Reflexões – Adoração pelas Famílias – Fevereiro/2014

Adoração das Famílias - Fev.2014 - Paróquia São João Batista - Tenente Jardim - Niterói - RJ

Adoração das Famílias – Fev.2014 – Paróquia São João Batista – Tenente Jardim – Niterói – RJ

A vocação cristã é uma vocação contemplativa.

“Permanecerá limitado a uma elite culta o movimento de conversão da juventude? Aprouverá enfim a Deus enviar aos seus pobres os apóstolos dos últimos tempos, anunciados por Nossa Senhora da Salette e pelo Bem-aventurado Grignion de Montfort, e que separarão para Ele aqueles que tiver escolhido? … Em todo o caso, eis o que a razão e a experiência permitem afirmar: é que as tendências em jogo não chegarão a nada de sólido nem de durável, se não se estiver bem decidido a deixar-se informar pelo espírito eclesiástico, que é o Espírito Santo: Sicut estis azymi. Deus quer-nos inteiramente renovados, e a Igreja é a única que nos pode refazer.

Mas para isso a piedade não basta, é preciso a doutrina. A lâmpada do teu corpo é o teu olho. Se a luz que está em ti se torna trevas, como serão grandes as trevas! Por pouco que a doutrina se altere em nós, começamos logo a nos corromper. Não pertencem os cristão à Verdade, à Segunda Pessoa da Santíssima Trindade? Se desprezam a Inteligência, é a própria face do seu Deus, cuja luz foi neles impressa, que expõem ao escárnio, ao mesmo tempo em que se expões aos mais vis desfalecimentos. Conservar-se livre das mínimas manchas de erro e ter o olhar voltado para Deus, eis a pureza católica. A sua fonte está na inteligência, que discerne a essência e mantem a integridade…

Não há dúvida de que “os simples” não precisam estudar teologia. Mas “uma pobre camponesa”, quando sabe o seu catecismo, sabe precisamente a teologia que está ao seu alcance. É justo que a “elite culta” – guardada as proporções – saiba tanto quanto essa pobre camponesa…

A vocação cristã é uma vocação contemplativa. É pela inteligência que no céu teremos a nossa bem-aventurança: gaudium veritate. E aqui na terra, se o mérito depende da vontade, é ainda a inteligência que orienta a vontade. E sobretudo somos todos desde a regeneração batismal chamados a gozar, ainda nesta vida, da antecipação do fim. Marta, na verdade, acrescenta à vida de oração a vida ativa, mas não está privada da parte de Maria, porquanto essa parte é necessária e a única necessária. Eis por que os Padres do deserto, conforme relata Cassiano, faziam da contemplação o termo normal de toda vida cristã, ao qual tudo o mais, mesmo as virtudes, estava subordinado como meio. Certamente é a caridade que é o princípio e o fim da contemplação. E os santos nos ensinam que na união contemplativa trevas cheias de luz nas quais Deus se faz conhecer pela experiência. Não deixa de ser verdade que a potência intelectiva é a condição e o instrumento da contemplação, e que a doutrina – adquirida pelo estudo ou infusa por graça extraordinária – é o fundamento indispensável do edifício da alma.

E assim é que, do mais iletrado ao mais erudito, os cristãos são, propriamente, uns intelectuais; e que o maior crime dos pseudo-intelectuais do mundo moderno é de ter provocado, em muitos, com o seu delírio, a confusão da inteligência.”

Jacques Maritain, em Cartas à Agathon.

Prezados amigos e amigas, esta carta foi escrita pelo grande filósofo católico francês Jacques Maritain há cerca de um século. No início do século passado, toda uma juventude francesa inicalmente abalada mentalmente pela histeria de uma elite culta cética que reinava soberana nos meios acadêmicos levantou-se e caminhou de volta para os braços da doutrina católica. Jacques foi um desses.

Outro jovem da época, Charles Henrion, que viveu no deserto com o Padre de Foucauld, escreveu que o traço característico dos “adolescente católicos” daquela época era “uma sede da verdade total”, e continua dizendo que eles tinham “necessidade da estabilidade, da profundeza, da inesgotável riqueza da religião…”.

 E pergunto amigos e amigas, os nossos adolescentes católicos, hoje, e ainda, nossos jovens e adultos, continuam tendo a mesma necessidade daqueles de outrora?

Eu arriscaria uma resposta, e não me taxem de um otimista extremista, diria que nossos jovens e nossos adultos, continuam tendo necessidade da estabilidade e da profundeza, entretando como Jacques Maritain alertou acima, nossas mentes estão confusas, o mundo nos tirou a inteligência. Muitas das vezes não somos nós quem pensamos, deixamos usurparem nossas inteligências, deixamos que outros pensem por nós.

Estamos hoje, nesta noite, nesta adoração, diante Da estabilidade, Do absoluto, Daquele que É, que foi e sempre será. E pergunto, estamos diante do Cordeiro Santo de Deus, por vontade própria, um ato de nossa inteligência, infusa pela graça divina, ou por sentimentalismos?

Santo Tomás de Aquino nos diz que: “Crer é o ato da inteligência que presta o seu assentimento à verdade divina, por determinação da vontade, movida pela graça de Deus”.

Retornemos à Santa Igreja por inteiro irmãos, ratifiquemos o discurso de Maritain, nós católicos somos sim “uns intelectuais”. Não racionais ou sentimentalistas, mas intelectuais. Afinal, clamamos ou não, a vinda do Espírito Santo com seus sete dons sobre a Igreja, e dentre estes o dom da inteligência?

Este dom tão esquecido, e certamente por muitos não conhecido, também chamado de dom do entendimento, não nos torna prepotentes, antes, torna-nos ajustadamente humildes. Conduz nossas faculdades cognitivas ao reto caminho, caminho iluminado pela revelação divina.

A palavra inteligência em si, significa “ler dentro”. Não confundamos, como alertado acima por Maritain, que só nos estudiosos se encontra a inteligência. São Boaventura, respondendo a um irmão franciscano exortou que: “Não é a doutrina alcançada nos livros que mede o amor; uma pobre velha ignorante pode amar a Deus mais do que um grande teólogo se estiver unida a Deus.”

O mundo requer que tenhamos certificados para falarmos sobre realidades humanas ou da alma, e muitas vezes nos convencemos disso. A Igreja antes se rende aos sábios, que pelo dom da inteligência penetram as veredas das verdades reveladas por Deus. A Sagrada Tradição católica exorta-nos a sentar-nos no tapete da sala de estar aos pés dos nossos antepassados e escutar suas experiências.

Um antepassado nosso, Santo Anselmo nos diz que: “A fé procura compreender”, e por esta necessidade o CIC nos ensina que “Muito embora a fé esteja acima da razão, nunca pode haver verdadeiro desacordo entre ambas: o mesmo Deus, que revela os mistérios e comunica a fé, também acendeu no espírito humano a luz da razão. E Deus não pode negar-Se a Si próprio, nem a verdade pode jamais contradizer a verdade”.

O sábio Cardeal Jonh Henry Newman citou que “Dez mil dificuldades não fazem uma só dúvida”. De fato a Igreja nos ensina que “Não é contrário nem à liberdade nem à inteligência do homem confiar em Deus e aderir às verdades por Ele reveladas”.

A nossa inteligência deve conduzir nossa vontade a um estilo de vida que nos consolide à Verdade Divina, e para isso, embasada em milênios de experiência, a Igreja nos lembra da importância da “obediência da fé”. “Pela fé, Abraão obedeceu ao chamamento de Deus, e partiu para uma terra que viria a receber como herança: partiu, sem saber para onde ia”. Ou seja, “Pela fé, o homem submete completamente a Deus a inteligência e a vontade”.

Amigos, a fé é um dom, e não podemos possuí-la abdicando-nos da oração. Santa Terezinha nos diz que “a oração é um impulso do coração, é um simples olhar lançado para o céu, é um grito de gratidão e de amor, tanto no meio da tribulação como no meio da alegria”.

Poderiam agora me perguntar, e por que esta reflexão no meio de uma adoração? Responderia citando a carta de São Paulo aos Romanos: “O Espírito vem em auxílio à nossa fraqueza; porque não sabemos o que devemos pedir, nem orar como convém…”. Os santos, pessoas inteligentes e sábias, se humilharam ao Espírito Santo, clamaram dele os dons para que vivessem conforme cristãos, para que orassem como cristãos.

Se não sabemos orar como convém, ouçamos o ensinamento do Santo Magistério que nos fala de três formas de oração: A oração vocal, a meditação, e a contemplação. A Igreja como mãe, nos quer conduzir ao céu. Nela está a palavra de Deus, ela é o sutentáculo da Fé.

Se a Igreja nos ensina que temos que rezar, meditar e contemplar, por que ficamos dias dizendo somente “Senhor, Senhor”? Lembremos do alerta de Jesus: “Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos céus, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus.”

E como saberemos a vontade do Pai que está nos céus? A resposta deveria ser uníssona: através da oração vocal, meditação e contemplação. Se a Igreja nos diz que “A adoração é a primeira atitude do homem que se reconhece criatura diante do seu Criador”, e estamos em adoração, seria conveniente orar de acordo.

Já realizamos a oração vocal e meditação através da Liturgia das Horas, falta-nos agora contemplar. Peçamos a Jesus, no Santíssimo Sacramento do Altar, que sopre sobre nós o Espírito Santo, e nos dê o dom da Inteligência para o contemplarmos.

A contemplação, nos diz a doutrina católica, “é a oração do filho de Deus, do pecador perdoado que consente em acolher o amor com que é amado”, “é uma relação de aliança estabelecida por Deus no fundo do nosso ser”, “é comunhão: nela, a Santíssima Trindade conforma o homem, imagem de Deus, «à sua semelhança»”, “é o tempo forte da oração”, “é o olhar da fé, fixado em Jesus”, “é escuta da Palavra de Deus”, “é silêncio,… ou «linguagem calada do amor»”.

Façamos silêncio amigos, pois a nossa vocação é a contemplação. Contemplemos Jesus no Santíssimo Sacramento do Altar, façamos como São Cura D’Ars: “Eu olho para Ele e Ele olha para mim”.

Sancte Michael Archangele, defende nos in prælio. Amen.

Cláudio Santos

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