08 de Outubro – Dia do Nascituro – Reflexões

“O nascituro é aquela pessoa que ainda não veio à luz, mas já está vivendo no ventre materno e que merece todo carinho para que seja acolhido no momento de nascer, e acolhido pelo resto da vida. Para que possa ter uma família que o ama, e ter pessoas que cuidam dele ajudando a alcançar a maturidade”. Dom João Carlos Petrini – Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Vida e a família da CNBB.

Como disse Chesterton:

“Se tornar um Católico não é deixar de pensar, mas aprender a pensar.”

Diferentemente dos agnósticos com sua visão cética e racionalista, ou ainda, de outras seitas cheias de espiritualismo infundado, nós católicos caminhamos amparados pela fé e razão.

Como bem lembrado pelo saudoso e beato Papa João Paulo II:

“A fé e a razão (fides et ratio) constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de O conhecer a Ele, para que, conhecendo-O e amando-O, possa chegar também à verdade plena sobre si próprio.”

Sempre quando o tema do aborto e a defesa da vida vem à tona, nossos adversários nos tratam como obscurentistas, retrógrados, reacionários etc. Todavia, em todo debate o que vemos são falácias, mentiras veladas em discursos cheios de retórica para agradar não àquelas mulheres sofridas (como dizem), mas ao público feminista (que mais parecem machistas), ou ao já desmascarado e conhecido lobby internacional para a descriminalização do aborto no nosso país.

O que mais desespera este grupo pró morte e de desvalorização do ser humano é a contínua e perseverante presença da Igreja Católica na defesa da vida e da família com argumentos científicos, filosóficos, teológicos, médicos etc.

A líder feminista Francis Kissling, que foi presidente de 1982 a 2007 das “Catholics for a Free Choice”, ou em português, “Católicas pelo Direito de Decidir”, disse que:

A perspectiva católica é um bom lugar para começar [a campanha pró-aborto], tanto em termos filosóficos, sociológicos, como teológicos, porque a posição católica é a mais desenvolvida. Assim, se você puder refutar a posição católica, você refutou todas as demais. Nenhum dos outros grupos religiosos realmente tem declarações tão bem definidas sobre a personalidade, quando começa a vida, fetos etc. Assim, se você derrubar a posição católica, você ganha” (Fonte: KISSLING, Francis. Interview by Rebecca Sharpless. Audio recording, September 13–14, 2002. Population and Reproductive Health Oral History Project, Sophia Smith Collection).

Evidentemente não podemos deixar de ter os grupos pró-vida, lutando cotidianamente junto àquelas mulheres sofridas, estupradas, iludidas e ludibriadas por homens sem amor, que utilizam os corpos destas para obter o prazer sexual, contudo, temos que ter uma luta ainda maior dentro da Igreja, pois há uma infiltração, que entrou também nos nossos lares e nas nossas escolas.

Devemos educar e formar desde cedo nossos filhos e filhas nas virtudes, a respeitarem seus corpos, e agirem sempre lembrando que ter liberdade implica necessariamente em agir com responsabilidade.

Os grupos que lutam pelo direito ao aborto, antes de utilizarem a falácia de sempre e tratar o assunto de forma superficial, deveriam refletir um pouco, e ao menos discutir sem preconceitos se a forma que a Igreja lida com a moral em torno da afetividade e sexualidade humana não seria a mais coerente.

Cabe certamente a reflexão trazida pelo catolicismo nesses dois milênios, em contraponto à outras correntes filosóficas modernas. Nesses ditames, em torno da crise que o mundo vive, deparamo-nos com o dilema da verdade, tal como Pilatos, “O que é a Verdade?”.

A filosofia moderna nos apresenta o ponto extremo do relativismo, onde a ética que rege a convivência social é pautada no instinto, ou seja, o que me oferece prazer é bom, o que não dá prazer é mal.

Seres humanos racionais vivendo por instinto, ludibriados pelo mainstream a rejeitar tudo o que foi refletido e meditado nesses dois milênios de consolidação da civilização ocidental em torno de uma moral que apontava para a família, o cerne da humanidade, ali está o “santuário da vida”.

Há uma grave crise reflexiva sobre o sentido da vida, e o Papa João Paulo II nos exorta:

“Variados são os recursos que o homem possui para progredir no conhecimento da verdade, tornando assim cada vez mais humana a sua existência. De entre eles sobressai a filosofia, cujo contributo específico é colocar a questão do sentido da vida e esboçar a resposta: constitui, pois, uma das tarefas mais nobres da humanidade. O termo filosofia significa, segundo a etimologia grega, « amor à sabedoria ». Efectivamente a filosofia nasceu e começou a desenvolver-se quando o homem principiou a interrogar-se sobre o porquê das coisas e o seu fim. Ela demonstra, de diferentes modos e formas, que o desejo da verdade pertence à própria natureza do homem. Interrogar-se sobre o porquê das coisas é uma propriedade natural da sua razão, embora as respostas, que esta aos poucos vai dando, se integrem num horizonte que evidencia a complementaridade das diferentes culturas onde o homem vive.” Carta Encíclica – Fides et Ratio.

Quando debatemos o tema do aborto, várias vezes nos frustramos ao ouvirmos argumentos contrários pautados somente na análise da ação e reação, do hedonismo, do descartável, excluindo algumas realidades que não nos afastam da felicidade, como o sofrimento, o suor e o trabalho, a reflexão, e o doar-se.

O filósofo escocês Alasdair MacIntyre preocupado com as falhas da tentativa dos iluministas em traçar uma linha onde racionalismo moral eliminaria as disputas ideológicas, tenta resgatar a concepção da moral aristotélica-tomista em seu livro “Depois da Virtude”. Traçando uma linha da evolução histórica da filosofia nos presenteia com a seguinte reflexão: a) Teologia católica – captação racional clássica somada a revelação divina. b) Teologia protestante – fonte apenas na revelação divina. c) Iluminismo – fonte apenas no racionalismo, que desencadeia no intuicionismo (sentimento) e atualmente no emotivismo (desejos, ou instintos).

A Igreja desde sempre defendeu que o ser humano por ser dotado de inteligência deveria viver uma vida pautada nas virtudes, ou uma, Ética das Virtudes, equilibrando os apetites dos prazeres e a exigência dos deveres, e ainda, que o estado deveria estimular a educação para as virtudes, educando as vontades, tornando o homem livre.

Vemos hoje que a chamada “iluminação” francesa, ou seja, o iluminismo, ao contrário rompeu a visão cristã de que a liberdade é absoluta, de que a liberdade humana só tem sentido se dentro dos limites metafísicos da liberdade divina.

A liberdade humana é fundada na divina. Pela revelação divina:

“a ordem jurídica, ou seja, as leis numa sociedade, seria fruto da livre disposição dos homens, olvidando-se que determinadas normas, que estão ligadas à natureza humana, constituem direitos inalienáveis da pessoa humana, seus direitos humanos fundamentais, que não cabe ao Estado estabelecer, mas apenas reconhecer com preexistentes”(cf. Ives Gandra Martins Filho, Ética e Ficção).

Hoje vemos ao contrário, arraigado em nossas mentes está a máxima do contratualismo iluminista da linha filosófica de Rousseau, onde o pacto social está baseado em limitar as liberdades individuais, ou, “a liberdade de cada um termina onde começa a do outro”.

É uma visão reducionista da liberdade humana, por isso ao se converter definitivamente ao catolicismo Chesterton afirmou o seguinte:

“Somente a Igreja Católica pode salvar o homem da destrutiva e humilhante escravidão de ser filho de seu tempo”.

Em Ortodoxia, o brilhante Chesterton alerta que:

“A Revolução Francesa foi realmente um fato heróico e decisivo, porque os jacobinos quiseram algo definido e limitado. Desejaram as liberdades da democracia, mas também todos os vetos democráticos”.

E o que vemos realmente é isto. Na nossa democracia há classes pessoas. Algumas exigem direitos e liberdades, retirando de outras direitos e liberdades, um paradoxo difícil de entender, mas que criou uma lacuna existencial nos nossos jovens, pois o prazer é passageiro.

Façamos um teste. Retirem deles (os jovens) a internet e o celular, as orgias e as batidas do funk, o que restará? Sem os prazeres alucinógenos, sentirão certamente o pessimismo Sartriano, uma epécie de náusea profunda, um frio na barriga, como se estivessem caindo de um desfiladeiro. Faltará para a juventude uma estabilidade, algo eterno, que só a fé supre.

A Igreja ensina ao católico que é necessário ter fé, para não sentir o vazio existencial, mas também a razão para saber discernir o que é bom ou mal, afinal como dito por São Paulo, “Tudo posso, mas nem tudo me convém.”

Em relação à sexualidade, o filósofo Paul Ricoeur, em 1960 já alertava:

“Há, a princípio, aquilo que eu chamaria a queda na insignificância… Tudo o que torna o encontro sexual fácil favorece também a queda ao grau zero do sentido e do valor”.

Poderiam agora me perguntar, mas o que tudo isso haver com o dia do nascituro? Respondo, tudo.

Não é a pequisa de opinião do IBOPE ou Datafolha, ou de quem for, que deve ditar o que é bom ou mal para a sociedade, mas sim a sabedoria clássica da humanidade associada à revelação divina, que apontam para uma lei natural, que preservará a humanidade dos diversos males que nos assolam e põem em risco não só nossas vidas físicas, mas também nossas vidas espirituais.

O aborto é um mal, resseca a alma humana ao relativizar a vida. Dizem as feministas que o feto não é um ser humano. Pergunto então, o que meus filhos nascidos são? Cachorros?

Permitimos que passassem um período de sua existência humana no sagrado útero de sua mãe, tomaram forma, cresceram, nasceram, e continuam necessitando de ajuda para comer, se formar, e crescer. Foram desde sempre humanos, dentro da barriga da mãe, agora na casa dos pais, em alguns momentos na escola, depois no trabalho, na sua própria casa, até sua morte natural. Sempre humanos.

Encerro citando Jérôme Jean Louis Marie Lejeune (Montrouge,13 de Junho de 1926 — Paris, 3 de abril de 1994). Médico francês, pediatra e professor de genética, a quem se deve a descoberta da anomalia cromossômica que dá origem à trissomia 21.

« É preciso dizer as coisas com clareza, mede-se a qualidade duma civilização pelo respeito que ela tem pelos seus membros mais frágeis. Não há outros critérios de julgamento. »

Cláudio Santos

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