Que resposta precisamos dar ao mundo nesta Semana da Família?

“Quantos problemas! E quantas respostas é preciso que demos!… Tomemos como exemplo o “birth control”. O mundo nos perguntou o que pensamos a respeito dele e nós temos que lhe dar uma resposta. Que resposta? Não podemos nos calar… no passado, a Igreja jamais teve que enfrentar coisas semelhantes… Na verdade, é preciso que Deus nos ilumine.”

Entrevista concedida ao diário italiano Corrire della Sera, 4 de outubro de 1965, reproduzida em La Documentation Catholique, 62, 1965, p. 1962.

Família, Dom de Deus

Prezados amigos,

Faz tempo que não contribuo com os ilustres companheiros deste blog, mas nesta semana em que a Igreja celebra a “Família” gostaria de reiniciar a abordagem de alguns capítulos da história do século passado. Como já disse em outro momento, até pelo relato do Papa Paulo VI em uma de suas raras entrevistas (no início deste “post”), a Encíclica Humanae Vitae se tornou um grande divisor de águas. Não somente dentro da Igreja, mas no mundo inteiro. Por quê?

Só conseguiremos entender este “Por quê” respondendo algumas perguntas cujas respostas não encontramos na grande mídia. Conseguiremos as respostas apenas no relato e textos dos fervorosos defensores da vida e da família que remando contra a maré são desafiados diariamente à desistência, visto que a monstruosa arquitetura montada pela “cultura da morte” parece se agigantar. Muitas vezes parecemos pequenos, mas com a verdade em mãos, somos como “Davis” diante dos “Golias”, mesmo que muitos nos chamem de malucos conspiradores.

Vou tentar postar algumas destas histórias post a post, mas antes gostaria de elencar mais uma vez os temas profundos tratados na Encíclica Humanae Vitae, que no último dia 25 de julho completou 44 anos, e nesta semana da família deveria ser citada em todas as paróquias do mundo, como o documento que manteve a família no seu status de importância.

Lembro que a atmosfera que girava em torno da Igreja na década de 60 era favorável para que a mesma aprovasse oficialmente o uso dos métodos contraceptivos. De fato, no dia 23 de junho de 1964, pouco antes de se iniciar os debates acerca do matrimônio no Concílio Vaticano II, o Papa Paulo VI dirigiu-se ao Sacro Colégio e tornou público a existência da Comissão Pontifícia criada pelo Papa João XXIII para estudar o assunto da contracepção, formada por teólogos, médicos, padres e bispos do mundo todo. [1]

Começaram, então, a circular por todo o mundo rumores de que a Igreja de fato poderia se posicionar favoravelmente a contracepção. O Papa Paulo VI ampliou inclusive nos anos seguintes esta comissão. Em 28 de junho de 1966, a comissão enviou seu relatório, porém antes do pronunciamento papal vazou a notícia de que apenas quatro, no meio de uma comissão de 69 pessoas, pronunciaram-se em prol do status quo. Tanto que em julho de 1966 uma grande revista americana (Commonweal) divulgava: “A Igreja já mudou sua posição a respeito da contracepção; agora é a vez do magistério reajustar o seu ensinamento, harmonizando-o a esta mudança.” (Social Bias: Media Preparation of the Social Mind for a Change in the Church). [2]

Paulo XVI, promulgador da Encíclica Humanae Vitae

Contradizendo a todos, menos ao Espírito Santo, em 29 de outubro do mesmo ano o Papa anuncia que iria “adiar por algum tempo” a decisão. Eis um “Davi”! Dentro de uma conjuntura favorável à aprovação da contracepção, no meio da “Revolução Sexual”, um homem pequeno, frágil, ergue-se solitário e diz: “Não!”. Este homem, santo homem, nosso Papa, salvou a família, e de fato mostrou-nos a todos que a promessa de Jesus realmente é viva: “Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos” [4]. Sua coragem e santo coração, deram vazão à iluminação divina, para que se fossem respeitadas as fontes da vida, que não fosse diminuída a grandeza do dom do amor! [2]

Eis a prova de quem realmente é a guardiã da Verdade. A Igreja de certo perdeu adeptos, e cresceu o número dos seus inimigos pelo mundo a partir desta encíclica. A líder feminista Francis Kissling, que foi presidente das “Catholics for a Free Choice” de 1982 a 2007, disse que “A perspectiva católica é um bom lugar para começar [a campanha pró-aborto], tanto em termos filosóficos, sociológicos, como teológicos, porque a posição católica é a mais desenvolvida. Assim, se você puder refutar a posição católica, você refutou todas as demais. Nenhum dos outros grupos religiosos realmente tem declarações tão bem definidas sobre a personalidade, quando começa a vida, fetos etc. Assim, se você derrubar a posição católica, você ganha” (Fonte: KISSLING, Francis. Interview by Rebecca Sharpless. Audio recording, September 13–14, 2002. Population and Reproductive Health Oral History Project, Sophia Smith Collection). [5]

O que seria da humanidade se não tivéssemos a Igreja, o Papa e a Encíclica Humanae Vitae! Esta encíclica se alinha em sete pontos fundamentais [2] para a temática da contracepção e família que gostaria de destacar:

1) “O argumento” da lei natural
O ensinamento desta encíclica é uma “doutrina baseada na lei natural, esclarecida e enriquecida pela Revelação divina”. De fato o Papa de forma clara exorta que “Nenhum fiel poderá negar que compete ao magistério da Igreja interpretar igualmente a lei moral natural” (HV 3).

O Papa se utiliza da tradição tomista para enfatizar que os processos biológicos constituem parte integrante da pessoa e não são considerados como simples “leis da natureza”, tanto que nos números 10 e 12 da encíclica podemos ler que as “leis biológicas que fazem parte da pessoa”, são “leis inscritas no próprio ser do homem e da mulher”.

2) O amor conjugal
Fantástico este trecho: “O matrimônio não é, portanto, fruto do acaso, ou produto de forças naturais inconscientes: é uma instituição sapiente do Criador, para realizar na humanidade o seu desígnio de amor. Mediante a doação pessoal recíproca, que lhes é própria e exclusiva, os esposos tendem para a comunhão dos seus seres, em vista de um aperfeiçoamento mútuo pessoal, para colaborarem com Deus na geração e educação de novas vidas.” (HV7)

Sendo assim, segundo o documento o Amor Conjugal é:

– Plenamente Humano: Ao mesmo tempo sensível e espiritual;
– Um Amor Total: Pela qual os esposos compartilham “todas” as coisas;
– Um Amor Fiel e Exclusivo: Até a morte;
– Um Amor Fecundo: Suscitando novas vidas;

3) A Paternidade Responsável
O Papa retoma aí o ensinamento da Gaudium et Spes, para “evitar temporariamente ou mesmo por um tempo indeterminado um novo nascimento” (HV 10), os motivos devem ser “Graves”, devido às condições físicas, econômicas psicológicas e sociais. Porém ressalta que a partenidade responsável “significa conhecimento e respeito” dos processos biológicos e suas funções, ou seja, não podem ser utilizados métodos contraceptivos artificiais.

4) Dois significados indissociáveis: “união” e “procriação”
Pela sua estrutura íntima, o ato conjugal, ao mesmo tempo que une profundamente os esposos, torna-os aptos para a geração de novas vidas, segundo leis inscritas no próprio ser do homem e da mulher. Salvaguardando estes dois aspectos essenciais, unitivo e procriador, o ato conjugal conserva integralmente o sentido de amor mútuo e verdadeiro e a sua ordenação para a altíssima vocação do homem para a paternidade” (HV 12).

5) Poder limitado do ser humano sobre sua sexualidade:
O homem fez progressos admiráveis no domínio e na organização racional das forças da natureza, de tal maneira que tende a tornar extensivo esse domínio ao seu próprio ser global: ao corpo, à vida psíquica, à vida social e até mesmo às leis que regulam a transmissão da vida” (HV 2).

Usufruir do dom do amor conjugal, respeitando as leis do processo generativo, significa reconhecer-se não árbitros das fontes da vida humana, mas tão somente administradores dos desígnios estabelecidos pelo Criador. De fato, assim como o homem não tem um domínio ilimitado sobre o próprio corpo em geral, também o não tem, com particular razão, sobre as suas faculdades geradoras enquanto tais, por motivo da sua ordenação intrínseca para suscitar a vida, da qual Deus é princípio” (HV 13).

6) Condenação da contracepção e aceitação do “controle” natural da natalidade
Em conformidade com estes pontos essenciais da visão humana e cristã do matrimônio, devemos, uma vez mais, declarar que é absolutamente de excluir, como via legítima para a regulação dos nascimentos, a interrupção direta do processo generativo já iniciado, e, sobretudo, o aborto querido diretamente e procurado, mesmo por razões terapêuticas (…), a esterilização direta, quer perpétua quer temporária, tanto do homem como da mulher (…) toda a ação que, ou em previsão do ato conjugal, ou durante a sua realização, ou também durante o desenvolvimento das suas conseqüências naturais, se proponha, como fim ou como meio, tornar impossível a procriação” (HV 14).

Se, portanto, existem motivos sérios para distanciar os nascimentos, que derivem ou das condições físicas ou psicológicas dos cônjuges, ou de circunstâncias exteriores, a Igreja ensina que então é lícito ter em conta os ritmos naturais imanentes às funções geradoras, para usar do matrimônio só nos períodos infecundos e, deste modo, regular a natalidade, sem ofender os princípios morais que acabamos de recordar” (HV 16).

7) Aspecto pastoral
O Papa por último dirige um apelo, aos governantes, aos homens de ciência, aos cônjuges, aos profissionais da saúde, mas dentre os apelos, o que mais me chamou a atenção foi aos padres. Bem, quem sabe algum padre leia este meu post.

Diletos filhos sacerdotes, que por vocação sois os conselheiros e guias espirituais das pessoas e das famílias, dirigimo-nos agora a vós, com confiança. A vossa primeira tarefa – especialmente para os que ensinam a teologia moral – é expor, sem ambigüidades, os ensinamentos da Igreja acerca do matrimônio. Sede, pois, os primeiros a dar exemplo, no exercício do vosso ministério, de leal acatamento, interno e externo, do Magistério da Igreja. Tal atitude obsequiosa, bem o sabeis, é obrigatória não só em virtude das razões aduzidas, mas sobretudo por motivo da luz do Espírito Santo, da qual estão particularmente dotados os Pastores da Igreja, para ilustrarem a verdade” (HV 28).

Ilustrar a verdade, este é o apelo, esta é resposta que devemos dar ao mundo. Feliz Semana da Família a Todos!

Sancte Michael Archangele, defende nos in prælio. Amen.


[1] “… a Comissão de Estudo, que o nosso predecessor, de venerável memória, João XXIII tinha constituído, em março de 1963. Esta Comissão, que incluía também alguns casais de esposos, além de muitos estudiosos das várias matérias pertinentes, tinha por finalidade: primeiro, recolher opiniões sobre os novos problemas respeitantes à vida conjugal e, em particular, à regulação da natalidade; e depois, fornecer os elementos oportunos de informação, para que o Magistério pudesse dar uma resposta adequada à expectativa não só dos fiéis, mas mesmo da opinião pública mundial.” Cf. Enc. Humanae Vitae, 25 de julho de 1968, Paulo VI, n. 6.

[2] Baseado na Bibliografia: A CONTRACEPÇÃO E A IGREJA: BALANÇO E PERPECTIVA. MICHEL SEGUIN. São Paulo: Paulinas, 1997.

[3] Cf. Enc. Humanae Vitae, 25 de julho de 1968, Paulo VI, n. 6.

[4] Cf. Mt 28, 19-20.

[5] Cf. Aborto: discursos filosóficos / Ivanaldo Santos. – João Pessoa: Idéia, 2008.

6 comments for “Que resposta precisamos dar ao mundo nesta Semana da Família?

  1. Joselane Cruz
    26 de agosto de 2012 at 11:04

    Realmente o papa é um exemplo de ser como Davi, seguindo a voz de Deus que nos torna capazes para derrotar o Golias.

  2. Deolinda Pimentel dos Santos
    24 de agosto de 2012 at 03:13

    Hoje o Golias chama-se aborto, situação absurda que querem nos empurrar goela abaixo. As pessoas fogem da paternidade responsável e da estrutura familiar,qual é a alternativa usada? Jogar uma vida fora como quem joga uma casa de uma laranja após ser descascada, uma vida não é isso.

  3. Enilde Camelo Nunes
    21 de agosto de 2012 at 15:43

    Mais uma vez me surpreendo com nossa querida Igreja, tão sábia! Claro que o Espírito Santo não deixaria de suscitar a verdade no coração do Papa Paulo VI e louvado seja Deus por sua coragem!
    Sabemos que toda vocação é gerada no seio de uma família. Por isso não podemos permitir que as famílias sejam esquecidas e desvalorizadas. Devemos, a exemplo de Paulo VI ser os “Davis” dos tempos atuais e lutar contra os “Golias” que querem fazer com que as famílias percam seu valor sagrado. Que a Sagrada Família seja nosso exemplo e nos ajude a vivermos de acordo com a vontade de Deus. Que nos mantenhamos unidos a Santa Mãe Igreja e que tenhamos a certeza de que “as portas do inferno não prevalecerão contra ela”(Mt 16,18).

  4. Fábio Harab
    21 de agosto de 2012 at 09:37

    Ler esse texto nos dias atuais onde muitas vezes vemos que o Sacramento do Matrimonio não mais é tão sagrado como antes, nos leva a pensar nessas questões colocadas. “O matrimônio não é, portanto, fruto do acaso, ou produto de forças naturais inconscientes: é uma instituição sapiente do Criador” esse trecho fala a importância e o quão sagrado é o matrimonio e tudo que o envolve. Hoje vivemos no mundo em que se tornou banal e cotidiano você casar e se separar, eu mesmo tenho uma amiga (não catolica) que já casou 3 vezes. Onde está o lado especial, sagrado do casamento?
    Vemos muito as pessoas contestar a igreja devido a posição com relação aos assuntos que envolve o matrimonio e as relações sexuais, porém durante anos vemos que graça a igreja a instituição da família não se desfez para sempre, há uma “luta” para que a família seje algo de importância única.
    A posição da igreja não fica presa somente as doutrinas, está subinscrita na lei natural do homem, da filosofia, sociologia. Muitos pensadores possuíam o mesmo pensamento para que a família fosse algo único e respeitável, que tenha direitos. Desde de quando e em que sociedade é normal matar um ser humano? Sinceramente acho que nenhuma, todas veem isso como crime, e porque se fala com tanta naturalidade sobre contraconcepção, aborto? Mesmo os filosofos mais antigos e ateus seguiam esse princípio, como matar um ser humano!

  5. Renata Gusson Martins
    15 de agosto de 2012 at 11:58

    Parabéns ao articulista pelo texto! Realmente é um consolo ver que a promessa de Jesus Cristo de que o Espírito Santo nos ensinaria toda a verdade cumpre-se no tempo e na história da Igreja, verdadeiramente. Se a gente pudesse voltar na década de 60 veríamos que Paulo VI, de fato, foi um “Davi” enfrentando o “Golias” da Revolução Sexual e seus desdobramentos. Estamos garantidos pela “Rocha” que é Pedro. Viva o Papa! Parabéns mais uma vez pelo excelente texto!

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