Deísmo – Deus pode se ofender com o pecado?

Aristóteles, na Metafísica, XII, desenvolve o sua famosa tese sobre o Primeiro Motor. A partir da reflexão ontológica do Estagirita, a filosofia clássica colocou-se questões importantes sobre a natureza de Deus: um ser absoluto pode manter qualquer relação com um outro relativo? Na hipótese de um Ser Perfeito existir, Ele pode relacionar-se com um imperfeito? Essas e outras perguntas do gênero formaram o corpo reflexivo de várias escolas, inclusive do Deísmo

Para um filósofo de inspiração deísta, a existência de deus não é um problema. Contudo, o deus que o deísta presta culto é sui generis. Por exemplo, em sua Suprema Majestade e Natureza, o deus deísta não pode sofrer. Afinal, aceitar que esse deus sofra é colocá-lo sob a influência de entes menores, sob a tutela de criaturas infinitamente menos perfeitas que ele. Ora, na lógica deísta isso é um contrassenso. Assim se deus não pode sofrer, pergunta-se, ele pode ser ofendido? O pecado humano pode, em sentido próprio, ser denominado “ofensa” a Deus?

Para Aristóteles, ou para qualquer filósofo naturalista de todos os tempos, Deus não pode sofrer. Afinal, para que Ele, Superior e Altíssimo, pudesse sofrer algum tipo de contrariedade, seria necessário um outro Deus, tão Grande, Forte e Poderoso como Ele. O que é contraditório com a natureza de Deus que, se existir, só pode ser Único. Por essa razão, a partir de uma abordagem meramente filosófica, a sã filosofia precisa proclamar que Deus é impassível: não pode sofrer e, por conseguinte, também não pode ofender-se. Nesse sentido, à luz da filosofia clássica, é razoável dizer que nenhum pecado pode ser ofensa a Deus. Mas não é tão simples assim.

De fato, em uma leitura filosófica, não há motivo para dizer que Deus se sente ofendido com nossos pecados, que se ira com o mal no mundo, ou que se vinga do pecado dos homens. Na leitura filosófica, totalmente racional e coerente, é um absurdo falar que Deus Todo-Poderoso se irrita com nossas faltas e sofre com o pecado dos homens. O pequeno inconveniente é que, seguindo a argumentação do filósofo deísta, é tão imbecil denominar “ofensa” ao pecado do homem quanto falar que Deus é Amor. Se é verdade que para Aristóteles e Platão, ou para Plotino e Leibniz, Deus não pode ser ofendido pelos pecados humanos, pois está muito acima de nós, tem de ser verdade também que Deus Todo-Poderoso, Deus Sabaoth, o Senhor dos Exércitos, não pode amar o homem, criatura ínfima e desprezível relativamente a Deus. Além disso: muito menos poderia chamar-nos de filhos, nem convidar-nos a viver sua vida divina. Assim, a filosofia deísta, quando encarnada em cristãos, torna-se bicéfala: quando interessa, argumenta-se dizendo que Deus não sofre e que, portanto, o pecado do homem jamais caracterizaria propriamente “ofensa” a Deus; de outro lado, o mesmo filósofo deísta “cristão” esquece os princípios de sua filosofia e proclama que “Deus é Amor” e nos chama a Vida Eterna. Afinal, o pecado é ou não é ofensa a Deus?

Diz o Catecismo da Igreja Católica:

1) o pecado é uma falta contra a razão (§1849);

2) mas também é uma ofensa contra Deus (§1850).

Perceba que a Igreja não nega que a primeira nota importante do pecado é que ele é, antes de tudo, um testemunho de irreflexão e imprudência. O pecado é um ato de desobediência contra as leis naturais, estabelecidas pelo Primeiro Motor, causa dos motores segundos. Não submeter-se a tais regras não seria algo incomum? Contudo, ainda que seja possível demonstrar a irrazoabilidade da má ação, há um elemento que transcende o natural. Nas Sagradas Escrituras o pecado sempre foi visto como o contrário da Vontade de Deus (cf. Dt 12,31; 17,1; 18,12; Prov 3.32; 11,12; 12,22; 15,8s.26). Ainda que não se trate de caráter ontológico, é possível sim dizer que o não cumprimento das normas éticas equipara-se à negação ou rejeição do próprio Deus: quem ama a Deus, cumpre os mandamentos.

Então, antes de abandonar a tradicional doutrina cristã, que trata Deus muito mais próximo de nós do que uma ideia ou uma razão impessoal filosófica, voltemos ao pensamento ortodoxo, que recebe a boa notícia de que  Deus assemelha-se a um Paizinho, que não se diminui com nossos pecados, mas que lamenta o afastamento dos filhos amados de sua Santa Vontade, vendo nesse afastar-se uma verdadeira ofensa.

 

Robson Oliveira

3 comments for “Deísmo – Deus pode se ofender com o pecado?

  1. Rodrigo Luís Bispo Souza
    28 de setembro de 2017 at 12:25

    Gostaria de fazer um aparte acerca da questão. O pecado não ser uma ofensa a Deus não faz com que necessariamente ele não possa amar. Em primeiro lugar porque o amor ao qual se fala não é um sentimento, mas um jeito de portar-se diante do homem, sempre com misericórdia. Além disso a diferença é que o pecada é ofensa a Deus no aspecto que o pecado retira a sua glória, mas não que o deixe ofendido, triste, bravo…Reforço que não sendo ofensa nesse sentido não anula o amor de Deus, pois ele sendo Deus pode ele mesmo humilhar-se e se colocar na condição de servo, afinal é isso que São Paulo afirma na carta ao Filipenses: “Ele, sendo Deus, não reteve a sua dignidade, mas se fez homem. E, feito homem, humilhou-se a Si mesmo, assumindo a condição de escravo”. Ou seja, Deus assumiu a condição, ninguém o colocou lá, isto é a prova de amor, pois ele tinha a escolha, por ser Deus, de não fazer desta forma. Isso é que faz a boa nova do Cristianismo, pois não estamos tratando Deus como os deuses gregos ou pagãos.

  2. André Moura de Almeida
    3 de junho de 2013 at 00:23

    Excelente reflexão e explicação. Outro dia desses ouvi de um diácono permanente que o pecado não é uma ofensa a Deus, entretanto, ele não entrou em detalhes, apenas jogou a informação para a plateia que o ouvia e que não entende nada de filosofia.

    • 3 de junho de 2013 at 17:18

      Então, André, o diácono tem razão ao afirmar que – propriamente – Deus não pode ser ofendido, nem ser afetado por qualquer ação humana. Contudo, se ele for coerente com a filosofia que ensina, também não poderá dizer que Deus ama. Afinal, o amor é uma paixão que importa falta, carência. Ora, Deus não pode precisar de nada. E mais: se Deus não pode ser ofendido, também não pode dar aos homens sua vida beatífica. Enfim, o diácono tem um dilema: ou Deus não pode ser ofendido, mas não pode amar os homens; ou ama os homens e, portanto, pode-se falar de algo como ofensa a Deus, ainda que nunca propriamente. Os cristãos católicos ficamos com o magistério ordinário e o Papa Francisco. Deus, que é amor, pode ser ofendido em sua bondade, do mesmo modo que um pai pode ser ofendido pelo seu filho. Ora, o pai não perde nada de sua paternidade se o filho não reconhece sua natureza. Mas não pode ofender-se com a falta de carinho do filho?

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