O heroísmo da virtude da Justiça

Colaboração de Robson Hilario

As novelas brasileiras são conhecidas no mundo todo pela qualidade de suas produções e por suas histórias cativarem o público de vários países. No entanto, para aquelas famílias que querem ensinar bons valores para seus filhos, como a prática das virtudes, sabendo o que é certo e errado, as novelas brasileiras, definitivamente, são péssimos professores.

Confesso que tenho uma “quedinha” pelas novelas, mas hoje já sei identificar o que não serve para mim e fico tranquilamente sem acompanhá-las. No entanto, outro dia vi uma cena em uma novela brasileira que me chamou muita atenção, pelo conteúdo do diálogo e pela veracidade da história.

Na cena, a filha, maior de idade, casada e que foi criada pelo pai, briga com a mãe, que é delegada, por ela não ajudar o genro que foi fichado na polícia por brigar na rua. Segue abaixo o diálogo:

Filha: A culpa é sua, é sua sim, porque você era a única pessoa que podia ter feito alguma coisa e não fez.

Mãe: Mas o que é que eu podia fazer? Você queria que eu pedisse na delegacia para não registrar o BO para o delegado que eu conheço?

Filha: Mas é lógico! É claro!

Mãe: Ah, é lógico? Seu marido quebra a cabeça de um cara e você quer que eu peça para o delegado dar um “jeitinho”?

Reprodução

Filha: Ah mãe, todo mundo faz isso! Todo mundo que tem influência usa isso para ajudar um parente, um amigo.

Mãe: Todo mundo? Que todo mundo?

Filha: Todo mundo menos você.

Mãe: Menos eu e uma porção de gente que ainda acha que vale a pena ser honesto.

Filha: Ah mãe, para, acorda, que honesto o que? O mundo é assim! Eu cheguei aqui ele já estava pronto, eu não inventei nada. Que culpa eu tenho se as coisas funcionam desse jeito?

Mãe: Acorda você, filha!

Filha: (…) Isso tudo por que? Porque a minha mãe quer ganhar o título da mais honesta! Pra que? Pra quem?

Mãe: Pra mim. Pra minha consciência.

Filha: E nem te importa me ver assim?

Mãe: Me importa, me importa muito. Mas você está pagando um preço pelas escolhas que você fez na sua vida. Essa é uma dívida pessoal e intransferível e ninguém pode pagar isso por você.

Filha: Se fosse meu pai pagava.

Mãe:<apontando para a filha> Está aí o resultado.

<a mãe pede um abraço da filha, que está indo embora do país>

Filha: Não vou te dar abraço nenhum, mãe. Olha o que você esta fazendo comigo, mãe. Você está acabando com a minha vida. Você quer que eu te dê um abraço? Pra que? Pra você sentir que está tudo bem, ficar tranquila com sua consciência? Não vou falar para você que está tudo bem, porque não está tudo bem, está tudo péssimo!

Mãe: Não é isso filha, só estou tentando te ajudar a ter uma vida bacana, a ter uma vida direita. Você não vai conseguir isso pelo caminho mais fácil. Tudo isso que estou fazendo é por amor a você.

Filha: Como é que é?

Mãe: Você acha o que? Que demonstração de amor é ser complacente com o que o outro faz de errado? Não. Se você quer saber me doe, me doe muito ver você indo embora. Mas eu preciso ser firme, minha filha, por amor a você. Porque eu amo você.

Filha: Assim? Obrigada. Dispenso.

Infelizmente, o discurso dessa filha retrata o pensamento e as atitudes de nossos jovens nos dias de hoje. Mostrei essa cena para uma professora universitária e a reação dela foi a seguinte: “Nossa! É exatamente isso que meus alunos falam! Se todo mundo faz, porque eu não posso fazer?” É uma triste realidade que ainda vivemos, onde as pessoas justificam suas atitudes erradas pelo o erro dos outros. Se o outro carro pode passar no acostamento durante um engarrafamento, eu também posso. Se os políticos estão roubando em Brasília, eu também posso desviar pequenas verbas no meu trabalho. Se os impostos estão muito altos, exorbitantes e isso é errado, porque então eu preciso declarar tudo o que tenho?

Reprodução

Além de justificar nossos erros com os erros dos outros, ainda temos a conhecida política brasileira do “jeitinho”. As falas dessa jovem somente exemplificam uma deficiência do povo brasileiro no aprendizado do que é lícito e ilícito, moral e imoral. Até porque, se numa roda de conversa, nós falamos que algum “jeitinho” sugerido é imoral, somos taxados de retrógrados, atrasados, antiquados.

Digo que ainda vivemos essas duas realidades, pois já não somos um país tão novo assim. Em comparação com outros países, como os europeus, realmente ainda somos “crianças”. No entanto, será que mais de 500 anos de história não ensina que com esse pensamento não vamos a lugar nenhum? Vendo a atual juventude vivendo esses valores tortos de querer se dar bem a todo custo e não assumir suas responsabilidades, o que podemos esperar das gerações futuras?

Estamos vivendo e vendo uma geração de jovens que foi criada com a ideia de que tudo pode, tudo é permitido, e que seus erros podem ser “apagados” de alguma forma: pagando propina, faltando com respeito às pessoas, passando por cima dos outros. Conversando com amigos professores, é possível perceber que são eles os primeiros a sofrer as consequências dessa negligência dos pais na educação moral de seus filhos. Em muitas salas de aula, o que se encontra é o desrespeito, falta de educação, falta de compromisso com os estudos, falta de responsabilidade para assumir as consequências de seus atos. Essa tem sido uma realidade comum de se encontrar tanto em instituições públicas como privadas; com famílias de alta ou baixa renda; tanto nas escolas de ensino fundamental e médio, como nas universidades.

Isso sem falar naqueles que acreditam que é matando ou violentando que resolvem seus problemas, sejam pais, mães, cônjuges, desconhecidos, ou ainda, indefesas crianças no ventre das mães. Será que é assim que queremos uma sociedade para nossos filhos e netos? Uma sociedade que aceita e incentiva a correção de um erro com outro?

Mas nem tudo está perdido. Pelo diálogo da novela, ainda há esperança, apresentada na forma de uma heroína, uma delegada e mãe honesta e justa. Realmente, a fala da mãe também me chamou muita atenção, pois deveria ser o discurso de qualquer pai e mãe. Educar os filhos para a vida não é passar a mão na cabeça, assumindo seus erros, ou pior, pagando para encobri-los. Mesmo com sofrimento, os pais devem ensinar a seus filhos que a honestidade, a responsabilidade, entre outros bons valores e virtudes, vale a pena, ainda que tenhamos que fazer sacrifícios para vivê-los. Nossas escolhas são responsabilidades única e exclusivamente nossas, e de mais ninguém. Sejam essas escolhas boas ou ruins, certas ou erradas. E isso deve ser ensinado desde a mais tenra idade.

Voltemos a nossa atenção para a figura da mãe do diálogo apresentado. Além de ser uma mãe preocupada com os rumos que a vida da filha está seguindo, ela se coloca como uma profissional honesta, que não utiliza de sua posição para privilegiar sua família. Novamente vemos que isso é uma atitude talvez pouco comum em nossa sociedade, em que as pessoas procuram parentes ou amigos que estejam em cargos importantes para pedir favores em proveito próprio. Precisamos ter em mente que esse tipo de pedido pode ou não ser um ato ilícito, mas se for para esconder algum crime, ou qualquer atitude que seja errada, torna-se no mínimo um ato imoral.

Outra observação quanto à personagem da mãe: curiosamente, sua figura na história é de uma heroína, alguém que luta pelo bem! Isso é ótimo. Porém, entendo que essa imagem de herói remete a alguém que só existe no mundo “do faz de conta”. O herói é alguém que tem valores e virtudes corretos e que devem ser seguidos sim, devem ser exemplo, mas que na vida real, no dia a dia, não existem tão facilmente. Por esses exemplos serem “heróis” numa realidade fictícia, é passível das pessoas darem a desculpa: “Isso é novela. Na vida real isso é muito difícil, praticamente impossível!”.

Símbolo da Justiça

No entanto, na minha humilde opinião, é possível sim, viver aqui e agora, a virtude da Justiça. Muitas pessoas usam essa palavra, lutam pela justiça, mas não sabem que ela é uma virtude humana que deve ser trabalhada, conquistada por todos nós. A virtude da justiça consiste em vivermos, por nossa boa vontade, o firme propósito de dar ao próximo e a Deus o que lhe é devido. Isso significa, por exemplo, respeitar os direitos das outras pessoas, não reivindicar o que é alheio, proteger o que é nosso sem ferir aqueles ao nosso redor. Porém, não são atos justos isolados que tornam uma pessoa justa. Como toda virtude, para ser vivida plenamente, é preciso se tornar um hábito, um ato constante de nossa vontade.

Nos dias de hoje, falar sobre “viver as virtudes” soa em muitos ouvidos como piegas, ultrapassado, conservador. O que muitas pessoas não sabem é que para construirmos uma sociedade melhor, é necessário combater os seus vícios com a vivência de virtudes, que são hábitos bons, adquiridos voluntariamente através do domínio dos instintos e das paixões humanas desordenadas. Assim, a justiça também é conhecida como uma virtude, que conduz o ser humano para o bem de si mesmo e do próximo.

O autor Livio Fanzaga, em seu livro “As virtudes cardeias: Prudência, Justiça, Fortaleza, Temperança”, ao refletir sobre a segunda virtude, tão necessária em todos os tempos, questiona os critérios que hoje a sociedade utiliza para clamar por justiça.

Como se poderá construir um mundo mais justo se faltam homens honestos? Uma reflexão sobre o valor fundamental da virtude da justiça, na sua dimensão humana e divina e nos seus aspectos individuais e sociais, é mais que nunca necessária para construir um mundo mais solidário e mais fraterno.

A vivência da virtude da justiça, além de resguardar os direitos do indivíduo, garante também seus deveres. É uma virtude que reside na vontade e regula os nossos deveres rigorosos para com o próximo. A justiça faz reinar a ordem e a paz tanto na vida individual como na vida social. Precisamente porque respeita os direitos e deveres de cada um, faz reinar a honradez nos negócios, reprime a fraude, protege os direitos dos pequenos e humildes, refreia roubos, rapinas e injustiças dos fortes, e assim estabelece a ordem na sociedade.

Como já dissemos em outras ocasiões, nossa intenção não é discutir exaustivamente sobre um tema, e o mesmo podemos dizer da vivência da virtude da justiça. Discutiremos em outras oportunidades como podemos colocar essa e outras virtudes em prática nos nossos ambientes de trabalho, escola, na família, na educação dos filhos.

O importante é termos em mente que é possível viver hoje, na realidade da vida cotidiana, virtudes como a justiça, mesmo com tantas correntes e idéias contrárias. São nossas práticas e exemplos que ajudarão outras pessoas à nossa volta a perceber o quanto é importante se preocupar com o bem comum. Só assim conseguiremos ver uma sociedade mais justa e ensinar nossos filhos e netos a viver como heróis no mundo de verdade, e não de faz de conta.

3 comments for “O heroísmo da virtude da Justiça

  1. Amaro Helio
    21 de Março de 2013 at 15:02

    “…de a Deus o que é de Deus e a Cesar o que é de Cesar…”, Gosto bastante desta citação biblica, pois claro esta que além do respeito aos ensinamentos biblicos e religiosos procuro ser obediente as regras da sociedade, ou seja obediente as Leis. E tendo uma formação moral, bastante baseada no cumprimento das Leis impossível não obedecer as regras em gerais, independente que esta seja uma Lei abrangente ou minima. Religiosamente também acho que devemos estar com a consciência livre e que possamos deitar ao travesseiro e agradecer a Deus sem peso na consciência.

  2. Ana K.
    20 de Março de 2013 at 09:16

    Adorei o texto, parabéns!

  3. herbert burns
    19 de Março de 2013 at 21:31

    Num assunto de tamanha dimensão, eu quero ressaltar uma visão particular: as pessoas que elegeram seus ídolos, seus heróis, àqueles que morreram de “overdose”, e que passou a ser referencia em nossa sociedade, ao menos para a sociedade midiática que o elege como padrão dominante e onde o iniciante aprende primeiro o método fascista de ser, isto é, o coorporativismo. Deputados julgam deputados, senadores julgam senadores, e os olhares conscientes da moral nunca se volta para o judiciário e o ministério público, que parece ser uma ilha numa sociedade que fornece às penitenciárias meio milhão de brasileiros! Este Poder da República, hipocritamente soltando fogos de justiça e fumaças de honestidade, ao final de cada ano, libera cerca de mil presos (só no Rio e ES) que se encontravam nas penitenciárias sem nenhum processo. Viva mais uma do coorporativismo, promotores julgam promotores. Juízes julgam juízes. Precisamos muito de um ministério da Justiça e do Direito, Da Moral e do Cívismo, da Economia e da Honestidade, mais onde buscar estas pessoas que assumam em manter a dignidade ante as investidas de sedução da corrupção vigente? Podemos encontrá-las nos líderes políticos que hoje, são visivelmente herdeiros dos vícios de políticos passados? Falo políticos mais estende-se a juristas, empresários, banqueiros etc. O futuro deste país é sem dúvida o jovem, nosso olhar deve se voltar para a família, em primeiro lugar, o berço , o ninho, o lugar acolhedor por excelencia do jovem. E depois o próprio jovem e sua força de mudança de estruturas que lhe é natural. Devemos fazer a mudança já, ou teremos que viver com dupla personalidade: ao chegar em casa deixamos nosso carater mundano, aquele de levar vantagem em tudo, vale tudo. Penduramos na varanda como um sobretudo. Não podemos entrar em casa assim. Deixá-lo na varanda a posto para qualquer saída de emergencia que se fizer necessária. E em casa… em casa nós somos cristãos… críticos do mundo que nos cerca.

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