Cinema em foco, parte 2: Fidelidade e os filhos

No último post sobre cinema, conversamos sobre o amor e a fidelidade conjugal. Vimos o quanto eles são importantes na vida de um casal, para manter o matrimônio vivo, mesmo com a rotina do dia a dia. Concluímos que são os exemplos de marido e esposa, como pequenos gestos de carinho e confiança, que ajudam os filhos a aprender naturalmente a viver o amor e a fidelidade em sua vida. Mas quando esses exemplos não existem? Quais são as dores e sofrimentos que as crianças podem viver quando vêem em seus pais atos de infidelidade?

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O filme “Em busca da felicidade” conta a história de Ben e Cassie, duas crianças que se apaixonam e fogem juntas à procura de uma vida nova. Ben vivia com os pais que não lhe davam importância: a mãe só pensava em filmes e artistas de cinema, e com essa paranóia mantinha relações extraconjugais com outros homens; o pai de Ben percebia essa infidelidade, mas se mantinha obcecado pelos cuidados com seu barco. Cassie sofria maus tratos e abusos do pai e presenciava o sofrimento da mãe. Ao conhecer Ben e ficarem amigos, eles viajam em busca de um lar perfeito e feliz. No caminho, se “casam” e começam a vivenciar as belezas e dificuldades de uma vida a dois, compartilhada.

A fidelidade conjugal é uma realidade fundamental que pode ser vivida com maior ou menor dificuldade; mas sempre será motivo de alegria, para o casal e para os filhos. Como no filme, as causas de uma infidelidade são diversas, e reclamam atenção, seja do ponto de vista preventivo, seja após a ocorrência de um erro de algum dos cônjuges, procurando sempre trabalhar com a dor oriunda dessa situação em vista da alegria e da felicidade na família.

O exemplo dos pais para os filhos tem uma importância muito grande na educação e no seu desenvolvimento. A relação saudável, respeitosa, carinhosa, amigável e um comportamento de fidelidade entre o pai e a mãe constroem na família um ambiente propício para um crescimento saudável e uma estabilidade emocional dos filhos. Diante de um ato de infidelidade, os filhos veem no pai ou na mãe uma atitude de deslealdade com a família, além da traição conjugal. A infidelidade dos pais desestabiliza os filhos e muitos traumas e desajustamentos psicológicos proveem desse comportamento.Vejamos o que diz o especialista em família Álvaro Sierra, em seu livro “La afectividade. Eslabón perdido de La educación.”

O cônjuge que é infiel deixa de oferecer atenção, carinho e amor aos filhos e estes sofrem por perceber que a relação amorosa entre os pais não é mais a mesma. Estes sofrimentos deixam os filhos inseguros e causam muitos problemas às crianças. Assim, a infidelidade não pode existir em um amor verdadeiro, pois acaba com o amor entre os cônjuges e afetam diretamente aos filhos.

As duas crianças do filme sofreram muito com a infidelidade e descaso dos pais para com toda a família. Ben se sentia sozinho, isolado e abandonado pelos pais, e Cassie teve problemas psíquicos com o que sofria do pai. Porém, essa experiência de infidelidade vivida na família também aparece como aprendizado na vida dos dois, que, apesar da pouca idade e falta de maturidade, já demonstram uma vontade de fazer do “casamento” algo diferente dos seus pais.

Os pais de Ben não viviam plenamente o matrimônio: não se comunicavam, não havia amor, respeito e compromisso mútuo. Viviam para si, repousando sobre o egoísmo de seus desejos e impulsos. Sequer enxergavam-se mutuamente como seres humanos únicos. Certamente essa ofensa à dignidade própria e alheia causava uma profunda dor no filho e no próprio casal.

Essa realidade de infidelidade vivida pelos dois personagens em suas famílias os leva a fugir e buscar uma nova vida longe de tantos problemas. A vida dos dois, embora muito novos, nos mostra uma fidelidade ímpar, pois os dois sonhavam o mesmo sonho, viviam um para o outro, eram felizes na felicidade do outro. O amor que os uniu era livre, exclusivo e buscava a perenidade. Com a doença de Cassie percebe-se o verdadeiro amor conjugal, pois Ben não suporta deixar a amada e volta para buscá-la. A vida de Ben já não teria sentido longe de Cassie e voltar para a casa de seus pais seria renegar todos os conceitos mais elevados, que já havia encontrado ao lado de sua amada.

É interessante também observar como os filhos podem, após a dor do amadurecimento forçado, ajudar os pais a enxergar seus erros. Ben, ao voltar ao ponto de partida e retirar do caminho de seus pais tudo aquilo que atrapalha seu relacionamento conjugal, ajuda-os a conhecer o amor verdadeiro que, ao jovem casal, já fora apresentado.

A dor da infidelidade para os pais de Ben pode ter sido suplantada pelo reconhecimento do erro e da busca em viver plenamente seu matrimônio. O casal escolheu o caminho de retificação ao invés da separação. O rompimento conjugal leva, na realidade, a maiores sofrimentos, pois a causa da separação continuará gerando seus efeitos negativos, que ao final serão agravados pela dissolução da família e divisão dos filhos pelos pais.

A vida desregrada dos pais de Ben e Cassie levou o jovem casal a buscar os ideais mais nobres do ser humano, pois seus exemplos não os faziam, como família, verdadeiramente felizes. Nessa busca eles encontram o amor ágape – o amor verdadeiro – que é exigente, não exclui o sofrimento, exige o eterno e não existe se não for exclusivo. Será que também buscamos esse amor em nossa vida?

Participação de Robson Hilario, Paulo Tominaga e Rafael Galão

2 comments for “Cinema em foco, parte 2: Fidelidade e os filhos

  1. Robson Oliveira
    25 de janeiro de 2011 at 09:39

    Parabéns pelo texto. O filme é muito bom mesmo. Oferece uma reflexão aguda sobre projetos em comum, sobre diálogo e fidelidade. Sugiro a todos.

  2. Karina
    25 de janeiro de 2011 at 09:07

    Lembrei-me de um texto do Stephen Kanitz por ocasião do escândalo do Tiger Woods, aquele jogador de golfe americano. Ele falava justamente sobre isso: a traição do esposo não atingia apenas a esposa, mas os filhos, que ficaram extremamente magoados com o pai.

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