Amor escolhido e acolhido pela adoção

Como diz o nome desse blog, Conversa em Família, existem vários temas sobre família que precisam ser conversados, cultivados, nutridos no núcleo desse organismo tão importante para a sociedade. Um tema muito importante que deve ser mais do que conversado, deve ser vivido, é o amor. O amor sobre suas várias formas: amor entre irmãos, amor entre pais e filhos e entre filhos e pais, amor conjugal, entre um homem e uma mulher, amor amizade, amor a Deus. Muitas vezes pensamos que o amor entre pais e filhos é algo que não se aprende, mas que nascemos com ele. Infelizmente, esse fato não é verdade. A filiação biológica não traz consigo obrigatoriamente o amor, o carinho, o respeito e a admiração que devem existir entre pais e filhos, ou mesmo entre irmãos. Mesmo que para muitos de nós isso seja natural, o amor na família nasce e é sempre nutrido por algo que vai além de nosso DNA, que é nossa decisão de amar.

No cinema, temos uma variedade grande de filmes que falam sobre o amor, sobre essa decisão de amar. Podemos citar aqui vários exemplares que nos emocionam e nos fazem refletir sobre como estamos vivendo o amor. Hoje queremos falar de uma forma de amor que a nós, particularmente eu e meu marido, nos toca muito, que é o amor filial da adoção. Para nos ajudar, queremos propor a vocês o filme “Um sonho possível“.

Reprodução

Esse filme conta a história real de Michael Oher, um jogador de futebol americano negro, que foi acolhido e amado por Leigh Anne Tuohy, vivida por Sandra Bullock, e sua família. Michael vem de uma família destruída pelas drogas e pela violência, e não tinha em quem se apoiar. Encontrou no seu caminho muitas pessoas boas, que lhe estenderam a mão, mas apenas a família de Leigh Anne Tuohy é que o acolheu como filho e lhe deu apoio afetivo, aceitando seu jeito, suas dificuldades e qualidades, e acreditando no seu potencial.

Há algum tempo atrás, o tema adoção era tratado basicamente de duas maneiras: como algo escondido que não deve ser falado, ou como obra de caridade, quando escolhemos fazer o bem a alguém para aliviar nossa consciência. Infelizmente, ainda hoje existem pessoas e famílias que enxergam a adoção dessas duas formas, distorcendo o que de fato é a adoção, um ato de amor. Felizmente, muitos grupos de apoio a adoção estão atualmente fazendo um trabalho muito bonito e às vezes difícil de conscientização de famílias para a nova cultura da adoção. Um desses grupos, no qual fui muito bem acolhida, é o Quintal da Casa de Ana, situado em Niterói/RJ. Ele foi fundado pelo promotor de justiça Sávio Bittencourt e sua esposa Bárbara Toledo, após experimentarem “uma nova forma de amar, intensa”, que é o amor adotivo pela sua filha Ana Laura. Nesse quintal, aprendi muitas coisas novas e interiorizei a Nova Cultura de Adoção, descrita muito claramente por Bárbara Toledo:

“A filiação adotiva deve ser considerada de igual valor que a biológica (até mesmo porque também os filhos biológicos devem ser adotados, cuidados e amados para serem verdadeiramente filhos); a adoção não deve ser um ato de caridade, mas sim um ato de amor, uma “via de mão dupla” onde pais e filhos são ganhadores; a verdade da origem do filho adotivo deve ser respeitada e conhecida (desde que possível) e a adoção deixe de ser um segredo de família, algo que não se possa revelar (ora, somente as coisas feias ou inadequadas procuramos esconder).”

Esse amor de “via de mão dupla” é o que mais nos enriquece quando entendemos que o gesto de adoção deve ser muito maior do que qualquer consanguinidade. No filme “Um sonho possível”, em uma das conversas com suas amigas esnobes, Leigh Anne é elogiada pelo gesto nobre que está fazendo por um rapaz sem condições sociais. Frente a essa afirmação, a mãe adotiva corrige a amiga, confirmando que ela não está fazendo nada de mais, pelo contrário, Michael é que está fazendo um bem enorme a ela e a família, mudando o modo de verem e viverem a vida. Uma dessas mudanças é clara quando, no primeiro almoço de Ação de Graças do rapaz na casa da família Tuohy, enquanto o pai e as crianças sentam com os pratos nas mãos em frente a TV para almoçar, Michael senta sozinho à mesa, gesto que toca Leigh Anne. Mais do que imediatamente, ela desliga a TV e se coloca à mesa, juntando toda sua família para um convívio enriquecedor.

Um dos trabalhos incessantes dos grupos de apoio à adoção é a de incentivar a adoção inter-racial, ou seja, a adoção de uma criança ou adolescente que tenha a cor da pele diferente da cor da família acolhedora. No passado, e ainda hoje, muitas famílias escolhem crianças da mesma raça para “esconder” o fato de que são adotadas, como se isso fosse uma situação de vergonha. Sobre essa “família colorida”, o Quintal de Ana também nos ajuda a refletir:

“Pais e filhos adotivos devem assimilar suas diferenças para construir uma base sólida em seus relacionamentos e poderem juntos enfrentar uma sociedade que mascara o seu preconceito racial.”

Reprodução

No filme, Leigh Anne é ridicularizada pelas amigas por colocar Michael, um rapaz negro, na foto de família de felicitações das festas de fim de ano. Uma delas chega a questionar o que as pessoas, inclusive o pai falecido de Leigh Anne, vão pensar e falar dela manter um rapaz negro em casa, tendo uma filha adolescente. O amor dela por toda sua família, inclusive por esse filho que a vida lhe deu, é mais forte do que a discriminação das falsas amigas, que mantém uma vida fútil e despreocupada com o próximo, fazendo com que Leigh Anne rompa com elas. Seu amor de mãe é tão verdadeiro que ela não quer esconder esse filho de ninguém, mesmo que para isso tenha que enfrentar o preconceito dos outros. Essa é a verdadeira adoção, biológica ou não, que aceita o outro como ele é.

“A adoção não pode ser tratada como segredo! A origem biológica do filho adotivo é um componente de sua biografia, mas não será jamais o referencial maior de sua vida. O processo de criação e educação oferecidos pelos pais adotivos constituirão as suas matrizes psicológicos mais importantes”, enfatiza Bárbara Toledo.

Para aquelas pessoas que já passaram pela experiência de gerar uma criança e hoje são pais e mães, tem-se a impressão que o amor por eles foi gerado junto com sua concepção. E é verdade, pois muitas vezes esse amor já existe muito antes de uma gravidez. Por isso, parece fácil a decisão de amar um filho, que é carne da nossa carne, sangue do mesmo sangue, nasceu de nós. Porém, infelizmente, essa não é uma realidade para todas as famílias. Quando os pais não tomam essa decisão de amar e cuidar de seus filhos, muitos deles vão parar nas ruas ou em abrigos, que hoje, no Brasil, estão cheios de crianças que não foram adotadas pelos seus pais biológicos. Bárbara Toledo nos alerta que essa decisão de amor por filhos adotivos deve ser consciente e sólida:

“Pessoas adotadas não são coitadinhas que foram acolhidas por um ato de piedade. São pessoas tão somente, que foram escolhidas como filhas pelo amor. A adoção é o processo de filiação fundamentado no afeto, sendo a única forma de se configurar a verdadeira paternidade e a maternidade. O fato de termos gerado crianças não nos torna pais e nem estas filhos. Todos os pais, inclusive os biológicos, precisam adotar afetivamente as suas crianças para que estas se tornem filhos.”

Leigh Anne não trata Michael diferente dos outros filhos. Pelo contrário, mesmo ele já não sendo criança, ela sente um amor tão grande e igual aos outros dois que tira um tempo para ler uma história de um livro infantil para ele, como forma de carinho e afago. A exigência para que ele se dedique aos estudos também é a mesma, mas como uma mãe atenta e cuidadosa, ela percebe que o passado sofrido de Michael lhe concedeu um déficit de conhecimento e dificuldade com os estudos, e oferece uma ajuda extra com uma professora particular. O mesmo acontece com sua preocupação materna quando o filho mais velho vai para a faculdade e “sai de baixo de suas asas”.

O filme “Um sonho possível” nos mostra que é possível formar uma família sólida, cheia de amor, carinho e valores positivos através da adoção. Eu e meu marido descobrimos a maravilha dessa verdade e estamos “grávidos“, inscritos na fila da adoção a espera do nosso filho ou filha. Toda verdade que modifica e engrandece nossa vida deve ser compartilhada: no processo de decisão pelo amor filial da adoção, descobrimos que não somos nós que temos o “direito” de sermos pais, mas são as crianças de Deus que têm o direito de terem uma família, de serem filhos e filhas amados. Quando o foco muda, o egocentrismo se dissipa e a luz do amor doação brilha. Para terminar, cito uma passagem do livro de Sávio Bittencourt, “Manual do Pai Adotivo”:

“São Jose, pai adotivo de Jesus, foi movido por um tipo de amor, o divino, que era capaz de vencer as amarras dos mandamentos sociais, superar o preconceito, conviver com a diferença. O pai humano de Deus fez um caminho novo com seus próprios passos e permitiu que o plano do Onipotente se cumprisse. Um pai adotivo sempre esteve no plano de Deus, rompendo a lógica injusta através do amor.”

11 comments for “Amor escolhido e acolhido pela adoção

  1. Karina
    27 de Abril de 2012 at 10:19

    Esse filme é muito bonito! E é bom que, assim como toda mãe, ela passa por altos e baixos, eles não “romantizaram” demais a história.

    Deixo uma sugestão de filme para vocês, não sobre adoção, mas sobre “pessoas diferentes”: O pequeno milagre (Simon Birch). É de 1998, e desafio alguém a assisti-lo sem se emocionar (mesmo os homens). Aqui tem ele completo (dublado), para quem não encontrar na locadora:

    http://www.youtube.com/watch?v=zGgtJsUVDZ8

  2. 27 de Abril de 2012 at 07:53

    Obrigada a todas pelas mensagens de carinho!

  3. Margarida Neves Gama
    26 de Abril de 2012 at 21:22

    Luciana fiquei muito emocionada com o texto;e realmente o amor que voce sente pelo filho adotivo é tão grande que se todos pudessem sentir o que hoje sinto por kadu com certeza não haveria criança nenhuma nos abrigos.
    Estou torcendo muito por voces prima e tenho certeza que quanto menos voces esperarem Deus estará realizando o grande sonho de voces e quando este dia chegar voces podem acreditar que será o dia mais feliz da vida de voces .
    Bjs e fiquem com Deus e muita fé em Deus pois vou te dizer o que muitas vezes escutei:O nosso tempo não é o tempo de Deus.

  4. Helia
    26 de Abril de 2012 at 17:25

    Sou mãe de coração e o texto expressa muito bem sobre o milagre da adoção. Minha filha é o meu tesouro precioso que agora me deu uma neta!

  5. Ana Kronenberg
    26 de Abril de 2012 at 14:49

    Parabéns, Lu! Lindo texto!
    Torço muito que você e seu marido possam, em breve, conceder esse grande amor de pais que vocês tem dentro de si e receber, também, o amor de uma criança!
    Beijos!
    Ana.

  6. Gizelli Bourlier Carestiato
    26 de Abril de 2012 at 14:29

    Lu, lindo texto!
    Já tinha assitido a esse filme, que na época muito me emocionou.
    E quanto a “gravidez” de vocês desejo sucesso e toda a felicidade do mundo!
    Bjos

  7. bel
    26 de Abril de 2012 at 09:58

    Amei!!!

    Este filme realmente está entre um dos melhores que já assisti.

    Compartilho a idéia de que a adoção deveria ser abraçada por todos inclusive sobre aqueles que já tem filhos biológicos.

    Quanto se tem a aprender através desse gesto, a partilha, o respeito, a compreensão, enfim, o amor!!!

    Deus abençoe a todos que de alguma forma contribuem com tão lindo gesto!!

  8. Geovana Galdino
    26 de Abril de 2012 at 05:08

    É uma belo texto. É uma bela história. Eu vi o filme, e no final não tem como não refletir sobre o assunto. Dá vontade de fazer a diferença também.
    Muito bom!!!

  9. Fabiana
    26 de Abril de 2012 at 00:08

    Muito bom texto, Lu! Tema belo e profundo, texto muito bem escrito e agradável de ler. Parabéns!

  10. Polyana Paiva
    25 de Abril de 2012 at 23:32

    Lu, ótimo texto e me fez refletir sobre o assunto. Vou assistir o filme. Bjs, Poly

    • 26 de Abril de 2012 at 08:10

      Obrigada, Poly! É um filme muito bonito, com uma mensagem de amor e doação muito bela! Vale a pena!

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