Cartas a Maria – fev/14 – Sobre as escolhas

Cartas-de-amor-para-mi-esposoDe um Pai
Av. Paternal, 33
201402-01

Ao seu(sua)
amado(a) filho(a),
Rua do Infante, 00

Cidadela da Família, 01 de fevereiro de 2014.

Assunto: Sobre as escolhas

Meu(minha) e muito amado(a) filho(a):

Cito nesta carta trecho de um texto do grande jornalista e escritor Chesterton, para que nunca se esqueça que seus pais são livres, extremamente livres. Chesterton em “Babies and Distributism”, disse que:

“… um filho é o sinal e sacramento próprio da liberdade pessoal. Ele é uma vontade livre nova adicionada às vontades do mundo; ele é algo que seus pais têm escolhido livremente produzir e o qual eles concordam livremente em proteger. Eles podem sentir qualquer divertimento que ele dá (que normalmente é considerável) realmente vêm dele e deles de mais ninguém. (…) Ele é uma criação e uma contribuição; ele é sua própria contribuição criativa a criação. Ele é também uma coisa muito mais bonita, maravilhosa, divertida e surpreendente do que qualquer das musicas de histórias velhas ou jazz a tilintar produzidas pelas maquinas. Quando os homens não sentem mais que ele é tal, eles então perderam a apreciação das coisas primárias, e, portanto todo senso de proporção acerca do mundo. Pessoas que preferem os prazeres mecânicos, a tal milagre, estão exaustas e escravizadas. Elas estão preferindo as próprias escorias da vida a as primeiras fontes da vida. Elas estão preferindo as coisas, últimas, tortas, indiretas, emprestadas, repetidas e esgotadas da nossa civilização capitalista que está morrendo, a realidade que é o único rejuvenescimento de toda a civilização. São eles que estão pondo nos braços as correntes da sua velha escravidão; esse é o filho que está pronto para o mundo novo.

Só irá descobrir ao nascer e amadurecer, e sobretudo se escutar e aprender o que deve ser aprendido ou escutado, pois o mundo nos engana, e facilmente nos aprisiona, e as grades desta prisão tem diferentes facetas, fobias, muitas delas encobertas por um manto de aparente bom motivo.

Se um dia citar este trecho a alguém, poderá receber o escárnio, a reprovação alheia. Já está impregnado na mentalidade  de nossa era o “Birth-control”, que no fundo é uma espécie de “filhofobia”. Os olhos mundanos se apequenaram. Vivemos numa sociedade que tenta resolver algo mal com outro mal, e dizem que um dos problemas contemporâneos são os filhos.

Os problemas familiares, as crises conjugais, e porque não o utilitarismo, levou-nos a um efeito cascata, uma bola de neve, o mundo necessita de maiores ações corretivas, e o mal cresce, se avoluma, e logo são aceitas novas dissensões com o passado. A solução para os problemas familiares? Não terem mais filhos, ou pouquíssimos, não serem mais famílias.

Aos poucos abre-se mão dos bons hábitos, pois seus efeitos são de longo prazo, porquanto a espiral de erros nos deixa tontos, e realmente somos uns tontos, porque a solução está na escuta da tradição. E a Igreja é isso, Sagrada Tradição e Sagrada Escritura, “conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”.

Como bem avaliou Gadamer:
“Tradição não quer dizer certamente mera conservação, mas transmissão. A transmissão, porém, inclui que não se deixe nada imutável e meramente conservado, mas que se aprenda a dizer e captar o velho de novo de modo novo”.

É na Igreja Católica amado filho onde se encontra essa transmissão, a mensagem verdadeira que extrapolou as catacumbas onde jazem os corpos dos primeiros cristãos, que rompeu os claustros e muros dos antiquíssimos mosteiros, que universalizaram a transmissão do conhecimento, inclusive pagão, através da criação das Universidades, e que formaram verdadeiros apostolados através das casas de saúde, orfanatos e hóspices ao longo dos séculos. A mensagem embora antiga se renova ao passar dos tempos.

Entretanto, o orgulho humano quer triunfar sob o véu de uma transformação revolucionária, alguns sob a aparente intenção de purificar o mundo numa via santa pensou ser eficaz a doutrina da “Sola Scriptura”, posteriormente, outros em nome da razão viu eficácia no Iluminismo da “Liberté, Egalité, Fraternité”.

No fundo ambos os lados romperam com a tradição. Quis-se o rompimento com os padrões morais atingidos pela razão com uma raiz eudemológica pautada nas virtudes, tão bem trabalhada pelos filósofos socráticos, e posteriormente amplificados e complementados pelas bem-aventuranças do cristianismo, ensinadas desde os primeiros séculos pelos escolásticos. Como bem disse o Papa Francisco: “A fé não tem medo da razão”.

Se pensarmos com carinho veremos que os maiores erros filosóficos modernos nasceram em territórios inebriados por aquelas doutrinas cismáticas, por um lado pássaros cambaleantes com a asa da fé, de outro, outros pássaros com a asa da pseudo-razão.  Ambos tentaram, mas não conseguiram alçar voo, pois não possuem respostas aos questionamentos da humanidade. As duas asas, Fé e Razão, ensinadas pelo realismo cristão e a filosofia aristotélica-tomista que estabilizaram e permitiram que a cristandade alçasse voo durante séculos foi questionada e esquecida.

É verdade que Cristo, e sua amada Igreja nunca mentiram. Quem quiser me seguir tome a sua cruz e me siga. Este chamamento radical induz muitos a desistirem da Boa Nova verdadeira, pensando ser a transmissão católica um aprisionamento, e terminam se apegando aos discursos de falsos profetas, que prometem uma vida de riqueza e bem-estar.
Afinal, quem são os livres e os escravos?

Muitos querem corpos sarados, só que como dizia a vovó: “saco vazio não fica em pé”, e estes corpos esculturais andam amparados na tecnologia que aprisiona as mentes em um mundo virtual, que cobra pelo que oferece, e entrega tragicamente a estes mesmos corpos o insaciável prazer sexual, consumista e supérfluo. Outros muitos querem a solução mística ou exotérica, onde a espiritualidade se adequa ao bel-prazer do indivíduo, promete-se prosperidade, curas, e paz, num mundo orgulhoso de autoajuda onde a razão escorre como água entre os dedos, restam os devaneios. Ambas vias são trágicas para humanidade, vias de retorno ao princípio da era cristã.
Afinal, quem são os livres e os escravos?

Naquele tempo, no início do cristianismo, dos grupos mais rejeitados viúvas, órfãos e idosos, surgiram os solos mais fecundos para que a palavra de Deus tomasse o mundo. Mas depois de dois bilênios a humanidade retorna aos erros propositivos outrora eliminados. Atualmente há uma tendência enorme de mães solteiras, viúvas de maridos vivos; filhos, órfãos de pais vivos, e; idosos, pais de filhos ausentes. A sociedade contemporânea “se dana” pra isso, porque vê no homem apenas mais um no meio da massa, um proletário.
Afinal, quem são os livres e os escravos?

E o discurso da Igreja? O mesmo de sempre, tendo na família religiosa, pai, mãe e filhos, o cerne do restabelecimento à estabilidade da sociedade humana. A Família cristã é o celeiro das virtudes, onde se aprende a viver sobre o amparo divino com o dom da Fé, e sob os olhos humanos com o dom da Razão.
Afinal, quem são os livres e os escravos?

Eu escolhi o meu lado, e utilizando a reflexão chestertoniana supracitada, ou seja, contribuir criativamente a criação, com o chamamento à paternidade, e gerar uma vida, protegê-la e educá-la é algo muito mais bonito, maravilhoso, divertido e surpreendente do que qualquer outra coisa oferecida pelo mundo. Tenho a sã consciência e o prazer da liberdade de ser pai e esposo, sem medo de restringir o plano de Deus. Espero que você ao ler estas palavras saiba escolher bem o seu, que rezo, seja ao lado da Igreja de Deus.

Até a próxima…

Sancte Michael Archangele, defende nos in prælio. Amen.

Anterior: http://humanitatis.net/blogs/humanae-vitae/cartas-a-maria-jan14

Nota: Se quiser saber o porquê destas cartas, leia:  http://humanitatis.net/blogs/humanae-vitae/cartas-a-maria-jul14

Cláudio Santos

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