Bonum Legere – O Hobbit (1.6)

Comentário inicial: Sabemos que nosso blog estava devendo a continuação da saga, mas o caminho se faz caminhando, e certos trechos se tornam demasiadamente grandes impedindo-nos de nos comunicarmos devidamente. Neste período de silêncio, contudo, não nos esquecemos da  nossa dívida com alguns leitores do blog, digo, das explicações acerca da salutar leitura de livros de fantasia, ou contos de fada. Temos vários argumentos favoráveis, mas falta-nos tempo para empreender este caminho, e não gostaríamos de iniciá-lo antes de tomar fôlego suficiente.

Bem! Voltemos para o assunto deste post. Tenho sido questionado por amigos sobre o filme “O Hobbit”. Confesso, que apesar de amante desta história, vi apenas o primeiro filme, e não gostaria de emitir opinião antes ver toda a trilogia (o terceiro filme só no final de 2014). Mas posso recomendar a leitura do livro evidentemente, e sobre isto falarei abaixo.

Post anterior:

1.5 Bonum Legere – O Silmarillion

J. R. R. Tolkien – O Hobbit

hobbit“Numa toca no chão vivia um hobbit. Não uma toca desagradável, suja e úmida, cheia de restos de minhocas e com cheiro de lodo, tampouco uma toca seca, vazia e arenosa, sem nada em que sentar ou o que comer: era a toca de um hobbit, e isso quer dizer conforto.”

1. Origens: Como surgiu a inspiração?

Em postagens anteriores, dissemos que o mundo que envolve a saga dos Hobbits é imenso, iniciado eras antes nas terríveis batalhas da Terra Média narradas em “O Silmarillion”, seguindo pelo desafiador percurso de Bilbo com os anões até a Desolação de Smaug e seu retorno em “O Hobbit”, e posteriormente na incrível e encantadora trilogia envolvendo o hobbit Frodo em “O Senhor dos Anéis”.

Digo comumente aos amigos que considero o livro “O Hobbit” como um apêndice do livro “O Silmarillion”, ou uma preparação para a trilogia de “O Senhor dos Anéis”. Dentro da mitologia tolkieniana, a estória narrada em “O Hobbit”, ocorre num tempo que se encontra entre as estória dos demais livros.

O livro foi inicialmente escrito para os seus filhos, visto que as narrativas dos povos da terra média, não são muito recomendáveis para serem lidas para os menores.

Certamente por este motivo, “O Hobbit” é encarado por muitos como um livro para o público infanto-juvenil, no entanto, como relatarei neste post, embora a narrativa pareça em certos momentos cansativa, ou um pouco infantil, ela possui uma base extremamente sólida, com uma profunda abordagem filosófica, base esta que muitos adultos não conseguem perceber.

Mesmo tendo publicado primeiramente “O Hobbit” (em 21 de Setembro de 1937), a intenção de Tolkien sempre foi publicar inicialmente a narrativa sobre a saga das Silmarils, porém a providência divina, característica marcante nas suas obras, também deixou suas marcas na história da família tolkien.

A Biografia de Tolkien: “J.R.R. Tolkien – O Senhor da Fantasia”, escrita por Michael White, retrata muito bem os passos de Tolkien até seu sucesso mundial. Michael narra novelísticamente o período de aperto financeiro e de tempo em que atravessava o Religioso, Amigo, Escritor, Professor, Pai, e Marido Tolkien, até que num de seus trabalhos de “bico”, como dizem, suscitou na sua mente, talvez aquela que seria a maior das suas inspirações.

Tolkien verificava provas de estudantes do ano de 1928, quando entre os certificados encontrou um papel em branco, e olhando um buraco no carpete de seu escritório, subitamente escreveu:

“Num buraco no chão vivia um hobbit”

Esta inspiração, o levou a escrever seus manuscritos, e contá-los para seus filhos. Posteriormente, devido a proximidade, emprestou-os a C.S.Lewis seu amigo para que desse um parecer. Ambos eram membros do grupo “Os Inklings” e professores de Oxford. Lewis encantou-se com seus escritos, comentou-os, recomendando alterações e participou ativamente deste trabalho.

Pouco tempo depois, uma das estudantes de Tolkien também teve acesso aos seus manuscritos. Seu nome era Elaine Griffiths. Em 1936, Elaine sugeriu a Susan Dagnall, que era membro da equipe da editora George Allen & Unwin, a pegar com Tolkien os manuscritos do livro para dar a sua apreciação.

O manuscrito chegou então às mãos de Stanley Unwin, que solicitou o parecer de seu filho Rayner, de dez anos de idade. Todas as impressões foram positivas, com isso a editora George Allen & Unwin publicou o livro em em 21 de Setembro de 1937, eis a capa da primeira publicação:

O livro foi um sucesso de vendas, mesmo sentindo os efeitos da Segunda Guerra Mundial, que ocasionou a falta de papéis, e dificuldades de distribuição e divulgação.

No pós-guerra, várias edições se sucederam, inclusive a versão de bolso americana (e não autorizada) publicada pela editora Ace Books em 1965. O sucesso desta versão foi tão grande que foi possível pagar a multa decretada pela justiça em favor da George Allen & Unwin e Tolkien, e ainda assim obter um lucro admirável.

A editora londrina solicitou a Tolkien uma continuação da saga, que culminou na publicação da trilogia do livro “O Senhor dos Anéis”, mas sobre isso falarei no post especifico.

2. A Filosofia: Platão e Agostinho em “O Hobbit”.

Há dentre os famosos diálogos platônicos a referência a um anel de poder, que sem dúvida inspirou Tolkien. Em “A República” (ver o livro aqui), há o diálogo entre Sócrates e Glauco sobre a justiça, este segundo afirma que a justiça é uma convenção entre partes, não é algo que possa ser adquirido e perpetuado pelo ser humano, algo intrínseco em seu ser:

Os homens afirmam que é bom cometer a injustiça e mau sofrê-la, mas que há mais mal em sofrê-la do que bem em cometê-la. Por isso, quando mutuamente a cometem e a sofrem e experimentam as duas situações, os que não podem evitar um nem escolher o outro julgam útil entender-se para não voltarem a cometer nem a sofrer a injustiça. Daí se originaram as leis e as convenções e considerou-se legítimo e justo o que prescrevia a lei. E esta a origem e a essência da justiça: situa-se entre o maior bem — cometer impunemente a injustiça — e o maior mal — sofrê-la quando se é incapaz de vingança.

Glauco tenta convencer Sócrates sobre a sua tese através do exemplo do personagem Giges, segue um trecho:

Concedamos ao justo e ao injusto a permissão de fazerem o que querem; sigamo-los e observemos até onde o desejo leva a um e a outro. Apanharemos o justo em flagrante delito de buscar o mesmo objetivo que o injusto, impelido pela necessidade de prevalecer sobre os outros: é isso que a natureza toda procura como um bem, mas que, por lei e por força, é reduzido ao respeito da igualdade. A permissão a que me refiro seria especialmente significativa se eles recebessem o poder que teve outrora, segundo se conta, o antepassado de Lídio, Giges. Este homem era pastor a serviço do rei que naquela época governava a Lídia. Certo dia, durante uma violenta tempestade acompanhada de um terremoto, o solo fendeu-se e formou-se um precipício perto do lugar onde o seu rebanho pastava. Tomado de assombro, desceu ao fundo do abismo e, entre outras maravilhas que a lenda enumera, viu um cavalo de bronze oco, cheio de pequenas aberturas; debruçando-se para o interior, viu um cadáver que parecia maior do que o de um homem e que tinha na mão um anel de ouro, de que se apoderou; depois partiu sem levar mais nada. Com esse anel no dedo, foi assistir à assembléia habitual dos pastores, que se realizava todos os meses, para informar ao rei o estado dos seus rebanhos. Tendo ocupado o seu lugar no meio dos outros, virou sem querer o engaste do anel para o interior da mão; imediatamente se tomou invisível aos seus vizinhos, que falaram dele como se não se encontrasse ali. Assustado, apalpou novamente o anel, virou o engaste para fora e tomou-se visível. Tendo-se apercebido disso, repetiu a experiência, para ver se o anel tinha realmente esse poder; reproduziu-se o mesmo prodígio: virando o engaste para dentro, tomava-se invisível; para fora, visível. Assim que teve a certeza, conseguiu juntar-se aos mensageiros que iriam ter com o rei. Chegando ao palácio, seduziu a rainha, conspirou com ela a morte do rei, matou-o e obteve assim o poder. Se existissem dois anéis desta natureza e o justo recebesse um, o injusto outro, é provável que nenhum fosse de caráter tão firme para perseverar na justiça e para ter a coragem de não se apoderar dos bens de outrem, sendo que poderia tirar sem receio o que quisesse da ágora, introduzir-se nas casas para se unir a quem lhe agradasse, matar uns, romper os grilhôes a outros e fazer o que lhe aprouvesse, tornando-se igual a um deus entre os homens. Agindo assim, nada o diferenciaria do mau: ambos tenderiam para o mesmo fim. E citarse- ia isso como uma grande prova de que ninguém é justo por vontade própria, mas por obrigação, não sendo a justiça um bem individual, visto que aquele que se julga capaz de cometer a injustiça comete-a.

Sabemos no entanto pela filosofia do “Livre-Arbítrio” de Santo Agostinho, que há sim uma Vontade livre, que permite ao homem a escolha de agir bem, ou não. Logo no início do diálogo, quando questionado por Evódio, se Deus é o autor do mal, Agostinho o questiona:

Dir-te-ei, se antes me explicares a que mal te referes. Pois, habitualmente, tomamos o termo “mal” em dois sentidos: um, ao dizer que alguém praticou o mal; outro, ao dizer que sofreu algum mal. (…) se sabes ou acreditas que Deus é bom — e não nos é permitido pensar de outro modo —, Deus não pode praticar o mal. Por outro lado, se proclamamos ser ele justo — e negá-lo seria blasfémia —, Deus deve distribuir recompensas aos bons, assim como castigos aos maus. E por certo, tais castigos parecem males àqueles que os padecem. É porque, visto ninguém ser punido injustamente — como devemos acreditar, já que, de acordo com a nossa fé, é a divina Providência que dirige o universo —, Deus de modo algum será o autor daquele primeiro género de males a que nos referimos, só do segundo.

Eis a Divina Providência anunciada por Santo Agostinho.

As obras tolkienianas são recheadas de momentos onde o agente é notadamente a providência. Quem leu o livro nota mais claramente estes momentos, mas no filme também não é difícil perceber a sua ação.

No livro “O Hobbit”, o momento em que Bilbo cai pelo túnel da montanha e encontra o anel é certamente o primeiro dos muitos casos, onde percebe-se a inversão do discurso platônico sobre a justiça e a injustiça, ou, o bem e o mal.

Como não notar que Bilbo é o justo, e Gollum o injusto?

Gollum apoderou-se do anel, e utilizou-se dele para cometer injustiças, afinal porque não cometê-las se o anel o esconde, e não há testemunhas que deponham contra ele? Há apenas sua consciência. Esta é a única testemunha.

Bilbo encontra o anel providentemente, e descobre também providentemente seu poder. Por que então não matar Gollum? Afinal, este o ameaça, o cerca, o quer mal. Não seria legítima defesa?

Porém Bilbo, na sua justiça interior, por livre vontade, escolhe o bem, e não mata Gollum, apenas se utiliza do anel e foge da morte.

Segue mais um trecho de “Livre-Arbítrio” por Santo Agostinho (ver o livro aqui):

(…) se é verdade que o homem em si seja certo bem, e que não poderia agir bem, a não ser querendo, seria preciso que gozasse de vontade livre, sem a qual não poderia proceder dessa maneira. Com efeito, não é pelo fato de uma pessoa poder se servir da vontade também para pecar, que é preciso supor que Deus no-la tenha concedido nessa intenção(…)

(…) quando Deus castiga o pecador, o que te parece que ele diz senão estas palavras: “Eu te castigo porque não usaste de tua vontade livre para aquilo a que eu a concedi a ti”? Isto é, para agires com retidão. Por outro lado, se o homem carecesse do livre-arbítrio da vontade, como poderia existir esse bem, que consiste em manifestar a justiça, condenando os pecados e premiando as boas ações? Visto que a conduta desse homem não seria pecado nem boa ação, caso não fosse voluntária. Igualmente o castigo, como a recompensa, seria injusto, se o homem não fosse dotado de vontade livre. Ora, era preciso que a justiça estivesse presente no castigo e na recompensa, porque aí está um dos bens cuja fonte é Deus.
Conclusão, era necessário que Deus desse ao homem vontade livre.

Em uma das visões de Santa Ângela de Foligno, Deus lhe fala que “Não foi para rir que eu te criei”.

Deus inscreveu em nossas almas o poder da decisão, escolher ou não algo nos faz livres, não somos joguetes nas mãos de Deus, todavia, só um caminho nos permitirá sermos livres, pois a todo instante somos livres para pecar, entretanto, muitos quando viciados pelo pecado, não se sentem livres, não encontram forças para se libertar do mal, pois o mal aprisiona, e o bem liberta.

É verdade que há o acidente do Pecado Original na história humana, contudo, nossas almas tem sede do infinito, e quando repousadas no absoluto, lugar este onde está apoiada a Verdade, há paz.

O Hobbit certamente nos ensina muito. E torço que tenha ajudado a você a encarar de maneira diferente esta estória, cheia de ensinamentos virtuosos, de amizade, corajem, lealdade, missão e fé.

Cláudio Santos

1 comment for “Bonum Legere – O Hobbit (1.6)

  1. Douglas
    29 de Março de 2016 at 16:18

    Caro Cláudio, ainda estou no aguardo de sua promessa… vide comentário inicial….rs

    Porém, este assunto está encerrado para mim… no bom sentido claro.

    Abraços

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