A constância no cinema

Quando era criança, meus pais me ensinaram que ler é muito bom, e sempre me incentivaram a leitura. Apesar de gostar bastante, meu gosto é seletivo, e mesmo com livros bons, às vezes tenho dificuldade para manter esse hábito de forma constante. Por exemplo, já tinha começado a ler o livro sobre a constância pelo menos 2 vezes e, por falta dela, não havia terminado. Em um momento de reflexão, percebi que o desânimo estava me tomando, por causa de objetivos não atingidos. Conversando com um amigo, ele me incentivou a não se entregar ao desânimo, mas voltar a caminhar.

Assim, lembrei novamente do pequeno livro que possui palavras tão enriquecedoras para a alma. Recomecei, então, o livro “A Constância” (Rafael Llano Cifuentes, Editora Quadrante) com o propósito de ir até o fim. Durante a leitura, comecei a refletir e a lembrar de exemplos de perseverança, de força de vontade, de luta. Com o meu gosto pela 7ª arte, puxei pela memória algum filme que já teria visto sobre o tema e me lembrei de “Forrest Gump: o contador de histórias”. Na minha reflexão, percebi que em todo aprendizado, uma das formas de se tornar mais concreto e enraizado em nós aquilo que estamos estudando é ensinando aos outros, transmitindo o que foi aprendido. Por isso, para me ajudar a internalizar a constância em minha vida, resolvi escrever sobre ela e sobre esse filme enriquecedor.

DivulgaçãoForrest era considerado um “idiota”, tinha um QI abaixo da média. Quando criança, praticamente não tinha amigos, apenas a Jenny, que seria sua eterna paixão. Mas na sua inocência, humildade e bondade, Forrest tinha algo que todo ser humano busca, mesmo que não saiba: constância, perseverança, obstinação. Ele não tinha grandes planos para a vida. A vida foi se apresentando para ele e ele foi aceitando suas ofertas de bom grado. Sua força e obstinação por correr lhe trouxeram boas oportunidades: o esporte, a faculdade, sua vida salva durante a guerra.

Para que possamos exercitar a constância, é necessário em primeiro lugar que tenhamos um objetivo na vida, um ideal a buscar. Sabe aquela frase “não vim ao mundo a passeio”? Se não viemos a passeio, então precisamos refletir e descobrir qual nossa missão, nossa vocação, para vivê-la bem, buscando um ideal de perfeição. Ora, para nos mantermos constantes no caminho, precisamos saber onde queremos chegar, nosso destino final, e assim, planejar e trilhar essa estrada. No pequeno livro, o autor Rafael Cifuentes nos afirma:

“É fácil, deste modo, entender que a constância não existe onde não existe esse ideal – essa vocação livre e responsavelmente assumida (…). Esse ideal é força de crescimento. É arremetida no sentido da perfeição: é condição prévia e indispensável para se viver a constância.”

Junto com a afirmação de que precisamos de um ideal a ser alcançado para vivermos a constância, podemos perceber que o inverso também é válido: precisamos perseverar para alcançar o ideal que queremos. E o que precisamos ter ou ser para perseverar? Será que somente quem tem, por exemplo, inteligência para almejar um grande ideal é que conseguirá ser perseverante? O filme nos mostra justamente o contrário. Forrest era uma pessoa com uma deficiência cognitiva, que tinha dificuldades no aprendizado intelectual. Mas nem por isso desistia facilmente. Por isso, o autor Rafael é enfático:

“Há uma errônea superstição sobre os prodígios da inteligência natural; mas a verdade é que esta não produz frutos sem um trabalho intenso e perseverante. (…) Temos de convencer-nos de que a maior força que o homem possui não é da sua inteligência, nem a dos seus músculos ou do seu entusiasmo, mas aquela que se condensa, pela constância, numa vontade de ferro.”

Para Forrest, essa vontade e disposição eram as mesmas, sempre. Os obstáculos não o faziam parar ou desanimar. É muito interessante a cena em que ele recebe a notícia de que sua mãe está doente. Ele está em seu barco, com seu amigo e sócio, Tenente Dan, pescando. Mesmo longe da terra, com o mar em seu caminho, ele pula de roupa e sapato e vai nadando até a terra. Também correndo, ele chega para ver sua mãe, colocando seu dom a serviço de sua família, que estava precisando mais naquele momento. Esse precisa ser nosso espírito de constância para transpor as dificuldades que sempre estarão presentes em nossa vida.

“É isso precisamente o que significa a constância: lutar até o fim, sem sucumbir perante o desalento, a falta de motivação sensível, a monotonia estafante ou os obstáculos que nos pareçam intransponíveis.”

Porém, temos que pensar que, fora dos filmes, na vida real, nem sempre essa disposição e vontade estão muito afinadas. Existem vários fatores que podem influenciar nossa vontade de manter a constância: um temperamento emocional oscilante, maus hábitos, a preguiça, entre outros. Poderemos citar aqui diferentes motivos para sermos inconstantes nas nossas decisões, nos nossos objetivos (o livro “A Constância” apresenta em detalhes). No entanto, todos eles tem uma razão comum: são frutos da falta de prática e vivência de algumas virtudes. Mas quais seriam elas? Fidelidade mesmo sem vontade, diligência, laboriosidade, citando apenas algumas. Rafael Cifuentes é incisivo nessa questão da prática das virtudes:

“Sejamos coerentes. Se um dia nos propomos atingir determinada meta, uma certa virtude, não podemos conservar na alma o vício contrário (..). Quem quer o fim, deve querer os meios. O alpinista que se apaixona pelo cume, agarra-se também com paixão à corda que o leva até lá, ainda que lhe queime as mãos.”

No filme, vemos em Forrest uma inocência que a maioria de nós não tem, mas que traz a ele uma humildade para reconhecer sua ignorância e uma vontade  para estar sempre aprendendo. Na cena em que ele conversa com sua mãe que está doente, ela diz que está morrendo, mas que ele não deve ficar com medo, pois a morte faz parte da vida: “É o destino de todos nós.”, diz ela. Se me permitem, gosto de uma frase clichê sobre a morte, mas que é muito verdadeira: “Na vida, a morte é a única certeza que temos.” E quando chegar a nossa hora, saberemos responder se alcançamos nosso objetivo, nossa missão, nossa vocação? Já idosa e doente, a mãe de Forrest faz uma avaliação de sua vida e diz que sua missão foi ser sua mãe e que fez o melhor que pode. Ao ser questionada pelo filho sobre qual é o destino dele, sua resposta é sábia e verdadeira: “Você terá que descobrir sozinho”. E ainda completa que cada um deve escrever a sua história e fazer o melhor com o que Deus lhe deu.

Com grande certeza, o assunto sobre a vivência da constância é muito maior e mais profundo do que essa minha simples reflexão. Fica aqui o convite para mergulharmos nesse tema tão enriquecedor para nossa vida e daqueles que estão ao nosso redor, seja vendo o filme, lendo o livro, ou a melhor parte, conversando em família.

6 comments for “A constância no cinema

  1. Rosana da Silva Meirelles
    25 de fevereiro de 2013 at 20:39

    Texto maravilhoso, obrigada por partilhar essa benção escrita com tanta sabedoria. Que Deus te abençoe.

  2. Amaro Helio
    25 de fevereiro de 2013 at 16:03

    Realmente a momentos em nossas vidas que desistimos de certas coisas por achar dificil, mas na verdade é o desanimo tomando conta de nos. Precisamos ser constantes e enfrentar todos os obstáculos. Lógicamente nos seres humanos iremos cair, mas o importante é cair e levantar e recomeçar. Jesus pela sua vida nos ensina isso. Ela caiu trez vezes carregando sua cruz,mas nao desanimou, pois sabia o bem maior.

  3. Ana K.
    25 de fevereiro de 2013 at 00:12

    Muito bom! Parabens pelo texto, bjo

  4. 24 de fevereiro de 2013 at 16:06

    Sempre gostei do personagem Forest G
    ump,mas ali só tinha percebido a humildade. Refletindo com vc,Luciana,concordei com sua observação:ele é mesmo constante. Lembro de uma música antiga que fala de uma pessoa inconstante,e de como ser incontante nos atrapalha no relacionamento com os outros,nos faz “mal vistos”pelos nossos próximos.Obrigada pela bela reflexão.Um abraço fraterno.

  5. Priscila
    22 de fevereiro de 2013 at 12:46

    Nossa, amei a reflexão…Na verdade, ela provoca aquele comichão de voltar a pensar na capacidade que temos para ser constantes e nos obstáculos que têm nos impedido de sê-lo.Vi Forrest Gump há muitos anos e confesso que não tive esse olhar, talvez até pela falta de maturidade. Obrigada pela dica, assiti-lo novamente e reler o livro de D. Rafael tão necessário a aquisição desta virtude! Bjs

    • Luciana Hilario
      22 de fevereiro de 2013 at 15:04

      Pri, essa foi realmente minha intensão, inclusive para mim também. É sempre bom para nossa vida revermos esses assuntos, justamente porque passado um tempo, nossa maturidade é outra, e nosso olhar é diferente. Obrigada pelo incentivo! Bjs

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