Aborto e o Saneamento Básico

Reprodução

Um argumento utilizado para se votar no PT é desqualificar a importância da morte provocada pelo aborto. Dizem que durante outros governos (eles citam diretamente o PSDB), há tantas ou mais mortes por causa de doenças derivadas da miséria extrema, atropelamentos, etc. Assim, votar nos partidos autodenominados “do povo” ou “de esquerda” compensaria as mortes dos abortados, pelas vidas salvas por causa de ações sociais. O aborto não seria um mal tão grande, perto das vidas salvas pelas ações sociais do partido.

Bem, noves fora a necessidade de se provar que, de fato, houve mais saneamento básico nos 8 anos de Lula do que durante toda a história desse país (o que me parece falso e um tanto difícil), este argumento possui uma premissa que precisa ser meditada com um pouco de cuidado. É fato que a morte de um abortado equivale qualitativamente à morte por dengue, rubéola ou desinteria? Apresento uma reflexão em dois momentos: teológica e antropologicamente.

1. Teologicamente

Para os que têm fé de origem semita (judia, cristã ou muçulmana), a solução deste problema é simples: sim, há uma diferença na morte dos pobres e na morte dos pobres entre os pobres. A Sagrada Escritura afirma, já no Gêneses, que o sangue do justo Abel clama, pedindo justiça contra (o injusto) Caim. O assassinato do inocente é um dos crimes que bradam aos céus, no Antigo Testamento, o que já seria uma indicação importante. Além disso, a Escritura distingue, dentre os diversos tipos de pobreza em Israel, um grupo que era especialmente amado por Deus. O texto bíblico os denomina “pobrezinhos de Javé” ou “anawins”. A eles (órfãos, viúvas e estrangeiros) caberia, de modo próprio, o carinho de Deus. Para os cristãos, porém, o tema é ainda mais grave. Pois é o próprio Senhor quem afirma que, dentre os pecados, há uns imperdoáveis. E dentre os perdoáveis, há um grupo que faria melhor, aquele que o comete, se amarrasse um pedra de mó ao pescoço e se lançasse ao mar (cf. Mt 18, 6). Ora, a abordagem teológica não nivela os tipos de morte, mas diz que umas serão mais bem recompensadas que outras (no caso dos mártires e dos suicidas impenitentes, comparativamente).

Teologicamente se pode concluir que, sim, a morte do inocente, e do inocente mais desvalido, é mais repugnante e exige mais justiça que outras. Inclusive, a literatura universal reflete esse conhecimento humano dedicando um lugar e uma pena especial no inferno para os que mataram os indefesos (A Divina Comédia, Dante). De fato, a Revelação não trata os indivíduos de modo igual. Justiça é tratar os desiguais de modo desigual, o que já está implícito na frase do Evangelho: a quem mais foi dado, mais será cobrado.

Apesar de essa argumentação já ser suficiente para algumas pessoas, essa reflexão pode não ser satisfatória para outras, especialmente aos que não têm fé ou têm uma fé claudicante. Com efeito, algumas pessoas podem argumentar que a Sagrada Escritura e a bimilenar Tradição Apostólica nada dizem a eles. Por isso, importa um outro movimento. Interessa saber se, apenas pela luz natural, é possível dizer se a morte por aborto provocado é igual à morte por doenças causadas pela má versação do dinheiro público.

2. Antropologicamente

Humanamente, parece difícil sustentar que há alguns tipos de ofensas à dignidade humana que são, por natureza, maiores que outras. Numa discussão teórica, sempre haverá dissenso e pode parecer que a questão termina sem solução. No entanto, a prática dos que defendem a igualdade entre as mortes revela algo diferente. Os mesmos que pretendem identificar as mortes de pessoas abortadas e de pessoas não abortadas, fazem diferença entre a morte de um judeu e a morte de um alemão. Estes mesmos costumam dizer que a morte de um árabe é mais grave que a de um soldado americano; diferenciam a morte por câmara de gás e a morte por fuzil americano; que a morte por fuzil colombiano é mais grave que por fuzil venezuelano; que a morte por razões de raça é mais repugnante que a por razões cívicas. Enfim, muitos são os exemplos em que, humanamente, mesmo os que igualam o aborto à tuberculose, distinguem os tipos de violência e de morte, hierarquizando-os segundo critérios de crueldade ou vilania.

Bem, essa reflexão me aponta para um dilema e os defensores do aborto como uma morte igual às outras precisam decidir-se: ou há mortes mais graves que outras, ou não há. Se não há mortes mais graves que as outras, se tanto faz o aborto ou a desinteria, genocídios ou a dengue, eles devem ser coerentes e precisam cessar com a construção de monumentos, com a criação de feriados, com a elaboração de museus para lembrar eventos como a Escravatura, o Holocausto ou ações semelhantes. Afinal, seguindo seu pensamento, o tipo de morte ocorrida contra um comerciante judeu germânico não é mais grave do que o de um miliciano da Baixada. Mas, se como eu, eles acham que há sim mortes abjetas, há sim ações que são naturalmente repugnantes por causa da fraqueza da vítima, é preciso lembrar à humanidade que os judeus não eram menos humanos que os alemães e que, portanto, o modo como eles morreram foi indigno de qualquer humano; que os africanos e os índios não eram menos humanos que os europeus e, portanto, o modo como foram tratados deve ser banido da história futura da humanidade; enfim, que os bebês que ainda não nasceram não são menos humanos que os já nascidos. O que não pode é, quando é útil, dizer que todas as mortes são iguais, sustentando que é igual morrer de aborto ou de sarampo e que, por isso, não se pode julgar o programa do PT em relação ao do PSDB; e quando não é útil, valorizar umas mortes em detrimento de outras, afirmando que o genocídio é mais grave que o uxoricídio, por exemplo. Ou que a morte pela causa é “justificada”, como foi em Cuba e está sendo na Venezuela e na China.
Robson Oliveira

16 comments for “Aborto e o Saneamento Básico

  1. Leandro Lopes
    26 de julho de 2012 at 17:10

    Ótima argumentação sobre a “validade” das mortes.

    Acho engraçado que os que defendem o PT usam os mesmos argumentos que os paulistas usaram para defender o Maluf.
    Infelizmente temos uma campanha eleitoral do vale tudo onde o “Rouba mas faz” se juntou ao “Nunca antes na história desse país”. Assim ficamos com o slogan da campanha dos próximos anos: Nunca antes na história desse país se fez e roubou tanto.

    O que alguns católicos esquecem é que para nós os fins não justificam os meios. Na verdade eu acredito que é pelos meios é que conhecemos os verdadeiros fins. Portanto católico em partido abortista está errado. Se é católico e coerente se manda do partido e vá para um com os mesmos valores que os nossos. Mas aí vai sair da base do governo, vai perder apoio da máquina partidária, aí fica com MEDO de sair do partido ou não tem um verdadeiro caráter católico,… ora, então o desejo de chegar ao poder é maior que a fé? Dai a Deus o que é de Deus, e a Cezar o que é de Cezar.

  2. 26 de julho de 2012 at 13:47

    Saudade da Dona Zilda Arns, que, através da Pastoral da Criança, combateu bravamente a desnutrição, porque entendia que as vidas perdidas pelas crianças mortas antes de completarem 2 anos por desnutrição eram igualmente valorosas àquelas que morrem por aborto.

    • 26 de julho de 2012 at 14:09

      Mas não são, né? Ou você acha que as mortes são todas iguais?

    • 26 de julho de 2012 at 15:04

      O que eu não entendo é como pessoas que estão vendo o processo de matança de crianças no seio materno, trocam seus valores por alguns tostões. Como se o PT fosse a última saída em temas de ética, o que também é falso. Os escândalos são inúmeros:

      1. Mensalão (o maior de todos os tempos!!)
      2. Assassinato de Luís Estevão
      3. Propinoduto
      4. Escândalo dos Correios
      5. Escândalo do IRB
      6. Caso Waldomiro Diniz
      7. Escândalo dos Fundos de Pensão
      8. Operação Satiagraha

      É dinheiro em cueca, em meia, em mala. É filho de presidente com passaporte de diplomata, é esquema no BNDES… e não para mais! Aí eu fico pensando: se eles são todos iguais, se tanto faz Lula ou Maluf, é tudo farinha do mesmo saco, por que então votar neles, que além de roubarem igual ou mais que todos, ainda têm a tarefa institucionalizada na sua fundação, de tornar legal a prática do assassinato de crianças?

      Eu não vejo razões para votar no PT e em nenhum partido de esquerda. Mas como você já disse (não sei se aqui ou em outro post), não há razões. Deve ser só paixão mesmo.

  3. Karina
    23 de setembro de 2010 at 15:22

    Boa tarde a todos!

    Sabe, uma coisa que sempre me assustou nos abortistas é a facilidade com que eles mudam de opinião para dançar conforme a música.

    Certa vez, procurando artigos sobre aborto e má formação, caí no site das Excomungadas pelo Direito de Matar (ou Católicas pelo Direito de Decidir, como elas propositalmente se entitulam).

    O texto que lá encontrei, obviamente, desfiava toda a ladainha de que uma criança com má formação traz mais sofrimentos que benefícios, que o corpo é da mãe (esse argumento é batata na mãe deles), que a mãe é um “caixão ambulante” e outras coisas mais.

    Ao lado do texto, havia foto de uma marcha pela legalização do aborto, onde se via “Maria” carregando um cartaz “gravidez, só desejada”.

    Por curiosidade mórbida, fui até a página principal do site. Ora, ora, qual não foi minha surpresa ao ver um banner de todo o tamanho onde se lia “Deus ama a diversidade”, em defesa dos gays, lésbicas, trans, bi e essas denominações que todos os dias eles inventam. Eu não sabia se ria, ou se chorava, ou se vomitava!

    Que diversidade é essa? Deus ama o homossexual, mas não ama uma criança deficiente? O homossexual pode fazer parada no dia do seu orgulho, mas a criança deficiente não merece ao menos ver a luz do sol?

    Também não entendo a questão do aborto ser “direito da mulher”, enquanto na China e na Índia a grande maioria dos bebês abortados são meninas.

    As feministas lotam os jornais para protestarem contra a morte das muçulmanas, mas não há uma só feminista para protestar contra o aborto ao menos das meninas.

    É por essas e outras que, dizer-se contra o aborto não é argumento suficiente para angariar votos.

    No entanto, por outro lado, dizer-se a favor do aborto já é motivo muito mais que suficiente para deixar de votar numa pessoa. Abortistas tem várias caras. Inclusive, a de que “não são pessoalmente a favor do aborto”.

    Quanto à questão específica do saneamento básico, lembrei-me de uma reportagem que li uns meses atrás. Dezenas de bebês abortados na China apareceram boiando num rio chinês. Os ativistas ecológicos protestaram. Queriam processar o hospital por lançar LIXO HOSPITALAR no rio… Triste mundo moderno.

    • Robson Oliveira
      23 de setembro de 2010 at 15:33

      Excelente texto, Karina!

  4. Valeria Muniz
    23 de setembro de 2010 at 08:40

    Olá Bel

    Gostaria de registrar que você foi muito feliz na sua colocação sobre as ponderações feitas pelo Prof. Robson e a pela Flavinha Gomes. Foi uma demonstração de sabedoria e amor ao próximo.

    Deus te abençoe!

  5. Flavinha Gomes
    22 de setembro de 2010 at 22:31

    Robson, eu te respondo no mail. Abração.

    • Valeria Muniz
      23 de setembro de 2010 at 08:37

      Obrigada Prof. Robson pela matéria a cerca da relevância do tipo de morte. Entendi que precisamos proteger prioritariamente os menos capazes – especialmente as crianças dentro e fora do útero.

      Isso me ajudará a discenir melhor sobre os meus candidatos.

      Como é bom termos este espaço, já que não tenho mais o privilégio de assistir as suas aulas!!!

      Um abraço

      • Robson Oliveira
        23 de setembro de 2010 at 14:44

        Oi Valéria! Saudade demais!

        Olha, o tema delicado, mas não é difícil. Ele só é espinhoso. Mas temos que ter coragem e coerência.

        Abração fraterno, com ave-maria!!!!

  6. Flavinha Gomes
    22 de setembro de 2010 at 22:27

    Prezada Bel e demais

    Vou tentar responder num só comentário, ok, fica mais fácil.

    Primeiro, não ofendi o prof. Robson, Bel. E não retiro o que disse, afinal, toda a discussão aconteceu em torno do fato do candidato Molon pertencer ao PT. Se você acha que isso não é falar do Molon, sorry.

    Também continuo achando que tem muita gente canalha, muito bandido, corrupto, ladrão na política, que merecia, não um blog, mas dezenas deles, só para divulgar as atrocidades que eles cometem, levando à morte inúmeras pessoas, por fome, falta de hospital, falta de saneamento, bala perdida, essas coisas, que, lamento não poder esquecer, e que todos os dias vemos por aqui. São vidas.

    Ao Claudio, sou católica sim, graças a Deus! A minha maior crítica está em um tema tão sério, como a vida, como o aborto, se tornar pauta eleitoreira, em detrimento de outros assuntos, relacionados também à vida, e cuja causa é apenas detonar o governo. E outra coisa: não é porque uma pessoa não concorda com você, que ela não lê os documentos católicos, ok!

    Nunca disse aqui que, ao não votar no PT, o eleitor vota, necessariamente, no Serra. No entanto, ninguém se lembra das medidas “pró aborto” tomadas no governo FHC. Logo (isso é uma conclusiva), o interessante não é discutir isso (o aborto) e sim, derrubar, a qualquer custo o PT. E só!

    Ah, pra terminar, não sou eleitora da Dilma, nem simpatizo com ela. Simpatizo sim com o presidente Lula, o que não me faz votar na candidata dele, principalmente porque no RJ, o PT apoia o Cabral. Sou eleitora sim da Marina Silva e do Fernando Gabeira. Meus deputados? Alessandro Molon e Marcelo Freixo. Senadores? Está difícil.

    Flavinha

  7. Priscila
    22 de setembro de 2010 at 15:25

    Bravo mais uma vez, Doutor!

    O texto é excelente e para mim as explicações só ficam cada vez mais claras…
    É triste que nao seja tão visivel a todos, mas de qualquer forma a argumentação é bem objetiva e fundamentada.

    Posso distribuir esse texto via e-mail?

    • Robson Oliveira
      22 de setembro de 2010 at 15:30

      Claro que pode, Priscila.

      É bom que outras pessoas, com outras perspectivas ouçam nossos argumentos. E até que as critiquem aqui. Isso faz com que nossos argumentos se refinem.

      Abração!

  8. Flavinha Gomes
    22 de setembro de 2010 at 01:00

    “Um argumento utilizado para se votar no PT é desqualificar a importância da morte provocada pelo aborto.”

    Mais uma vez, você me ofende.

    Ah, Robson, desqualificar!!!
    Eu não preciso de argumentos para votar, ninguém precisa.
    E quem não quer ver, nada o fará.

    Honestamente, você é inteligente, tem um blog bacana, muitos visitantes. Se eu fosse você, jamais perderia o meu tempo e a minha lábia para atacar uma pessoa honesta, íntegra e com uma vida pública de respeito, como o Molon, católico, contra o aborto,apenas porque ele está no PT, uma vez que há tantos, tantos, tantos políticos envolvidos com corrupção, tráfico de drogas, milícias, trabalho escravo, trabalho infantil, desvio de verba pública…

    Mas… nada disso dá tanto voto quanto meter o pau no governo do PT.

    Flavia

    • bel
      22 de setembro de 2010 at 09:44

      Prezada Flávia (e demais comentaristas),

      Acredito que o artigo postado anteriormente deixou claro que o autor não efetivou críticas à pessoa do candidato Molon,mas sim ao partido ao qual pertence e por ter feito tal escolha.

      São duas coisas totalmente diferentes.

      Veja o que o autor escreveu:” De fato, eu não tenho nada, absolutamente nada contra o candidato Molon. Pelo contrário, como já disse em um post anterior, de bom grado votaria nele, pois nesses anos de trabalho não se vê envolvimento do candidato com corruptos, suspeita de desvios de verba, etc. Com certeza, ratifico o que disse, seria meu candidato favorito à prefeito, governador, quiçá deputado, não fosse sua submissão, ao meu ver inexplicável, com um partido com as metas do PT.”

      Veja o que você diz ao autor: “Se eu fosse você, jamais perderia o meu tempo e a minha lábia para atacar uma pessoa honesta, íntegra e com uma vida pública de respeito, como o Molon, católico, contra o aborto,apenas porque ele está no PT”

      Acho que o núcleo da discussão está muito claro, não acham?

      Assim, gostaria de sugerir que não fosse mais levantado este assunto, pois este espaço reserva-se a comentários sérios. Este sobre o candidato do PT já foi exaustivamente discutido.

      Ademais, cumpre deixar claro para TODOS que postam mensagens a delicadeza e o cuidado com as palavras. (isso vale para TODOS). A INTERNET é um veículo muito poderoso, deve-se saber fazer bom uso dele.

      Dessa forma, acredito que podemos retomar as discussões sem disparar palavras ofensivas e indelicadas ao próximo. Pautando nosso diálogo unica e exclusivamente na troca de idéias e de conhecimento.

      O espaço, é para aprender e não para ofender.

      Por essa razão, agradeço mais uma vez pela iniciativa de criar um site que é um grande veículo de propagação do amor. Do amor ativo, perseverante, desprendido e solidário. A propósito, a politica não é mesmo Amor?!! (no sentido Aristotélico da palavra?)

      Um forte abraço a todos

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