Dogville (Dogville)

Dogville[1]

(Diretor: Lars von Trier[2])

Reprodução

Sinopse: O que podemos esperar de uma pequena comunidade, sem muitos recursos materiais, quando recebe um presente inesperado: alguém que necessita de mais ajuda que eles mesmos? Eles acolherão esse presente ou não? Essa é a primeira leitura possível de Dogville (2003) – e talvez a mais simples. Essa é, diríamos, uma abordagem mais imediata. A questão que brota do fundo desse interpretação é sobre eticidade: afinal de contas, a dignidade humana é um valor a ser respeitado? Há limites contra os quais qualquer abuso necessite de retaliação rápida e exemplar? Essas são reflexões que surgem até a sexta vez que se assiste a esse filme. A protagonista da estória, Grace (interpretada esplendidamente por Nicole Kidman), recebida como um presente (a gift) pelos moradores do pequeno vilarejo, vai se tornar um problema para os que pretendiam ajudá-la. A possibilidade de ocorrer qualquer prejuízo por causa da desconhecida visitante leva os moradores a exigirem recompensas pela sua hospitalidade. Os moradores de Dogville começam a mostrar as presas.

Reprodução

É a partir deste momento que uma outra leitura do filme começa a aparecer. A protagonista do filme surpreende-nos tantas vezes e tão grandemente, que se começa a pensar que a pretensão do diretor não pode ser apenas apontar para a crise econômica ou política – o filme é ambientado na Grande Depressão americana. A protagonista é tão exigida, e quando exigida, serve tanto, entrega-se tanto à cidade que parece perder sua identidade e dignidade humanas. De outro lado, os cidadãos solicitam tanto dela, que exaurem toda sua paciência e disponibilidade, sugam seu descanso e seus sonhos, tornando-a refém dos desejos e caprichos dos pacatos moradores de Dogville. Como o servo sofredor, Grace perde até sua aparência humana, sendo tratada como um utensílio lucrativo e descartável. É nesse momento que a leitura escatológica do filme ganha força. Vem à memória o momento em que Grace (Graça) chega à cidade, logo no início do filme. Neste momento, Moses (Moisés), o cão violento, o vigia da cidade, mas que foi acorrentado e domesticado pelos cidadãos, late e rejeita a visitante insistentemente quando ela lhe rouba uma parte de seu quinhão. Lars von Trier parece saber que a convivência entre a Graça e a Lei não acontece sem algum tipo de mal-entendido. Com efeito, é necessário esforço para que a Graça, que chegou à cidade como um dom (a gift), ganhe a confiança daqueles que confiam apenas na Lei.

Em um primeiro momento, Dogville reconhece o valor que a visitante possui e fica grata por poder ajudar mulher tão carente de tudo. A Graça é recebida entre todos, mas à medida que os cidadãos convivem com ela, vão descuidando de seu conforto, de seu bem-estar, até o momento em que a vilipendiam. Os pecados capitais vão, paulatinamente, aparecendo e atacando a Graça: ira, luxúria, inveja, orgulho encarnam-se em personagens que vão rejeitando Graça e sua presença. Quando toda entrega da Graça à cidade está consumada, quando não há mais nada a conceder: já deu a força de seus braços, o calor do seu corpo, seu amor ao jovem filósofo (sic!) e até sua alma, depois de dar tudo a todos, sua presença na cidade se torna insustentável. É então que, com genialidade digna dos gregos, o diretor prepara o final como uma tragédia de Sófocles. Na sequência final, a notícia que deveria salvar a cidade, traz o mau agouro. O tempo da Graça acabou: chega o Pai. Ao final de tudo, Moisés permanece na cidade, sendo testemunho da bondade da Graça. Só não se pode tentar domesticá-lo de novo.

Reprodução

Dogville é um filme de Lars von Trier, um dos fundadores do movimento DOGMA 95. Ainda que não siga todas as diretrizes do seu manifesto de 1995, este filme de 2003 mantém alguns elementos para austeridade da obra cinematográfica: nada de cenário, nenhum efeito digital, uso de câmera no ombro, tudo semelhante ao teatro de Brecht. Dogville foi concebido para ser o primeiro ato de uma trilogia, que seria completada por Manderlay e Washington. O terceiro ato ainda não foi produzido, mas Manderlay não cumpriu a expectativa deixada por Dogville. Sem dúvida, a perda de Nicole Kidman como protagonista diminuiu muito o impacto do segundo filme.

“Todos têm pequenos defeitos facilmente perdoáveis”

Narrador

 

Reflexão Filosófica: A personagem principal, Grace, cita o estoicismo como modo de superar os reveses e sofrimentos humanos. Ironicamente, é justamente abandonando a austeridade e controle emocional – marcas desta escola – que a personagem se tornará mais próxima do humano, ainda que suscite paixões desconfortáveis. O tema ético permeia toda narrativa cinematográfica, iniciando com a reflexão sobre a dignidade humana e indo até a necessidade de uma justiça transcendente, que restabeleça o bem na vida humana. Indiretamente, o diretor indica que a severidade e normatismos estoicos não resistem aos problemas graves com os quais a natureza humana precisa lidar.

Houve um tempo em que o Jansenismo era tábua de salvação da França cristã. O cuidado com as normas e a pureza moral sufocava qualquer inspiração da Graça. Tanto assim que o Jansenismo foi combatido pelo Magistério, visto ser um equívoco teológico e filosófico. Dogville não é um libelo contra o moralismo, nem uma apologia a ele. Penso que pretende apenas lembrar que qualquer cidade em qualquer latitude precisa ouvir os sinais de Moisés e receber, entusiasmadamente, a Graça que sempre nos visita.

Sugestão de Leitura: Os temas que me são inspirados no filme tratam dos Novíssimos. Portanto, procurem refletir:

  1. LIGÓRIO, Santo Afonso Maria de Preparação para Morte. São Paulo: Santuário, 1970.
  2. ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. ArtMed: São Paulo, 2009.

[1] Dogville (2003) recebeu 13 prêmios (incluindo a Palma de Ouro em Cannes) além de 19 indicações de prêmio.

[2] Lars von Trier(1956) é um dos fundadores do movimento Dogma 95, junto com Thomas Vinterberg. Dirigiu perto de 2 dezenas de filmes.

Robson Oliveira

3 comments for “Dogville (Dogville)

  1. Daniel Motta
    16 de novembro de 2011 at 16:14

    Robson, engraçado, eu nunca tinha visto o filme com sob essa ótica. Assim que eu assisti esse filme, em 2003 ou 2004, eu gostei muito do filme, mas muito pela ótica antropológica e até mesmo da linguagem cinematografica.

    Me deu vontade de ve-lo novamente e tentar prestar mais atenção sob esses aspectos. Muito interessante seu ponto de vista a respeito do filme.

    Termino concordando com você sobre Manderlay, que embora a substituta de Nicole Kidman, tenha aparecido em alguns filmes de mais sucesso comercial, como Homem-aranha, na epoca do Manderlay, ela deixou mesmo a desejar e, sinceramente, sob a minha visão, à epoca que assisti, ele não me pareceu tão diferente de Dogville, me pareceu um “mais do mesmo” do que uma continuação, mas o vi na epoca de seu lançamento e nunca mais vi. Também fiquei agora com vontade de reve-lo.

    Enfim, é isso! Abraço

  2. Priscila
    30 de setembro de 2011 at 01:01

    Acabamos de assistir ao filme por sugestão do escritor deste post. São 01h da manhã e estamos aqui tentando entender o que esse inigmático filme quis dizer…
    Misericórdia e justiça…Pode nos explicar mais detidamente pessoalmente? rsrs

    • Robson Oliveira
      30 de setembro de 2011 at 14:56

      A ideia é essa mesma: provocar! Vamos conversar sobre a Graça e a Lei, duas asas do homem e da sociedade sadia.

      Abração!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *