Já se preparou para morrer? – Parte 1

 A morte tem sido uma péssima pressão sobre as pessoas. Muitas horas da vida são gastas no medo desse grande mistério. Morrer é uma das poucas coisas que todos têm de fazer, mas frequentemente não suportamos pensar sobre isso. Nossa sociedade sente-se tão desconfortável com a morte que apesar do enorme interesse nela, poucos estão dispostos a conversar sobre o assunto abertamente como um tópico estimulante de uma conversação

(Patch Adams)

Nossa Igreja é tão rica, que a morte é carregada persistentemente em sua doutrina e liturgia. O católico não teria assim que menosprezar a morte, e sim tratá-la como um evento obrigatório, definitivo, porém passageiro, antes de se olhar com os olhos da ciência (que claro não deve ser excluída), devemos tratá-la e administrá-la com a fé.

Faz  um mês comecei a preparar uma postagem para a semana do Feriado de Finados. Finados passou, e uma semana mais, e não consegui terminar o post da forma que pretendia.

Porém como o assunto é urgente, gostaria de compartilhar com todos ao menos as breves reflexões trazidas de algumas leituras. Umas recentes e outras não tanto, como a leitura que fiz do livro Biotanatologia e Bioética, do médico Evaldo A. D’Assunção.

Mesmo já se tendo o feriado de Finados, gostaria de trazer a tona este tema para nossa constante reflexão, A MORTE. Não pretendo neste primeiro momento discorrer fundamentos cristãos sobre a morte, nem também sobre o que dizem alguns estudos científicos, mas tão somente refletir histórica-filosoficamente sobre alguns pontos essenciais.

É fato que “Ninguém jamais fracassou em morrer, mas em viver […] Ora, como viver, pelo menos como viver feliz, sem aceitar a própria trama de nossa existência, que é o tempo que passa, e a vida se desfaz?”(André Comte-Sponville).

Como já afirmei não entrarei no tema com viés cristão, mas como exemplo, os Santos cultuados pela Igreja católica, exemplos de vida ascética, mística, espiritual, e ainda, humanística, tratavam a morte com olhos de humilde reverência, sem menosprezo, medo ou prepotência. Muitos mantinham em seus recintos de oração, meditação e penitência um crânio humano para lembrar a fugacidade da vida.

Outros muitos, cristãos ou não, mudaram sua perspectiva cotidiana a partir de fatos onde se depararam com sua iminente morte. Viram que a vida era perene, e que a passagem para um estágio de último suspiro poderia surgir ardilosamente sem lampejos ou avisos.

O filósofo e psicólogo clínico, professor Robson Figueiredo Brito  diz que: “A sociedade que vivemos valoriza e incentiva a todo o momento a força, a vitalidade, a potência, o controle da vida e da morte. Isso é facilmente verificável em nossa experiência cotidiana. A morte deixa de ser reconhecida como um aspecto integrante do viver e toma o lugar da impotência, do fracasso, da desestabilização. Começa aí uma cruzada contra essa inimiga cruel que nos avassala”.

Nem quando nos chocamos de frente com a nossa doença, ou doença de outro pensamos na morte. Pe. Paulo Ricardo, em homília recente na Paróquia do Patronato, São Gonçalo – RJ, por ocasião da festa de Nossa Senhora Aparecida, contou-nos um fato interessante. Pouco tempo depois de acompanhar um jovem no seu caminho Catecumenal e de Batismo, foi chamado às pressas para dar a este mesmo jovem uma Extrema Unção. O que diria alguém neste momento?

O padre ao encontrar-se com o jovem de imediato bradou: “Prepare-se para a morte!”. O padre sorrindo dirigiu-se a assembleia que ouvia sua homillia e exortou: “Não disse que ele iria morrer, mas que ele tinha o privilégio dado por Deus de se preparar para a morte, enquanto muitos desperdiçam a vida e morrem sem preparo”.

De fato, aquele jovem teve uma grande oportunidade de ganhar o céu e, como não morreu, teve diante dele um grande momento de reflexão não sobre a morte em si, mas sobre a vida.

O professor Armando Porto, da Faculdade de Coimbra, lembra que “Quando o doente pede ao médico que o trate, tão grande é actualmente o progresso da Medicina que ele e a sua família não consideram como natural a morte, que é então encarada como um fracasso das ciências médicas”. E continua embasado em Comte Sponville refletindo que, de facto, não é a morte que temos que vencer – até porque não podemos – mas sim o medo que temos dela. O remédio para tal é a sageza –“sagesse”: forma superior de sabedoria – e não a saúde; a Filosofia, e não a Medicina, é o caminho (C. Sponville).

Ótima reflexão! Não podemos vencer a morte, mas com a sabedoria e a filosofia podemos aprender com ela a vivermos melhor.

Leon Tolstói, escritor russo do século XIX, escreveu um romance que choca leitores até hoje, porque tratou de forma direta sobre o tema que nunca deveria sair de moda. Em seu livro “A Morte de Ivan Ilitch“, o autor de forma brilhante relata com clareza a preocupação do personagem, que somos todos nós, na boa preparação para os estudos, na profissão, em formar família, conseguir uma moradia, e decorá-la, fazer festas e eventos etc. Ivan Ilitch fez isso tudo, porém quando golpeado pela doença, nada pode ajudá-lo, não queria pensar na morte pois acreditava em recuperação, todos o evitavam para não pensar na morte. Não teve jeito, a morte veio, e qual o seu legado? Valorizou a pompa em detrimento da sua família. Os acessórios de decoração a gestos de carinho com a esposa e filhos, os jogos aos momentos em família.

Atualmente a tecnologia, juntamente com o “boom” das comunicações, dentre elas as redes sociais, inseriu a humanidade num espaço paralelo. Seria como se abrisse uma outra dimensão onde a morte não é vista, a não ser quando se cai do cavalo, devolvido assim forçadamente à realidade, eis do nada a morte estampada a nossa frente.

A humanidade já provou, desde o princípio a necessidade de uma relação estreita com a morte. A arqueologia encontrou sinais da relação humana com a morte desde sempre. O homem de Neandertal, que vivia em comunidades, sepultava seus mortos em posição fetal, com alimentos, enfeites e objetos. Vejam que nossos ancestrais sem doutrinas ou filosofias já admitiam uma vida após a morte, a terra como útero, os mortos renasceriam para uma nova vida, por isso precisavam de alimentos e objetos.

Os sumérios e os egípcios mumificavam seus mortos, cerca de 8000 e 3000 a.C. Nas tumbas egípcias, arqueólogos encontraram escritos intruindo aos mortos como atravessar o rio da morte em busca da outra margem, ou nova vida.

Dentre estas pinturas está o julgamento após a morte.

Anúbis, corpo de homem e cabeça de cão, é o deus egípicio responsável por conduzir a alma até uma balança. Lá está o deus Thoth, corpo de homem e cabeça de pássaro, uma forma de tabelião do tribunal. É então colocado em um lado da balança o coração (alma) do morto e no outro lado uma pluma. O deus babai, de cabeça de crocodilo, irá devorar o coração, caso este pese mais que a pluma, significando aí que este coração está cheio das misérias humanas. No desenho vemos que o coração é mais leve, pois a alma não está apegada à nenhum prazer mundano; desta forma o deus Horus, corpo de homem e cabeça de gavião, carrega o coração até o trono de Osíris, seu deus maior, que tem de um lado Ísis, sua esposa e do outro Néftis, sua irmã, que recebe a alma e abre para ela as portas do além.

Amigos, são apenas contribuições para uma reflexão, não creio e não quero que ninguém creia em mitologias, mas sabemos que os ensinamentos das diversas culturas, leituras de clássicos da literatura, e livros de história sem viés ideológico, nos conduzem a consolidação de certos conceitos que podem ser utilizados nas nossas conversas, alimentando-nos de argumentos para conduzir aqueles que não professam nosso credo a um dia constatarem a verdade, e onde ela se encontra.

Sancte Michael Archangele, defende nos in prælio. Amen.

Cláudio Santos

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