Pequeno Elogio a Santo Tomás de Aquino – Por Raissa Maritain (em “As Grandes Amizades”)

Comentário Inicial: 28 de janeiro, dia especial para toda a Igreja. Dia em que celebramos o nascimento do Doctor Angelicus. Este homem de Deus, tão importante para o Cristianismo, permeou a civilização com uma doutrina limpa, pura, autêntica. Conhecido mundialmente por sua inteligência em todo seu Aquinate, e sobretudo pela sua gigantesca obra teológica a Summa Theologiae. Desde a infância, teve a firme intenção de  consagrar a Deus a sua vida. Homem de fé, oração, contemplação, e profundíssima humildade, tanto que foi apelidado no mosteiro dominicano de “boi mudo”. Discípulo do Grande Doutor da Igreja Santo Alberto Magno, que afirmou: “Quando este boi mugir, o mundo inteiro ouvirá o seu mugido”, debruçou-se nas obras e ensinamentos aristotélicos, e brindou o mundo com argumentos não só religiosos ou teológico, mas também filosóficos, altamente humanísticos, base para a defesa da lei e direito naturais. Segue lindíssimo texto de Raissa Maritain, esposa do ilustre filósofo Jacques Maritain. Em seu belíssimo livro “As grandes amizades”, onde relata suas memórias, conversão e a busca da Verdade junto com seu grande amor (Jacques), há parágrafos dedicados a este grande santo. Segue o trecho:

Pequeno Elogio de Santo Tomás de Aquino

Interrompo um instante essas memórias para prestar a Santo Tomás a modesta homenagem do meu louvor. Pois é justo que se louve o que se ama. Perguntava-me, antes de conhecê-lo, com surgem as devoções “particulares”. Essas particularidades me pareciam estranhas, como que uma diminuição do amor empenhado na imensidade da única devoção devida a Deus. Aprendi, por experiência, que essas devoções nascem com a admiração e a amizade. E em hipótese alguma a amizade, que é uma virtude muito suave, pode diminuir o amor com que se ama a Deus.

Ficamos, pois, presos a Santo Tomás de Aquino como a um amigo verdadeiro, por simpatia, por admiração. E é bem certo que não é possível conhecê-lo sem amá-lo e é profundamente lastimável que seja ignorado na sua vida de Santo mais ainda do que na sua obra monumental.

No deslumbramento da luz que lhe irradia da inteligência e da doutrina acabaram por se esquecer – há seis séculos! – da grandeza da sua caridade, da doçura e da humildade do seu coração. E ninguém se preocupou mais em recolher-lhe as fioretti.

Hoje não se sabe mais que os favores divinos, os maiores e os mais graciosos, lhe ilustraram constantemente a vida (não faltaram nem rosas nem estrelas no seu caminho); quão inúmeros milagres lhe acompanharam a morte, e tornaram caro todo o povo cristão aquele que ainda não era conhecido senão pela Escola. Povo feliz o do século XIII, que podia receber a doutrina do Cristo através dessas colunas de luz que foram um São Domingos, um São Francisco de Assis, um Santo Tomás de Aquino e um São Boaventura!

Haverá quem saiba hoje que Santo Tomás rezava sem cessar, que recebera a graça do dom das lágrimas, tão precioso para a Idade Média cristã, que pregava com uma doçura que tocava o coração dos mais humildes, mas também com uma severidade que fazia tremer os mais sábios, mestres e estudantes de teologia, quando lhes lembrava as suas grandes responsabilidades para com as almas que deles esperavam a verdade?

Teólogo por excelência, foi no entanto como metafísico da inteligência e  da razão, cujo valor como autênticas faculdades do conhecimento real ele defende, que Santo Tomás surgiu primeiro aos nossos olhos. Nisso também é ele caro à Igreja, guardiã da integridade humana tanto quanto da verdade revelada.

Afirma efetivamente, como Aristóteles, que a nossa inteligência conhece naturalmente o ser, primeiro nas coisas sensíveis, depois, graças às intuições abstrativas da metafísica, na sua inteligibilidade transcendental. E essa serena apercepção é nele tão ampla, tão pura e tão penetrante que os princípios da sua metafísica são aptos a integrar qualquer verdade de ordem filosófica e natural, um pouco guardadas as devidas proporções, como os princípios revelados da fé integram para sempre qualquer verdade de ordem sobrenatural que venha a ser explicada com o tempo. E em tudo o que se refere à ontologia das faculdades apetitivas e à ciência moral dos atos humanos, a sua doutrina observa, tão santamente, tanto a verdade especulativa, como todos os direitos da caridade e da justiça, que se pode dizer que ela é uma teologia evangélica; e é tão grande a sua pureza que os seus melhores comentadores mal podem acompanhar-lhe rigorosamente o pensamento.

Quanto mais se conhece a sua doutrina, mais se admira que a ciência, a inteligência e a sabedoria estejam tão maravilhosamente unidas em Santidade do Doutor Angélico; eis por que dele se pode dizer que “a sua Santidade é da inteligência” (Jaques Maritain em Le Docteur Angélique). É na própria inteligência de Santo Tomás que se operam os milagres da Santidade: sua inteligência está toda voltada para Deus; toda entregue a verdade conhecida ou a descobrir. É por ela que o santo é elevado do solo; são os trabalhos do filósofo e do teólogo que recebem a aprovação de Deus: Falaste bem sobre mim, Tomás.

Num mundo como o nosso, em que reinam a exclusão e a discórdia, em que toda experiência pessoal tende a opor-se, em vez de unir-se a outras experiências, em que distinguir as essências ou as circunstâncias é excluir em vez de fazer justiça a qualquer ser na sua originalidade e nas suas particularidades, na sua verdade de existência; em que não se concebe nem a união da ciência e da sabedoria (mesmo um intelectualista com Hurssel, que  exaltava a filosofia como ciência, detestava a sabedoria: “Esta“, escreveu Chestov, “nele despertava toda a indignação de que ele era capaz”) – Santo Tomás nos oferece na sua vida, no seu espírito, na sua doutrina, o exemplo da mais harmoniosa e eficaz união entre as luzes da razão, da fé e da experiência mística. Nele se encontram as três sabedorias:  a de um dos maiores gênios da inteligência, a de um dos mais humildes filhos da Igreja, a de um dos santos mais milagrosos e mais misericordiosamente dados à humanidade para curá-la das suas ignorâncias. E ele próprio, quando a sua imensa erudição não mais lhe bastava, forçava os céus. Ia repousar a cabeça no Tabernáculo e ali permanecia orando e suplicando com muitas lágrimas. E o céu se dava ao trabalho de vir em auxílio de um filósofo e de um teólogo embaraçado. Então, saindo da sua oração, conta o irmão Reginald, seu companheiro, voltava à sua cela livre das suas incertezas, e retomando os seus trabalhos continuava a escrever ou a ditar aos seus numerosos secretários.

E no entanto esse ser pacífico, essa luz tão pura da qual a Igreja não tardaria em proclamar o gênio e a santidade, passou pela provação, certamente inevitável, de ser desconhecido pelos seus. No fim da sua vida, de fato, teve de sustentar violentos ataques dirigidos contra sua doutrina por um grande número de mestres em teologia, entre os quais alguns pertencentes à sua Ordem. E três anos depois da sua morte várias das suas teses foram condenadas por bispos (Etienne Tempier, bispo de Paris; Robert Kilwardby, arcebispo de Cantuária), que julgavam proteger assim a sobrenaturalidade do catolicismo contra um teólogo que acusavam de seguir os princípios do pagão Aristóteles.

Mas esses julgamento mal inspirados, há muito que estão enterrados, enquanto as teses do Santo Doutor vivem sempre da vida e do vigor da verdade.

A esse grande discípulo e amigo de Cristo não terá faltado pelo menos a alegria de poder louvá-lo “com hinos e cânticos”. E enquanto durar, o mundo receberá os eflúvios da divina doçura da poesia e da música de Santo Tomás no ofício do Santíssimo Sacramento, que compôs a pedido do Papa Urbano IV, por ocasião da instituição da festa do Corpo de Deus. Pois o Anjo da Escola, o Doutor Angélico, é também o Doutor Eucarístico, a sua devoção pelos Sacramentos, que chamava de “relíquias da Encarnação”, revela toda a fé e toda a doçura da sua alma. Nas suas últimas palavras, nas suas últimas lágrimas, quando agonizante vai receber o Cristo na sua última comunhão, se manifesta todo o seu amor pela Eucaristia:

“Recebo-te, prêmio da minha salvação.
Recebo-te, companheiro da minha vida sobre a terra.
Tu, por amor de quem estudei, velei, trabalhei.
Tu, que preguei e ensinei.”

Como um Santo capaz de uma tal “Confissão” não seria para sempre o modelo puríssimo de todo filósofo cristão, de todo amante da verdade?

p.168 a171: Maritain, Raissa – As Grandes Amizades – 7ªEdição – Editora Agir – 1970

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *