50 tons de moreno

A Cromatologia de Fernanda Torres.  Será que, na teoria da articulista da Folha, há políticos com peles mais morenas que outras?

Um dos alvos preferidos de qualquer ditadura são os humoristas. E o motivo é simples: as piadas têm o poder de demolir qualquer boa imagem. Ora, a boa imagem é tudo o que ditadores de qualquer latitude mais prezam, pois não possuem nada mais para oferecer. Foi assim durante a ditadura militar no Brasil, que vigiou alguns humoristas (muito menos do que deveria) e cooptou outros (para defender o regime). Como ultimamente o país tem flertado com mais uma ditadura (muito menos amena que a militar, é bom que se diga), voltamos à perseguição às liberdades (de religião também) e à absorção de humoristas para a manutenção do regime.

Uma dessas humoristas é Regina Casé. Não consegui esconder a surpresa ao descobrir  que um mesmo canal de televisão aceitou veicular, em um domingo à tarde, uma entrevista da humorista com a presidente Dilma em seu programa, para – ato contínuo – exibir comercial de banco estatal estrelado pela própria apresentadora. Não conheço o código de ética da tal emissora, mas deve ser muito parecido com aquele dos deputados e senadores da república, muito lentos em agir. Em um país com uma oposição séria, atenta e organizada, esse fato não passaria despercebido e, em uma empresa igualmente comprometida com sua imagem, a ligação entre a apresentadora e o governo seria investigada. Afinal, o que está em jogo é a credibilidade da emissora, que faz marketing da presidente em um programa dominical de relativa audiência e fatura investimento de banco estatal em seus intervalos comerciais.

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O vídeo da entrevista com a presidente pode ser visto na página da Globo. Aqui está um dos vídeos da CEF.

Outro caso é da humorista Fernanda Torres. Em nome de não sei quais ideais, ela teve a coragem de escrever um artigo para a Folha de São Paulo em defesa de José Dirceu. Sim, ela foi corajosa, pois só a veia cômica pode explicar como alguém se mantém impassível diante de tamanho ridículo. Diz a engraçada: “Se todos têm culpa, ninguém é culpado”. Ela quis vender a empulhação de que a roubalheira no Brasil é compulsória para os políticos e, portanto, Dirceu, que segundo ela tem pele morena, estaria absolvido. Bem, noves fora a implícita absolvição dos crimes dos Quarenta Ladrões e do Ali Babá (ainda não investigado), gostaria mesmo de ver a humorista beijando a mão de Fernando Collor, outro injustiçado pelos tribunais, segundo a teoria da engraçada. Qual tom de moreno tem sua pele? E a pele de Maluf, qual tom de moreno possui? Será que, na teoria da articulista da Folha, há políticos com peles mais morenas que outras? Sim, por que se a humorista defende a inocência compulsória dos políticos, deve fazê-lo também para o passado e concluir, in absoluto, que todos os políticos tem a “pele” da mesma cor. Eis a cromatologia da Fernanda Torres. Antes, sugiro-lhe urgentemente um par de óculos fundo de garrafa!

Esse é o tipo de evento que se torna exemplar: membros da classe artística que se submetem, a si e a sua arte, a interesses estatais. Quem resistirá à tentação e cumprirá o destino de toda arte (inclusive a árdua tarefa da crônica!),  a saber: servir ao homem realizando a análise crítica do que ocorre no país? Será que os bons tempos voltarão?

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