Sexualidade e Adolescência na telona

A fase da adolescência é vista muitas vezes por pais e mães como uma fase “problemática”, de crise para seus filhos. No entanto, se observarmos ao longo de todo o desenvolvimento do ser humano, não é apenas na adolescência que as crises aparecem, mas durante toda a vida. Ora, é na crise que crescemos, evoluímos, amadurecemos, passamos para uma nova etapa. Que crise não passamos todos nós, quando tivemos que aprender a controlar nossas necessidades fisiológicas pois não teríamos mais o conforto da fralda? Ou quando tivemos que forçar nossas pernas e pés pequenos, para nos manter equilibrados andando, e não mais na facilidade do engatinhar? Essas e outras tantas crises que superamos ao longo de nossa existência não são valorizadas, pois na maioria das vezes não ficam na memória, mas fazem parte de nossa vida e são muito importantes, como a crise da adolescência. Para tratar o tema, utilizaremos mais um exemplar da sétima arte!

Reprodução

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O filme “Juno” apresenta um tema muito importante para pais, mães, filhos e filhas: a afetividade, a sexualidade e a gravidez na adolescência. Juno é uma adolescente de 16 anos que é pega de surpresa por uma gravidez não planejada. Esse filho é fruto de uma “aventura” que ela tem com um amigo muito próximo. A decisão dos dois de ter uma relação sexual é tomada a partir de uma atração física e de um desejo de conhecer o que é o sexo, de juntos fazerem descobertas sobre o próprio corpo.

Na adolescência, meninas e meninos começam uma nova fase em seu desenvolvimento psicossexual, pois é nela que se inicia a puberdade, a vida fértil e começam a sentir impulsos sexuais, ainda desordenados. No filme, quando Juno e Paulie decidem ter uma relação sexual, eles não pensaram nas consequências desse ato, mas apenas no prazer e nas descobertas que isso poderia trazer a eles. Se os impulsos são desordenados, quem deve ordená-los?

Não somente na adolescência, mas durante todo seu desenvolvimento, pais e mães devem acompanhar e principalmente educar seus filhos e filhas, passando valores nobres e virtudes. Uma das virtudes que deve ser ensinada desde a mais tenra idade e que, se bem formada, ajuda bastante na adolescência, é a virtude da ordem. Com ela, as crianças aprendem a ordenar as coisas ao seu redor, na vida, pela importância que elas têm. O ensinamento pode começar com ordenamentos “práticos”: arrumar o quarto e os brinquedos, almoçar antes de ver televisão, escovar os dentes antes de dormir, etc. Porém, conforme a criança vai crescendo em maturidade, novos e mais importantes ordenamentos vão sendo introduzidos na sua educação. Isso tudo irá ajudá-la a ordenar também suas vontades, como por exemplo, ir dormir cedo para descansar, mesmo com vontade de brincar mais. Mesmo sendo “contrariada”, a criança vai aprendendo que, mesmo quando sua vontade diz uma coisa, a ordenação do que é mais importante é que deve prevalecer na vida.

Assim, o adolescente que foi educado com valores positivos e virtudes, e que sabe da importância de proteger sua intimidade, irá mais facilmente ordenar sua sexualidade que está aflorando. Como em todas as fases, na adolescência a presença amiga, conselheira e constante dos pais irá ajudar os filhos a passar também por essas crises. No filme, desde que Juno tinha 5 anos, os pais se separaram e a mãe saiu de casa, sendo que posteriormente se casou novamente e teve outros filhos. Ela mora longe de Juno e mãe e filha não tem muito contato. Juno também não tem muito diálogo em família, nem com o pai nem com a madrasta. Ao descobrir que está grávida não conta para a família, mas sim desabafa com uma amiga, que lhe incentiva a fazer um aborto. Ao chegar à clínica de aborto e refletir sobre a criança que espera, Juno mostra maturidade e toma a decisão de encontrar um casal que queira adotar sua criança.

O adolescente se encontra numa fase de desenvolvimento em que está definindo, por si só, sua identidade. Nessa fase, o adolescente não forma sua identidade a partir somente das pessoas que eram seus modelos na infância, como pai, mãe e professores, mas é sim uma síntese de todas elas e é formada principalmente pelas decisões e opções escolhidas por ele, criando assim uma nova e única identidade. Até essa nova construção estar sólida, alguma confusão pode acontecer e até certo grau é normal. Porém, a patologia está em o indivíduo nunca estabelecer claramente a sua identidade, e se manter na confusão pela vida afora.

A identidade a ser formada pelo adolescente possui três dimensões: identidade sexual, que permite perceber o ser mulher e o ser homem, e a agir como tal; identidade vocacional, que define qual o estado de vida que esse adolescente quer seguir (casar, ser solteiro, seguir a vida religiosa?); e a identidade profissional ou ocupacional, que possibilita a escolha por uma profissão ou uma ocupação, como ser dona de casa ou ser fazendeiro. Ao definir claramente essas três dimensões, o indivíduo atingiu a maturidade na adolescência.

Atualmente, essa definição tem sido postergada cada vez mais, fazendo com que meninos e meninas estendam sua adolescência. Antigamente, nossos avós e bisavós casavam-se e eram pais e mães muito mais jovens que hoje em dia, na maioria das vezes ainda na idade adolescente. Mas por que isso não trazia problemas para eles, e hoje a gravidez na adolescência é uma questão amplamente discutida e preocupante? A resposta está justamente na definição das três dimensões da identidade, que antigamente eram resolvidas mais cedo do que nos dias de hoje.

No filme, Juno se encontra nesse dilema ao descobrir que está grávida. Ela percebe que não tem maturidade para enfrentar a situação de ser mãe e decide “cortar o mal pela raiz”. Porém, ao repensar a decisão de fazer um aborto, ela percebe que essa não é a solução, e por isso escolhe por colocar a criança para adoção. Podemos analisar essa escolha como uma forma de Juno “fugir” a realidade e ao compromisso de ser mãe, como também uma forma madura de escolher pela vida da criança e que esta viva uma realidade e uma família melhor do que a ela poderia lhe proporcionar.

Podemos perceber que a identidade sexual de Juno estava bem formada. Apesar de não ser uma menina vaidosa, ela tinha consciência do que é ser mulher e quais são as atitudes de uma mulher. Porém, a identidade vocacional e a profissional/ocupacional não estão definidas para Juno.

Na cena em que ela conversa com o pai sobre suas dúvidas em relação à formação familiar e o relacionamento amoroso de um casal, ela demonstra que ainda não tem definido qual a sua vocação. Essa incerteza é também gerada pelos exemplos que ela encontra ao seu redor, como os próprios pais e o casal que irá adotar sua criança. Talvez ela pense que realmente a vida matrimonial seja a melhor escolha, mas no seu interior ela não quer viver da maneira que lhe é apresentada. Por isso pergunta se é possível viver para sempre feliz com uma única pessoa. Essa é sua aspiração, mas tem a dúvida de que isso seja possível, se está ao seu alcance. Apesar de não querer assumir a maternidade da criança que espera, a gravidez a ajuda a perceber algumas coisas, como essa aspiração pelo relacionamento estável a dois, a definição do que é a pessoa certa para ela e do que é ser mãe.

Com relação ao desenvolvimento moral, pode-se notar que inicialmente Juno tomou uma atitude típica de um adolescente perdido e assustado, que pensam como todo mundo, e agem da forma que serão “aceitas” pela sociedade. Juno decide fazer um aborto porque as pessoas ao redor dela, da sua idade e imersas no conceito da sociedade descartável, fazem. Porém, Juno reflete sobre essa decisão e percebe que não precisa segui-la simplesmente porque “todo mundo faz”. Ela decide por “nadar contra a maré” e, mesmo sendo discriminada com os olhares, ela decide preservar a vida do bebê, mesmo que ela não o crie. Podemos dizer que, apesar de sua educação falha e ausente dos pais, ela já está agindo de acordo com valores e princípios inerentes do ser humano.

Pais e mães devem ter consciência de que, antes de um dever, a educação dos filhos é um direito deles que não deve ser delegado ou menosprezado. A transmissão e principalmente a vivência de valores e virtudes por parte dos pais, como o respeito consigo mesmo e com os outros, o cuidado com a intimidade (pudor),  a responsabilidade sobre seus atos e escolhas, entre outros, ajudam muito aos filhos a crescerem em maturidade e sabedoria, se tornando adolescentes mais seguros para lidar com tantas mudanças. A amizade sincera e conselheira dos pais para com os filhos deve ser sempre alimentada, sem perder de vista que pais e mães são as “autoridades” da casa, aqueles que orientam e indicam os caminhos, e não meros “colegas”.

Luciana Hilario

8 comments for “Sexualidade e Adolescência na telona

  1. Priscila
    24 de fevereiro de 2011 at 17:27

    Excelente Lu!

    Amei o texto..de facil leitura e de grande esclarecimento.

    Vou divulgá-lo!!

    • Robson Oliveira
      24 de fevereiro de 2011 at 18:22

      Depois desse artigo eu quero é ver o filme mesmo… rsrsrs…

      • Luciana
        25 de fevereiro de 2011 at 14:25

        Robson, o filme é muito bom! Vale a pena ver!

    • Luciana
      25 de fevereiro de 2011 at 14:24

      Obrigada Pri! Mas elogia de amiga vale?! 😉

      Beijos,
      Lu

  2. Fabiano Gomes
    22 de fevereiro de 2011 at 14:34

    Excelente post, Robson. Uma leitura fácil, porém, altamente interessante (até pela escolha do tema). Apesar de grande, a leitura flui com tranquilidade, uma verdadeira aula.

    • Robson Oliveira
      22 de fevereiro de 2011 at 14:35

      É, Fabiano. O pessoal que escreveu é bom pacas!

      Apareça, meu camarada.

    • Luciana
      22 de fevereiro de 2011 at 14:42

      Obrigada, Fabiano!
      Gosto de escrever sobre temas importantes para a família usando exemplos de filmes. Afinal, de uma certa forma, o cinema imita a realidade. Se assistirmos aos filmes com olhar crítico e reflexivo, podemos aprender com os sofrimentos e alegrias dos personagens, sem necessáriamente viver situações adversas. Se gostar também, dê uma lida nos outros posts sobre filmes do Blog Conversa em Família.

  3. Bel
    20 de fevereiro de 2011 at 17:55

    Que texto bom!!!

    Parabéns pelas palavras esclarecedoras.

    bjks

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