Bonum Legere – O Silmarillion (1.5)

Comentário inicial: Enfim o primeiro dos grandes livros. Nesta postagem iniciaremos uma peregrinação pelo mundo de Arda, espero que gostem. (link para o livro em .pdf – aqui)

Post anterior:

1.4 Bonum Legere – J. R. R. Tolkien / A Folha de Niggle (Leaf by Niggle) (1.4)

J. R. R. Tolkien – O Silmarillion

800px-Silmarrillion,_Just_under_the_CoverComo dito anteriormente (ver aqui), Tolkien serviu e participou da 1ª Grande Guerra Mundial. Em 1917, fora enviado para a batalha de Some, onde morreram cerca de 500mil soldados aliados.

Tolkien adoeceu neste período, e quando em recuperação, começou a escrever o “The Book of Lost Tales“. Certamente impressionado com a violência, mortes etc.

Tolkien escreveu um livro simplesmente fantástico, principalmente aos amantes de histórias épicas, com queda e redenção, amores impossíveis e perfeitos, monstros, reis, dragões, lobos e muito, muito mais.

Há quem critique Tolkien pela linguagem mais inocente em relação ao “Game of Thrones” de George R.R. Martin, que antes de ser um concorrente, é um fã de Tolkien. Certamente por desconhecimento das estórias de “O Silmarillion“, e por parte das críticas focar-se nas sagas em “O Hobbit” e “O Senhor dos Anéis”, consideradas por muitos como adolescentes demais. Na minha opinião, “todos” são livros profundos e incríveis, capazes de provocar risos e em certos momentos tensão, devidas às cenas de batalhas e diálogos. Posteriormente haverão posts dedicados. Todavia, dentre eles o mais tenebroso, tenso, épico, e estimulante é “O Silmarillion“.

O Silmarillion é uma publicação póstuma. Coube a Christopher Tolkien organizar melhor os escritos e publicá-lo em 1977 (vale a pena ao menos a leitura do prefácio do livro, ecrito por Cristopher). A primeira edição brasileira foi publicada pela Martins Fontes em 1994, após a publicação de O Senhor dos Anéis.

O Silmarilion é uma especie de “antigo testamento” da terra de Arda (para os que não sabem, Arda é o planeta Terra dos contos de Tolkien). É basicamente a história da região chamada da “Terra Média”, desde a Criação (Genesis), a queda de um dos Ainur, os “pecados” e ofensas a Eru (o deus de Arda) pelas criaturas, e onde ocorreram as principais guerras, entre os Valar, Maiar, Elfos, Anões e Homens.

As Silmarils - Por Marco

As Silmarils – Por Marco

Em suma, o núcleo histórico do livro gira em torno das Silmarils, jóias de grande poder criadas por Fëanor, um alto elfo, quando ainda viviam com os Valar, em Valinor. Após o período de prisão a que Melkor foi submetido, este ludibria todos em Valinor e rouba as Silmarils. Daí em diante a história descreve batalhas e perseguições na terra média, onde os alto elfos tentam recuperar as Silmarils.

Abaixo segue trecho do Prefácio do Livro, escrito por Christopher Tolkien:

O livro, embora devidamente intitulado O Silmarillion, contém não somente o Quenta Silmarillion ou O Silmarillion, mas também quatro outras obras curtas O Ainunlidalë e o Valaquenta, que são apresentados no início, estão na realidade intimamente associados a O Silmarillion. Já o Akallabêth e Dos anéis de poder, que aparecem no final, são totalmente separados e independentes (o que se deve salientar). Estão incluídos em obediência à explícita intenção de meu pai; por meio de sua inclusão, toda a história é descrita, desde a Música dos Ainur, com a qual o mundo começou, até a passagem dos Portadores do Anel saindo dos Portos de Mithlond, no final da Terceira Era.

Rascunhos de Arda - Por Tolkien

Rascunhos de Arda – Por Tolkien

Na literatura Tolkieniana da saga dos povos de Arda, o mais recomendável seria ler na ordem: O Silmarilion, O Hobbit e O Senhor dos Anéis. Dentro de cada livro, existem outros vários livros que descrevem com mais profundidade uma parte da história. É impressionante mesmo. Como uma mitologia tão vasta saiu da cabeça de um só homem?

Vamos explicar item a item, podem deixar. Este post serve apenas para motivar a leitura do livro, e vamos fornecer alguns subsídios para facilitar os novos leitores, claro!

1) Sobre o criador, o deus de Arda

Seu nome é Eru Ilúvatar, ou simplesmente Ilúvatar. O deus supremo dos elfos e homens. O nome Ilúvatar é composto de duas palavras na lingua élfica Quenia: ilu ou ilúvë “universo” e atar “pai”.

2) Sobre os Ainur:

Também do Quenia, significa “Sagrados”. São seres espirituais criados por Ilúvatar. A cada um foi dado o conhecimento de parte da mente de Ilúvatar, com exceção de Melkor e Manwe que eram irmãos, e os maiores dentre os Ainur, e a quem foram dados outros dons de Ilúvatar.

3) Sobre a música dos Ainur:

Música dos Ainur - Criação de Arda por Jacek Kopalski

Música dos Ainur – Criação de Arda por Jacek Kopalski

A criação de Ilúvatar se dava através da música. Ele ensinou-a aos Ainur, porém eles não eram capazes de criar os temas que provinham exclusivamente da mente de Ilúvatar.

4) Sobre a queda de Melkor, ou Morgoth:

Melkor sentia inveja de Manwe, e começou a tentar criar alguns temas para desafiar Ilúvatar. Começou a angariar adeptos (outros ainur) para cantarem seus temas. Certo momento Ilúvatar criou um tema, quando os Ainur começaram a cantar, houve uma dissonância provinda do canto de Melkor. Ocorreram outras vezes até que Ilúvatar puniu Melkor, que sentiu-se profundamente humilhado diante dos outros Ainur.

Tema de Melkor - por Felix Sotomayor

Tema de Melkor – por Felix Sotomayor

5) Sobre a criação de Arda, ou Eä:

Ilúvatar anunciou aos Ainur a criação de Arda, e deu o tema. Após a criação, permitiu aos que desejassem habitar Arda, e ajudar aos filhos de Ilúvatar (que seriam criados posteriormente). Os Ainur que foram para Arda passaram a ser chamados de Valar, e logo abaixo em poder os Maiar. Melkor também foi autorizado a descer para Arda, e este não foi considerado um “Valar”, pois preferiu seguir só em seu plano de maldade. Por isso passou a ser chamado de Morgoth, o Senhor das Trevas.

Rs… Sei que parece complicado entender tudo, peço que aguardem as próximas postagens.

Cláudio Santos

15 comments for “Bonum Legere – O Silmarillion (1.5)

  1. Douglas
    14 de agosto de 2013 at 11:49

    Dá pra ver um claro paralelo com a bíblia. Trocando nomes e formas é bem parecido, para não falar igual.

    A minha dúvida é: O que faz de livros com histórias fantasiosas serem recomendados ou não para cristãos?

    E so para não deixar avisar é dúvida mesmo e não crítica.

    Agradeço a ajuda,
    Abraços
    Fiquem com Deus

    • 14 de agosto de 2013 at 15:39

      Douglas,na minha opinião, livros bons para qualquer pessoa (cristãos ou não) são os que humanizam. Se serão de fantasia ou romance; suspense ou terror não importa.

      Essa é minha opinião.

      Abraço!

    • 14 de agosto de 2013 at 16:30

      Caro Douglas,

      De início recomendo a leitura das postagens anteriores, principalmente a “Bonum Legere – J. R. R. Tolkien / Biografia – Valores Cristãos (1.3)” (http://humanitatis.net/?cat=496).

      Outro ponto é o valor simbólico e cultural da humanidade.
      Uma obra de arte, musical, literária, não necessita dizer o nome de Deus para nos passar valores cristãos.

      O grupo “The Inklings” (http://en.wikipedia.org/wiki/Inklings) tem muito a nos ensinar neste sentido, tanto que deste grupo, surgiram dois ícones da chamada literatura fantástica, J.R.R. Tolkien e C.S. Lewis (autor das Crônicas de Nárnia), que em suas obras transbordaram os valores morais cristãos.

      E este ponto realmente é algo muito curioso.
      Opinião minha. Atualmente, principalmente no Brasil, devido a uma distorcida visão evangélica, esquecemos da arte na evangelização. A arte é uma expressão pedagógica que nos eleva o olhar ao transcedente.
      Posso até estar errado, mas suponhamos que Michelangelo nascesse hoje, e chegasse em uma paróquia brasileira para tentar pintar sua arte (semelhante da Capela Sistina), o que diriam os paroquianos, e vários padres? Acredito que seria expulso, e chamado de despudorado. rsrs…

      Avaliar a arte, a literatura, a música, e ver nela algo maior realmente é um desafio!
      Digo sem dúvida, ler os livros de Tolkien nos conduz a algo maior, divino!

      Abraço!

      • Douglas
        15 de agosto de 2013 at 11:23

        Caros,

        enriquecedores seus comentários. Fogem do senso comum. Li e compreendi, mas ainda não sei se concordo. Mas quero aprender mais sobre o tema da influência da arte na evangelização cristã.

        Queria explorar suas visões mais experimentadas sobre o tema humanizar e transcender, sem fazer relações com os livros do Tolkien e Lewis ou com históra fantasiosas. Vou levantar uma bola:

        Realmente não é necessario a arte ter um “DNA” cristão para passar os valores deste, mas fico em dúvida sobre humanizar e transceder sendo a arte cristã ou não. Lógico que pode conter alguns valores mas também distorcer outros e cair no relativismo, não pode?

        Ainda não tenho pensamento formado sobre isso e fico em dúvida se no final eu poderia estar somente no transcender independente se a Deus ou não. Digo isso porque em conversas na familia e com amigos fica meio obscuro como são influenciados.

        Me refirindo mais àqueles que ficam em cima do muro sobre sua fé: Por exemplo, sendo cristão, posso cair ou conduzir ao relativismo num livro de cunho budista? Pois no budismo também não se enxergar a transcendência e humanização, não posso?

        Agradeço seus comentários
        Abraços

        • 15 de agosto de 2013 at 17:28

          Caro,

          Agradeço a participação, principalmente a forma com que está conduzindo este pequeno debate.
          Não sou especialista no assunto, sou um engenheiro, que gosta de ler, não gosta somente de números. rsrs

          Voltando ao tema.
          Primeiro ponto: O que entendemos por arte?
          É uma habilidade, sem dúvida, até pela sua origem latina: “ars”. Mas muito mais do que isso, a arte é uma expressão, uma forma de manifestar sentimentos, idéias etc. e porque não também na religiosidade?

          Segundo Ponto: Entender o valor do simbolismo, e ver nele a dimensão religiosa.
          Como disse JP II em sua carta aos artistas (http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/letters/documents/hf_jp-ii_let_23041999_artists_po.html):
          “(…) Deus chamou o homem à existência, dando-lhe a tarefa de ser artífice. Na « criação artística », mais do que em qualquer outra actividade, o homem revela-se como « imagem de Deus », e realiza aquela tarefa, em primeiro lugar plasmando a « matéria » estupenda da sua humanidade e depois exercendo um domínio criativo sobre o universo que o circunda. Com amorosa condescendência, o Artista divino transmite uma centelha da sua sabedoria transcendente ao artista humano, chamando-o a partilhar do seu poder criador. Obviamente é uma participação, que deixa intacta a infinita distância entre o Criador e a criatura, como sublinhava o Cardeal Nicolau Cusano: « A arte criativa, que a alma tem a sorte de albergar, não se identifica com aquela arte por essência que é própria de Deus, mas constitui apenas comunicação e participação dela ».”

          Terceiro Ponto: Diferente dos períodos mais antigos do cristianismo, de fato a produção artística se desvínculou da religião. A produção da arte sacra em períodos como a Idade Média era superior não só em números como em beleza comparado às pagãs. Como diz JP II:
          Verdade é que, na Idade Moderna, ao lado deste humanismo cristão que continuou a produzir significativas expressões de cultura e de arte, foi-se progressivamente afirmando também uma forma de humanismo caracterizada pela ausência de Deus senão mesmo pela oposição a Ele. Este clima levou por vezes a uma certa separação entre o mundo da arte e o da fé, pelo menos no sentido de menor interesse de muitos artistas pelos temas religiosos.
          Mas, vós sabeis que a Igreja continuou a nutrir grande apreço pelo valor da arte enquanto tal. De facto esta, mesmo fora das suas expressões mais tipicamente religiosas, mantém uma afinidade íntima com o mundo da fé, de modo que, até mesmo nas condições de maior separação entre a cultura e a Igreja, é precisamente a arte que continua a constituir uma espécie de ponte que leva à experiência religiosa. Enquanto busca do belo, fruto duma imaginação que voa mais acima do dia-a-dia, a arte é, por sua natureza, uma espécie de apelo ao Mistério. Mesmo quando perscruta as profundezas mais obscuras da alma ou os aspectos mais desconcertantes do mal, o artista torna-se de qualquer modo voz da esperança universal de redenção.
          (…)
          A Igreja precisa particularmente de quem saiba realizar tudo isto no plano literário e figurativo, trabalhando com as infinitas possibilidades das imagens e suas valências simbólicas. O próprio Cristo utilizou amplamente as imagens na sua pregação, em plena coerência, aliás, com a opção que, pela Encarnação, fizera d’Ele mesmo o ícone do Deus invisível.

          Quarto Ponto: Sobre o livro de Tolkien. O próprio Tolkien, como deve ter lido nas postagens anteriores, não tinha intenção de produzir um tratado religioso, ou que o usassem como um. Mas Tolkien também não negou a influência religiosa, fundamentalmente católica no seu trabalho. E acredito que aí está o segredo até pelo que sempre disse São Josemaria Escrivá. Meu trabalho é engenharia, não devo pregar o evangelho no escritório em que trabalho, mas a “forma” com que trabalho, os valores que transmito no dia-a-dia, evangelizam, mesmo que não pronuncie o nome de Deus. Os colegas ao redor percebem. Da mesma forma o artista, ao expressar pela sua arte o que diz sua alma, irradiará mais que simples entretenimento, mas também algo belo maior, maior que um simples humanismo.

          Quinto e último ponto: Não há como comparar budismo com cristianismo. Humanísticamente podem ter similaridades, mas religiosamente e simbolicamente são dispares. Budismo é não-teísta. As seitas orientais são cíclicas, até nos símbolos, vemos pelos símbolos da “Roda da Vida”, ou do “Caminho Óctuplo”, e ainda o “Ciclo de Samra”. Sua idéia de carma, de séries de “renascimentos” para a evolução da alma diferem até o intuito das práticas humanísticas. Para o cristão como na simbologia da cruz, há a dimensão horizontal (homem – natureza), que vive juntamente com a dimensão vertical (homem – Deus), que além de ser maior não tem fim. São infinitas, e rendem a Deus toda a soberania. Lendo e vendo obras onde consguimos visualizar a presença dos elementos humanos, da natureza e divinos, facilmente sentimos que é algo equilibrado, uma arte sem lacunas. Por isso que a Igreja na sua sabedoria tem grupos de estudos que avaliam filmes e livros, para verificar se há neles aspectos cristãos, ou se afastam-se tornando-se nocivos aos fiéis. Os livros de Tolkien, principalmente “O Senhor dos Anéis” é impregnado de elementos que não vemos em seitas orientais ou nova era. A providência é uma delas.

          Concluindo: Pode não concordar comigo em vários pontos, e admito não ser o melhor especialista para te explicar tudo. Recomendo que se tiver tempo assista duas aulas, e leia o artigo que diponibilizo abaixo:
          http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/letters/documents/hf_jp-ii_let_23041999_artists_po.html
          http://www.formacaopolitica.com.br/portfolio/simbolismo-da-cruz-e-literatura/
          http://ciberteologia.paulinas.org.br/ciberteologia/wp-content/uploads/2009/05/01omaleopoder.pdf
          http://www.formacaopolitica.com.br/portfolio/tolkien-e-o-sagrado/

          Há vários trabalhos, artigos, vídeos, livros, espero poder disponibilizar isto tudo aos leitores do humanitatis, mas acho que por enquanto pode ajudar.
          Abraços.

        • 15 de agosto de 2013 at 20:54

          Entendo que o caso do budismo é diferente. Não se trata de arte, mas de doutrina filosófica. É o que diz Ratzinger: http://humanitatis.net/?p=6976

          Em sentido próprio, o budismo não possui transcendência. A doutrina é imanentista. A iluminação do budista acontece aqui e com esforço próprio. Diferentemente das religiões monoteístas, que tem como característica primária a distinção radical entre a divindade e o homem.

          Quanto à arte, recolo meus pontos: a beleza (quando verdadeira) sempre humaniza e, portanto, é aliada da fé cristã, venha a arte de onde vier.

          • Douglas
            17 de agosto de 2013 at 12:29

            Meus amigos,

            estou até sem graça de comentar em meios aos textos do humanitatis sobre Egito e projeto a favor do aborto. Mas é bom falar de assuntos que exaltam a beleza da vida.

            obrigado pelo seu tempo nas respostas tão cheias de conteúdo. Da pra ver que são grandes entusiastas e conhecedores dos assuntos. E Claudio, é bom saber que é engenheiro pois facilita a compreensão para mim que tb sou…rs

            Vocês abriram uma nova janela para mim, agora vou dar um mergulho nessa literatura. Só um parêntesis aqui (vocês devem saber mas coloco uma rápida informação): dentro da própria igreja – pelos personagens do livro do Senhor dos anéis, por exemplo – alguns católicos dizem para não ler tais livros. Isso, infelizmente, prejudica a evangelização pois acabam que as pessoas perdem de certa forma sua liberdade por desconhecimento próprio ou alheio. Então mais uma vez obrigado por disponibilizarem esse conhecimento. AInda bem que o oferecem gratuitamente. rs

            vi os vídeos e li partes da carta do JP II e post anteriores e gostei de tudo que vi.

            Acho que utilizei um mal exemplo quando falei em budismo (até por pouco conhecimento da doutrina) mas não queria me concentrar em discussão doutrina. Mas vi que foi um gancho para suas respostas.

            Meu argumento mesmo era mais na linha de que pessoas que não tem sua “personalidade religiosa” definida acabam fazendo uma colcha de retalhos de diversas doutrinas para “chamar de sua” nos diversos canais disponívies (livros, documentários, internet, etc.) achando que encontraram a ‘verdade oculta’ e acabam entrando no ciclo vicioso da nova era ou coisa parecida.

            Estas pessoas acabam confundindo a significância do sagrado e resumem a sua busca em uma procura da felicidade simplista do tipo: “essa tal doutrina não quer o mal de ninguém só quer que você seja feliz e fazer bem aos outros”. E coisas do tipo….

            Daí vem o ponto que gostei da carta de JP II, onde ele ressalta que a personalidade do artista, na sua sua obra, ele apresenta a distinção e conexação entre a parte moral e artistica. (trecho abaixo).

            “2. Nem todos são chamados a ser artistas, no sentido específico do termo. Mas, segundo a expressão do Génesis, todo o homem recebeu a tarefa de ser artífice da própria vida: de certa forma, deve fazer dela uma obra de arte, uma obra-prima.

            É importante notar a distinção entre estas duas vertentes da actividade humana, mas também a sua conexão. A distinção é evidente. De facto, uma coisa é a predisposição pela qual o ser humano é autor dos próprios actos e responsável do seu valor moral, e outra a predisposição pela qual é artista, isto é, sabe agir segundo as exigências da arte, respeitando fielmente as suas regras específicas.[2] Assim, o artista é capaz de produzir objectos, mas isso de per si ainda não indica nada sobre as suas disposições morais. Neste caso, não se trata de plasmar-se a si mesmo, de formar a própria personalidade, mas apenas de fazer frutificar capacidades operativas, dando forma estética às ideias concebidas pela mente.

            Mas, se a distinção é fundamental, importante é igualmente a conexão entre as duas predisposições: a moral e a artística. Ambas se condicionam de forma recíproca e profunda. De facto, o artista, quando modela uma obra, exprime-se de tal modo a si mesmo que o resultado constitui um reflexo singular do próprio ser, daquilo que ele é e de como o é. Isto aparece confirmado inúmeras vezes na história da humanidade. De facto, quando o artista plasma uma obra-prima, não dá vida apenas à sua obra, mas, por meio dela, de certo modo manifesta também a própria personalidade. Na arte, encontra uma dimensão nova e um canal estupendo de expressão para o seu crescimento espiritual. Através das obras realizadas, o artista fala e comunica com os outros. Por isso, a História da Arte não é apenas uma história de obras, mas também de homens. As obras de arte falam dos seus autores, dão a conhecer o seu íntimo e revelam o contributo original que eles oferecem à história da cultura.”

            Nessa linha, penso eu, que não podemos procurar arte pela arte e sim arte por conteúdo, e conteúdo da Verdade.
            E como bem disse Edith Stein ‘todo aquele que procura honesta e verdadeiramente a verdade encontrará Jesus Cristo’.
            Acredito que vocês também devem partilhar desse sentimento.

            No mais o meu muito obrigado e aguardo seus posts futuros.

            Abraços
            Douglas

            • 19 de agosto de 2013 at 16:02

              Olá, Douglas. Muito obrigado pela sua disponibilidade. E já solicito que, se você achar útil e se for possível, ajude a divulgar o Site Humanitatis entre seus contatos. Nós do apostolado acreditamos no bem, acreditamos na verdade, acreditamos na justiça, acreditamos no homem, enfim. E por isso damos parte importante de nosso tempo nesse trabalho para que mais e mais pessoas conheçam um pouco de arte, um pouco da religião católica, um pouco de política, um pouco de filosofia. Acreditamos que podemos acrescentar algo às pessoas. Mas vamos lá!

              Queria intervir na conversa para assinalar um ponto que você citou: que alguns fiéis da Igreja condenam certa literatura, certa pintura, certa música dizendo que essas obras são más por natureza. Não há postura mais equivocada!

              De fato, o homem é capaz das maiores barbaridades: guerras, roubos, assassínios. Mas se tem uma coisa que ele não conseguirá mesmo que muito tente é tornar mau algo que Deus fez bom por natureza. Ora, quando o Senhor terminou a criação Ele disse que tudo era bom. Portanto, a força humana não conseguirá nunca transformar algo que Deus diz ser bom em algo mau em si mesmo. Assim, nenhuma obra de arte pode ser má por natureza, mas apenas em certos aspectos: por exemplo, uma obra pictórica pode ser má eticamente, ou uma obra musical pode ser má fisicamente, mas nunca ontologicamente (isto é, na sua constituição real). O fá maior não é mau; o azul não é mau, o mármore não é mau. Assim, contemplar um dorso nu nunca será mau por natureza, mas poderá ser se cada um espectador particular tiver um olhar malicioso para a obra. Está claro, porém, que essa malícia não tem a ver diretamente com a obra. Um dado histórico: toda a Capela Sistina foi pintada por Michelângelo com personagens nus e nem por isso sua obra foi destruída. Até hoje se pode ver o dorso de Santo André sobre o Altar da Igreja.

              Entenda, Douglas, não disse e não quero insinuar que a ética nada tem a ver com a arte. Antes, parece-me que a arte mais universal é justamente aquela mais enraizada em valores éticos inegociáveis. Mas que há uma distinção entre beleza e bondade, parece-me que há. E a Igreja contempla essa distinção com sabedoria bimilenar. Muitos são os casos em que a ética cedeu à expressão artística em vista do valor estético inigualável de certas obras.

              Parece-nos que o escritor de Irmãos Karamazov tem razão, Douglas: “A beleza salvará o mundo” http://humanitatis.net/?p=1648. Nós diríamos, para sermos mais precisos, que a beleza pode salvar e pode perder o mundo tal qual nós vemos hoje. O cuidado sempre é salutar, mas o simplismo dedutivo (não é cristão, então é mau!) deve ser combatido. Pois assim fizeram os grandes santos e doutores da Igreja nesses séculos que nos antecederam.

              Abração!

    • Pedro
      20 de agosto de 2013 at 08:36

      Douglas,

      Gosto, pelo estilo do autor, da uma defesa da literatura dos “contos de fada” apresentada por G. K. Chesterton no capítulo IV (“The Ethics of Elfland”) do livro “Orthodoxy”. Pode ser lida online no original em http://www.gutenberg.org/ebooks/130. A defesa propriamente dita começa no sétimo paragrafo do texto; como explica o autor, os parágrafos anteriores – sobre tradição e democracia – eram um requisito para tornar tal defesa mais intelegível.

      Cordialmente,
      Pedro.

      • 20 de agosto de 2013 at 13:51

        Obrigado pela visita, senhor Pedro Maranhão. Já li Ortodoxia e lembro dessa parte do livro. Mas meu preferido – até agora – é “O que há de errado com o mundo”. Que análise, que perspectiva de mundo, que bom humor! Fica a dica…

      • 20 de agosto de 2013 at 15:35

        Pedro,

        Muito bem vindo, e concordo plenamente contigo.
        Confesso que quando li o livro Ortodoxia e vi que este assunto foi tratado por Chesterton, foi para mim uma grande alegria e rara surpresa, e uma confirmação de tudo o que Tolkien defendeu, a partir do seu ensaio “On Fairy-stories”, ou, “Sobre conto de fadas”, onde defende de maneira profundíssima a importância da fantasia, não só para o mundo infantil, mas fundamentalmente para o adulto.

        Aproveito o ensejo para citar um trecho de Ortodoxia que me marcou profundamente, disse Chesterton:
        “A imaginação não gera a insanidade. O que gera a insanidade é exatamente a razão.”
        E ele segue de forma brilhante:
        “Os poetas não enlouquecem; mas os jogadores de xadrez sim. Os matemáticos enlouquecem, mas isso raramente acontece com artistas criadores. Como se verá, não estou aqui, em nenhum sentido atacando a lógica: só afirmo que esse perigo está na lógica, não na imaginação.”

        Eu como engenheiro, tenho que bater palmas e de fato concordar que uma mente exata, racional e lógica, é mais doentia, mórbida e sem graça que uma mente imaginativa e criadora, que invade o terreno do imaterial e desafia nossa razão, nos surpreende, nos faz refletir, nos reaviva.

        P.S.: Já estou percebendo que antes de destacar outros pontos, tenho que fazer um post sobre a defesa da litertura fantástica, rs.

        • 20 de agosto de 2013 at 23:20

          Isso mesmo. Mais reflexões, Cláudio.

        • Douglas
          22 de agosto de 2013 at 11:41

          Senhores,

          tenho comentado com alguns amigos meus sobre este tema da literatura fantástica. Muitos ficam desconfiados e indico o blog a eles. E insisto que vocês façam uma defesa da literatura fantástica para ficar mais esclarecido.

          Então vou ponderar um pouco e mostrar a importância do blog de vocês ao meu ver.

          Meu Histórico: Grande parte do meu envolvimento na Igreja está na Renovação Carismática Católica (RCC). Sempre fui católico mas só comecei a ver Igreja com ‘i’ maiúsculo a coisa de 2 anos quando encontrei a RCC através da minha esposa. Então encaro como minha conversão a fé católica por assim dizer.

          Vi o Cláudio comentando de Josemaria Escriva, não sei se o Claudio tem ligação com a Opus Dei. Então, não sei o quanto conhecem da RCC mas ela é um tanto heterogênea. É dificil encontrar o equilíbrio entre o fé e razão. Vejo que cada uma tem uma tendência mais forte. Faço parte de uma comunidade de Niterói que tem pouco mais de 10 anos, então agora que está entrando na ‘adolecencia’. Lá tenhos acesso a uma espiritualidade intensa. O que me ajudou muito na parte do meu ‘crer’ e como admirador de St Agostinho preciso agora complementar com o ‘compreender’, certo? É nesse ponto lá carecemos.

          Então eu tenho lido muito. Mas minha literatura está mais nos livros espirituais e biografia dos santos, mas na hora de ir num cinema ou coisa do tipo esbarro na resistencia ao fantasioso.

          Então me fez muito bem esses artigos. São “libertadores”. Já li algo de St Agostinho e Chesterton mas ainda não me familiarizei bem com a linguagem mas continuo a insistir.

          Desta forma vejo o quanto é significativo explorar o site de vocês que são grandes entusiastas dos temas mais ‘intelectuais’ por assim dizer.

          Então prossigam com a iniciativa e fica uma idéia de vocês abrirem no futuro um espaço para temas da RCC para dar maior completeza a seu site.

          Abraços
          Obrigado pela ajuda
          Fiquem com Deus

          • 23 de agosto de 2013 at 16:49

            Amigo Douglas,

            Vou escrever bastante agora, mas a culpa é sua kkkkk.

            Estive comentando com o Professor Robson sobre o tema em questão.
            Irei me debruçar uns minutos sobre o tema e preparar um post sobre o assunto “fantasia”.
            Não se assuste!!!
            Já adiantei alguma coisa nas respostas acima, mas estou descobrindo que as obras de Tolkien são mais Agostinianas do que pensava, e a história (digo história mesmo, e não estória) inclusive pode ajudar a provar isto. Espero postar um artigo sobre este outro ponto.

            Sobre temas voltados a RCC, e as bençãos que recebemos a partir deste tão louvável movimento, certamente haverá postagens. Este é um site católico, e qualquer movimento fiel e obediente ao que diz o Papa, fundamentados no Sagrado Magistério e Tradição, com doutrinas convergentemente evangélicas merecem abordagens positivas, se divergiram puxamos a orelha (que nos puxem a orelha também se convenientemente for).

            Particularmente, minha caminhada na Igreja se entrelaça aos movimentos e comunidades carismáticas. Nunca me envolvi a ponto de ser membro delas, mas já ajudei diversas vezes, e livros como “Procura-se um intercessor” (que li em uma tarde, devido a profundidade e simplicidade tratada pelo autor) marcaram minha vida profundamente, e até hoje está na parte da frente das pratileiras de livros.

            Outro nome marcante neste cenário é o do Padre Raniero Cantalamessa. Seus livros e pregações são espiritualmente profundas, enaltecem o dom da fé, e motivam nossa razão. Caso não tenha lido, recomendo o livro “Espírito Santo”, e recomendo muitíssimo o precioso livro “Nós pregramos Cristo crucificado” (homilia da Sexta-feira da paixão no vaticano ao JPII), que inclusive foi citado no humanitatis: http://humanitatis.net/?p=5623.

            Sobre o equilíbrio fé e razao na RCC, não vejo tanto por culpa da RCC em si, afinal suas escolas de formação e livros não ficam na superficialidade, mas tangem seu carisma, e por isso se faz mister ler outros livros, de outros movimentos. Estes dois dons que não deveriam ser pólos, ou serem tratados sob o jugo da dialética, são por vezes descaracterizados não só pela RCC, mas por vários movimentos e pastorais. A Igreja ensina mas somos “todos” cabeças duras.

            O bode expiatório muitas vezes fica na renovação carismática, pq os dons carismáticos assustam aos mais tradicionais. As vezes por desconhecimentos destes, outras pela falta de liderança do outro. Um grupo de oração mal gerido pode ir por um caminho errado, e assemelhar-se mais a um grupo pentencostal evangélico do que a um católico. Digo isso pq já vi, e não foram poucas vezes. Há pessoas na renovação que pessam em “Sola scriptura”, e esquecem-se da Sagrada Tradição.
            Lembro:
            “a Sagrada Tradição e a Sagrada Escritura, constituem um só Sagrado Depósito da Palavra de Deus confiado à Igreja. (…) A Sagrada Escritura é a Palavra de Deus enquanto é redigida sob a moção do Espírito Santo; a Sagrada Tradição, por sua vez, transmite integralmente aos sucessores dos Apóstolos a Palavra de Deus confiada por Cristo Senhor e pelo Espírito Santo aos Apóstolos para que, sob a luz do Espírito de verdade, eles por sua pregação fielmente a conservem, exponham e difundam” (DV 10).

            Somos todos uma Igreja militante a caminho da Triunfante, mesmos que passemos pela Padecente. Os únicos membros do corpos de Cristo que não sofrem e não erram são os que formam a Igreja Triunfante, já estão no Paraíso. Nós, estamos militando num “vale de lágrimas”, sujeitos a erros, mas buscando algo maior.

            Há os grupos e movimentos que erram por serem racionais demais, sociais demais, espirituais demais, faladores demais e de menos, rs! E nisto tudo, não vejo pessimismo, mas otimismo. Numa família, há os filhos melhores naquilo, outros melhores no outro. No final, o Pai ama a todos do mesmo jeito, e Mãe Igreja abraça e ensina com carinho e individualidade, olhando cada filho no olho, tocando no coração. O que importa é que sejamos um, e na unidade colaboremos pelo todo, com humildade e obediência ao que diz e ensina a mãe.

            Sobre a Opus Dei, também não sou membro embora conheça e beba um pouco de sua espiritualidade. São Josemaria Escrivá não é santo da Obra, e sim da Igreja. Seus livros embora sejam os expoentes da Obra, não devem ser lidos apenas pelos membros da obra. Exemplo; os livros Caminho, Sulco e Forja deveriam ser lidos por “todos” os católicos, pois são fontes preciosíssimas para nossa caminhada para o céu.

            Concluindo.
            Sou um disseminador, ou de fato, como disse, um entusiasta. Pode ser uma forma meio estranha, mas devido as minhas limitações assemelho-me mais a pequenas criaturas chamadas de vetores. Todavia, Vetor do bem.
            Sou uma criatura que se aproveita dos hospedeiros (sejam da RCC, Folcolares, Caminho Neocatecumenal, MVC etc.), e quando consigo, pego alguem e dissemino o bem que obtive daqueles que possuem algo maior, que merece ser compartilhado.
            No momento o meu hospedeiro é Tolkien e seus livros. Rs!

  2. 14 de agosto de 2013 at 11:27

    Excelente texto! Partiu “comprar o Silmarillion”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *