Aristóteles – Filosofia Prática e Phrónesis

Caso se elaborasse uma reflexão acerca das diversas racionalidades de Aristóteles, distinguir-se-íam claramente, dentre as muitas citadas pelo Estagirita, a filosofia teorética e a filosofia prática, como no texto que se segue: “é justo também denominar a filosofia ciência da verdade. Com efeito, da filosofia teorética é fim a verdade, da prática a obra, visto que os [filósofos] práticos, ainda que investiguem de que modo são as coisas, não estudam a causa por si mesma, mas em relação a alguma outra coisa[1]. As ciências teoréticas e as práticas, embora tenham em comum a verdade como fim de suas pesquisas, ambas se distinguem mutuamente, porquanto à filosofia teorética a verdade é fim em si mesma, ao passo que à filosofia prática a verdade está em relação a outro. Esta distinção seria suficiente para elaborar uma teoria da práxis bastante interessante se o Estagirita não tivesse feito menção a uma outra racionalidade igualmente prática, mas que, no entanto, não se identifica imediatamente com uma reflexão filosófica ou científica stricto senso: a phrónesis.

Prudência

É na célebre distinção das virtudes dianoéticas, no VI livro da Ética à Nicômaco, o lugar próprio onde Aristóteles teoriza acerca da phrónesis. Com efeito, o mero fato de colocar a reflexão sobre a virtude da phrónesis junto a ponderação a respeito da Dianóia é indicador de uma relação interessante entre tais noções, além de bastante eloqüente para uma Filosofia Prática. Todavia, para marcar a distinção entre as duas noções, Aristóteles faz questão de afirmar, sempre no VI livro, que a parte racional da alma (Dianóia) possui duas subdivisões: uma que trata dos objetos cujos “princípios não podem ser diferentemente“, e do qual se pode ter ciência pois são “sempre” ou ao menos “geralmente”, e outra que se ocupa dos objetos cujos “princípios podem ser diferentemente“, e que, portanto, não originam ciência pois tratam de objetos cuja natureza é deliberativa, calculadora, visto que não se calcula muito menos se delibera acerca do que não pode ser diferentemente. Tal distinção gera uma diversidade na parte racional da alma, conformando-a duplamente numa parcela científica (epistemonikón) e noutra calculadora (logistikón). É evidente que a Filosofia Teorética, isto é a  Matemática, a Física e a Metafísica, se encontram na parcela científica da alma racional, pois os objetos de sua pesquisa são sempre ou pelo menos são geralmente. Não obstante, sob esta classificação se encontra também a Filosofia Prática, visto que os objetos dos quais trata a sua reflexão, a saber, o bem do homem, são pelo menos “geralmente”[2]. Pelo mesmo motivo torna-se claro que a phrónesis não pode ser dita científica (e portanto não pode figurar ao lado das ciências teoréticas) pois seus objetos, a saber aqueles cujos princípios podem ser diferentemente, jamais serão matéria digna de ciência. Todavia também é dito aqui que a phrónesis, além de se distinguir da Filosofia Teorética, é em si mesma distinta da Filosofia Prática, não por carecer de ação concreta ou de conhecimentos particulares, mas por seu objeto de reflexão não possuir suficientes aspectos científicos, visto que a Filosofia Prática se ocupa sempre do bem do homem e este não é sempre, mas “geralmente”. A phrónesis, pelo contrário, não se ocupa do que é geralmente mas trata do que é mas poderia deixar de ser. Portanto Aristóteles distingue Filosofia Prática e phrónesis a partir da distinção das partes científica e calculadora da virtude dianoética da alma racional.


[1] ARISTÓTELES, Metafísica, II, 1, 993 b 19-23.

[2] Id., Ética à Nicômaco, I, 3, 1094 b 19-22: “Ao tratar, pois, de tais assuntos, e partindo de tais premissas, devemos contentar-nos em indicar a verdade aproximadamente e em linhas gerais, e ao falar de coisas que são geralmente verdadeiras e com base em premissas da mesma espécie, só poderemos tirar conclusões da mesma natureza“. Grifo nosso.

Fonte: OLIVEIRA, Robson. Phrónesis e Sýnesis: uma aproximação gadameriana Synesis, v. I, p. 29-42, 2003.

Robson Oliveira

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