar. Há outros sites especializados nas línguas de Tolkien, embora o enfoque não seja o estudo acadêmico em si, mas sim voltados à criação de uma versão padronizada que permita a composição de prosa e poesia. O mais conhecido é a Ardalambion, criada pelo norueguês Helge Fauskanger. Ele criou o Curso de Quenya, que vem sendo a porta de entrada a milhares de novos estudantes das línguas élficas em todo mundo. Outro site, mais recente, é o Parma Tyelpelassiva, do alemão radicado nos EUA, Thorsten Renk. Lá é o lar do Curso de Sindarin. A primeira edição brasileira licenciada d’O Senhor dos Anéis data de 1994, embora o primeiro grupo criado em torno de Tolkien, a Heren Hyarmeno, tenha sido criada nos anos 1980. Infelizmente, isto atrasou consideravelmente a popularização de Tolkien no Brasil, sem nem mencionar as línguas élficas. [fonte: site Tolkien e o Élfico]

Bem amigos, por hoje é só. Mas para os que gostam de poesia, segue uma recitada pelo próprio Tolkien, e em elfo. kkkk

http://super.abril.com.br/blogs/cultura/ouca-j-r-r-tolkien-recitando-um-poema-na-lingua-dos-elfos/

Continua(…) – Bonum Legere – J. R. R. Tolkien / Biografia – Valores Cristãos (1.3)

Fontes de pesquisa:
http://www.tolkiengateway.net
http://www.tolkien-online.com/
http://lotr.wikia.com
http://folk.uib.no/hnohf/
http://www.tolkiensociety.org/
http://www.valinor.com.br
http://www.mythsoc.org/inklings/
http://www.inklings-studies.com/
http://tolkienbrasil.com
http://pt.wikipedia.org/wiki/J._R._R._Tolkien

1 comment for “Bonum Legere – J. R. R. Tolkien / Biografia – O amor pela Filologia (1.2)

  1. 18 de abril de 2013 at 12:53

    Gosto muito de português,literatura, e outras linguas,inclusive o inglês,onde o anglo-saxão é base. E não conhecia este personagem tão rico, o Tolkien. agradeço pela postagem desta bela biografia.Paz e Bem !

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