Um peso, duas medidas… O Caso Marco Feliciano

O assunto é tolerância

Tenho muitos amigos e sou feliz por isso. Desde menino sou treinado na tolerância: tolerava o pereba, zagueiro do time; tolerava o bonitão amigo, pouco afeito ao comunismo, que não compartilhava suas conquistas; tolerava a amiga do colégio e dava aquele apoio na prova, quando moleque; tolerava o morcego que sugava o sangue dos amigos no trabalho. Aprendi com a vida a conviver: politicamente, hoje convivo com esquerdistas renitentes, esquerdistas desiludidos, conservadores radicais, conservadores moderados. De minha parte, fico com Platão: não há modo perfeito de governo. Contudo – não fico em cima do muro e não tenho medinho da opinião alheia – diante do cenário brasileiro, estou cada vez mais conservador politicamente. De certa forma, defender valores como liberdade, família e trabalho são pontos de honra. Por isso, quero propor uma leitura do caso Marco Feliciano.

A Associação Brasileira de Imprensa (ABI) recebeu recentemente uma plêiade de artistas/celebridades para protestar contra a intolerância e o preconceito. O alvo do protesto é o político Marco Feliciano, do PSC, membro da bancada governista, que é – por razões fisiológicas – presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados.  Reinaldo Azevedo já disse palavras excelentes sobre a reunião, mas gostaria de lembrar outros pontos curiosos.

José Genóino, político condenado e Ficha Suja, tomando posse de cargo eletivo. E os artistas/celebridades não deram pio.

1. Os atores/celebridades não foram a ABI para realizar um ato de desagravo aos maus-tratos impetrados à cubana Yoani Sánches, muito menos para desculpar-se de emprestar seus microfones a José Dirceu, político condenado que defendeu a censura à imprensa dentro dos muros da instituição. Esse protesto não aconteceu.

2. Esses homens e mulheres, que dizem defender interesses democráticos e a integridade do país, não se levantaram contra o Mensalão. Não se viu nenhum deles reunindo-se e exigindo penas máximas no julgamento do maior escândalo de corrupção do país. Onde estavam os artistas/celebridades quando a opinião pública necessitava de mais apoio? O que será lhes move, para além da indignação?

3. Não acho Marco Feliciano nenhum exemplo de cristão e certamente não concordo com suas práticas pastorais. Mas deve ser dito que ele é Ficha Limpa. Por que não fazer esse escarcéu todo para denunciar os políticos condenados que vivem tranquilamente depois do Mensalão? Dá até para imaginar que o crime é pouco importante para essa gente, importa mesmo quem comete o delito. Se é amigo, o esquecimento; se é inimigo, linchamento moral. Não sou defensor de Feliciano, mas sou defensor da república e da constituição. Essas são as regras atuais de nossa democracia. Prefiro-as ao domínio do “politicamente correto” ou ao talante da opinião pública, manipulável facilmente com 7 ou 8 editoriais e programas jornalísticos.

4. Se o assunto é tolerância e preconceito, gostaria que entender a compreensão do senhor Wyllys acerca da pedofilia. É que sua proximidade com pessoas que defendem abertamente a pedofilia pode não deixar clara sua posição sobre o assunto: se é contrário, se é favorável ou se está indeciso. Para o deputado Jean Wyllys, o que merece um abusador de crianças: uma intolerante vida na cadeia ou a tolerância cândida da impunidade?

Então, o caso da militância política brasileira é curiosa: o mesmo evento pode ter duas posições contraditórias. Pode-se defender Fichas Sujas e combater Fichas Limpas. Um peso, duas medidas. A questão vai além do óbvio e se expressa da seguinte maneira: os que defendem a tolerância, são capazes de tolerar os que pensam diferente deles? Aos meu amigos, vocês conseguem conviver com essa diferença entre nós, ou ela é grande demais para vocês?

1 comment for “Um peso, duas medidas… O Caso Marco Feliciano

  1. Elio José Pacheco
    29 de março de 2013 at 10:40

    É verdade! Parece que o roubo do dinheiro público estaria legalizado. Embora sendo outro assunto, o caso do “ENGENHÃO” é vergonhoso por duas razões, a saber: a uma – gastou-se 3 (três) vezes mais (próximo a R$400 milhões sem atualizar) para construir um “circo” e ora está interditado; a duas – gasta-se uma fortuna na construção de estádio de futebol (maracanã com hidromassagem como mostrado ontem no noticiário) e o infeliz (cidadão) ao ser acometido de uma simples doença, vai para o hospital público (quando tem o hospital) e morre por não existir recursos para tratá-lo.

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