Bento XVI e a Fé Privada

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Recentemente, apresentei um comentário acerca do modo como alguns políticos brasileiros tratam a prática religiosa e sua vida pública (aqui). Nesta reflexão, critiquei os cristãos (e em particular os políticos, por causa da proximidade das eleições), que são absolutamente dicotômicos e maniqueístas no que diz respeito a sua vida pública e privada, o que não coaduna em nada com a Revelação Divina. Em contrapartida, como exemplo de síntese entre essas duas posturas, apresentei o drama de Thomas More. Neste homem, não havia esquizofrenia entre a piedade da fé e o compromisso político! E eis que, em sua visita à Inglaterra semana passada, Sua Santidade refletiu, dentre outras coisas, justamente sobre More. Reproduzo partes do texto a seguir, com destaques que entendo importantes. Atenção especial para o dever de ter uma religião explícita, não camuflada sob interesses:

Deus, o rei e o julgamento de Thomas More
TRUMAU (Áustria), 22 de setembro de 2010 – É conhecido o ditado de Mark Twain de que a história não se repete, mas às vezes rima. Na sexta-feira passada, em Westminster Hall, Londres, houve uma dessas ocasiões. Neste edifício, em julho de 1535, São Thomas More foi condenado à morte por traição, ao não reconhecer a autoridade suprema do soberano temporal, o rei, sobre a autoridade da Igreja e sobre o Papa.

(…)

Bento XVI era plenamente consciente do significado da ocasião e não teve pudor em recordar aos parlamentares o que estava em jogo no julgamento de Thomas More. Bento XVI assinalou que “o dilema que More teve de enfrentar naqueles difíceis tempos” foi “a perene questão da relação entre o que pertence a César e o que é de Deus”.

O objetivo do discurso do Papa – e um dos significativos de toda sua visita ao Reino Unido – era, por conseguinte, “refletir sobre o espaço adequado da crença religiosa dentro do processo político”.

Bento XVI assinalou que “os questionamentos fundamentais em jogo no julgamento de More continuam se apresentando hoje”, e entre estas questões a mais importante é: “apelando a que autoridade se podem resolver os dilemas morais?”.

Thomas More, e todos os homens e mulheres de seu tempo na Inglaterra, foram obrigados – sob a pena de morte – a responder a esta pergunta: “sobre que base se pode decidir a questão moral do divórcio e do novo casamento? Qual foi o fundamento da opinião de quem tinha o poder político (rei Henrique XVIII), e em que se baseavam os princípios morais perenes, defendidos pela Igreja?

Fundamentos

Muito mudou na Inglaterra desde o ponto de vista político nos 500 anos que se seguiram, mas a questão permanece: há algumas bases éticas da sociedade civil e política que simplesmente não podem ser mudadas por quem exerce o poder, inclusive se o poder é democrático?

A resposta de Bento XVI é, obviamente, sim, porque “se os princípios morais que sustentam o processo democrático não forem determinados por algo mais sólido que o consenso social, a fragilidade do processo [democrático] se faz muito evidente”.

Aqui, sem dúvida, o Santo Padre pensa, entre outras coisas, nas leis antivida aprovadas pelo Parlamento britânico e outras democracias de recentes décadas, ao sabor do “consenso social”, mas contrárias ao bem verdadeiro da sociedade.

Bento XVI não mencionou diretamente o aborto, a eutanásia e a pesquisa com embriões, mas deu outro exemplo do sacrifício dos fundamentos morais da sociedade. Referindo-se à atual crise financeira global, recordou aos parlamentares que isso demonstra à sociedade o que ela pode esperar quando os fundamentos éticos são sacrificados pelo interesse privado e o pragmatismo.

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Após essa afirmação, Bento XVI tratou sobre a réplica óbvia: “onde se pode encontrar o fundamento ético das decisões políticas? Respondeu assinalando que “as normas objetivas que governam a ação correta são acessíveis à razão, prescindindo do conteúdo da revelação”. Contra as afirmações do relativismo, a razão humana pode conhecer o que é verdade e o que é correto. Aqui, obviamente, refere-se a nada menos que à lei natural.

Luz que guia

Portanto, se as normas morais objetivas podem ser conhecidas pela razão humana, inclusive sem revelação, qual é o papel da religião, e especialmente da fé cristã, na sociedade? Não consiste, afirmou Bento XVI, em suprir estas normas morais. Não ainda em oferecer um anteprojeto para estruturar a política e a vida econômica de um país. Mas sim “ajuda a purificar e lançar luz sobre a aplicação da razão para a descoberta de princípios morais objetivos”.

De acordo com isso, é, em muitos casos, um papel “corretivo”, o que significa que ajuda a guiar a razão em sua busca de normas morais e sua concreta aplicação, um guia que se necessita porque o pecado frequentemente dificulta a razão em sua busca da verdade. O Santo Padre advertiu que “sem o corretivo proporcionado pela religião… a razão [também] pode ser presa de distorções, como quando é manipulada pela ideologia, ou aplicada em um modo parcial que não leva em conta a dignidade da pessoa humana”.

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A questão é que a razão necessita da fé, e a fé, da razão: “há um processo em duas direções”. Sendo este o caso, Bento XVI pediu aos seus ouvintes – homens e mulheres com poder político no Reino Unido – fazer o que puderem para assegurar “um diálogo profundo e continuado” entre “o mundo da racionalidade secular e o mundo da fé religiosa”, para “o bem de nossa civilização”.

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O Papa assinalou também que há quem gostaria que a voz da religião fosse silenciada ou ao menos relegada à esfera puramente privada.

No dia seguinte, falando na vigília da beatificação do cardeal John Henry Newman, Bento XVI disse que “Newman descrevia o trabalho de sua vida como uma luta contra a crescente tendência a ver a religião como um assunto puramente privado e subjetivo”.

À luz desta tendência “privatizadora”, o fato de que a visita do Papa tenha sido de Estado tem um significado imenso. Bento XVI, de obra e de palavra, põe o acento na verdade de que as sociedades atuais, incluindo as modernas democracias, não podem atuar sem religião na praça pública.

São Thomas More, depois de tudo, foi um bom servidor do rei, porque foi um melhor servidor de Deus. A comunidade política necessita da influência do cristianismo para alcançar seu objetivo.

(…)


William Newton é professor no Instituto Teológico Internacional em Trumau, Áustria, e membro associado do Instituto Maryvale, em Birmingham, Reino Unido.

O texto completo pode ser ligo em Zenite.org.

3 comments for “Bento XVI e a Fé Privada

  1. herbert burns
    23 de setembro de 2010 at 17:58

    O que se espera dos políticos e governantes é que se submetam as leis naturais, as quais estão acessíveis `a todos os governados. Todos somos capazes de entender o que está certo e o que não está. Na ausencia da Lei Natural, o que é que garantirá a manutenção do poder? quais os critérios que seriam utilizados para se manter no poder? Ficaremos sujeitos a ideologias pessoais e manipulações de quem estiver no poder, já que a moral estará submissa a ordem pública e a força de uma máquina política sem freios morais.
    Ja que nossos políticos não conseguem se orientar por uma revelação divina, que eles se balizam, então, pelas leis naturais.

  2. Leandro Lopes
    23 de setembro de 2010 at 10:42

    Espetacular! Se levarmos em conta várias outras análises feitas por vários meios de comunicação só podemos nos emocionar com essa visita e as palavras do Santo Padre.

    Precisamos levar em conta o meio em que ele estava, e os passos que o Reino Unido já tomou contra a Igreja Católica.

    No fim podemos ver que a imprensa sensacionalista (como só a Inglesa sabe ser) que deu tanto destaque (negativo) à visita do Papa teve que botar a viola no saco. O movimento contra essa visita, que fez tanto alarde nas páginas dos tablóides, na prática foi um fracasso. o Santo Padre foi amável e duro, como deve ser a Verdade.

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