Duas dúvidas, uma certeza

Em tempo de aumentativos improváveis e neologismos vexatórios, Cerverozão não seria um título absurdo para a 21ª etapa da Operação Lava Jato. E Acarajezão, da 26a. fase. Como o Mensalão fez cair o petista José Dirceu e o Petrolão, o petista João Vaccari, o Cerverozão já fez sua primeira vítima: o senador Delcídio do Amaral. Assim como o Acarajezão pôs fim ao mito Lula. E o motivo foi realmente vergonhoso. Afinal, não se admite que um senador do Brasil arquitete a fuga de um condenado da investigação Lava Jato, com a contrapartida de não ser pessoalmente citado em um possível acordo de delação premiada, nem que um ex-presidente aja como um mafioso de filme B, como as diversas gravações da PF descobriram. Esses eventos por si já bastarias para lançar suspeitas sobre as casas legislativas e seus atuais ocupantes. O diálogo do senador com o filho do condenado Nestor Cerveró, porém, gravado e levado à justiça, estende até muito além as sombras sobre instituições, órgãos e pessoas. Nesse diálogo, o senador acaba por provocar algumas questões importantes. E o ex-presidente deixou toda a nação envergonhada.

A pergunta mais incômoda sugerida pelos episódios é a seguinte: em que medida e com quais meios, considerando que a proposta do senador Delcídio ao filho de Nestor Cerveró fosse verídica, o senador ou qualquer cidadão brasileiro poderia imaginar que o Supremo Tribunal Federal aceitaria receber pressão, ceder a chantagens, realizar negócios, ficar de joelhos ou seja lá que nome se queira dar a isso, diante de uma demanda política? Delcídio apenas blefava ou há algum modo de articular politicamente até a Corte Suprema do Brasil em favor das pessoas poderosas?  E sobre o ex-presidente, de que modo ele pretende enquadrar a ministra Rosa Weber? Um arrepio amargo toca todo brasileiro que reflete sobre essa questão.

A outra indagação é mais óbvia: como o senador pretendia pagar o Mensalão de Cerveró? O banqueiro da BTG, André Esteves, seria o elo escalado para isso, mas com quais fundos a negociata seria fechada? Afinal, 600 mil por ano não é o que se pode chamar de bagatela. Será que o modo petista de governar, expresso recentemente na Ação Penal 470, se tornou o modus operandi do partido? O BTG Pactual aceitaria o mensalinho do Cerveró por pura filantropia e generosidade? E como o ex-presidente Lula mantém a miríade de advogados que o defendem nos processos que está envolvido? O preço de mercado de um Habeas Corpus no STF é 15 milhões. Como um homem que nem tem onde morar paga essa banda de advogados?

A última pergunta pode ser classificada de retórica, é verdade, mas precisa ser realizada: o senador Delcídio Amaral decidiu, livre e corajosamente, executar as ações, realizar as promessas, dar andamento às conversas pela polícia flagradas, pura e simplesmente por “iniciativa” parlamentar? Não haveria alguém capaz de incentivar e afiançar um Senador da República que suas atitudes não sofreriam reprimendas? Quem está acima do Senado Federal para garantir-lhe apoio e segurança? Ou quem sugeriu a um ex-presidente que ele poderia escapar de investigação federal?

Algo de evidente brota desses questionamentos. Ao menos uma certeza nasce dessas dúvidas. O PT não aprende… nunca. A Ação Penal 470 prendeu o José Dirceu e seus comparsas, o Petrolão revela um rombo nas contas públicas de mais de 10 bilhões de reais, mas apesar disso, eles repetem os mesmos crimes. No Mensalão, que terminou com a prisão de José Dirceu, o PT trocava contratos públicos por doações de campanha – que eram propina passada na lavanderia. Curiosamente, o esquema descrito por Delcídio é muito parecido com a pilhagem ocorrida recentemente no Brasil. A máquina de propina ainda está funcionando, isso é certo! Caso contrário, Cerveró não teria recebido o convite para embolsar um mensalão para chamar de seu. Nem a Odebrecht teria pago propina até novembro de 2015.

E a surpresa vem no final do primeiro ato: ao apagar das luzes, entre em cena a lavanderia. Afinal, como foi que não se pensou nisso! Faltava esse componente da narrativa, o livro-caixa, o responsável por limpar a sujeira, esquentar os livros. Toda máfia tem sua própria lavanderia, não é?

Robson Oliveira

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