Hawking e a novíssima Filosofia da Ciência

Há cerca de uma semana, o cosmólogo Stephen Hawking avançou uma novíssima tese em Filosofia da Ciência em sua obra mais recente, candidata a best-seller. No livro, ele avança a tentativa de uma teoria geral da ciência, que respondesse desde às questões mais abrangentes até às minúcias científicas, o que configura uma novidade que coraria autores como Karl Popper, Thomas Kuhn e John Ziman. Mas o cosmólogo inglês, contrariando até as mais recentes teorias da ciência, propõe uma teoria geral da ciência, que é curiosamente muito bem aceita pela comunidade científica e pela sociedade, se ela incluir a negação do transcendente, em qualquer expressão.

Reproduzimos a reflexão do astrofísico Piero Benvenuti, em tradução livre, que alerta para o aspecto econômico e ideológico da nova obra de Hawking:


O “Buraco Negro” da lógica que exclui Deus da criação – Piero Benvenuti (Astrofísico)

A nova afirmação de Stephen Hawking, “não é necessário invocar a intervenção de Deus para acender o interruptor e  dar início ao Universo”, a quem foi dada grande importância pela imprensa britânica e, em seguida, foi destacada em quase todos os jornais nacionais (italianos), realmente não causa muito espanto. Já estava implícita no seu livro anterior “Uma breve história do tempo” quando escrevia: ” Se pudéssemos descobrir uma teoria completa seria o maior triunfo da razão humana, porque poderíamos entender a mente de Deus”.

Aparentemente, no seu novo livro “O Grande Design” Hawking nos expõe a sua Teoria do Tudo que elimina, na sua opinião, qualquer necessidade de um “deus”: nada de novo no pensamento do físico inglês. Poucos têm reconhecido a maravilha do seu lançamento por aquilo que realmente é:  uma astuta, sulfurosa e imensa ação de marketing, que seguramente colocará o livro entre os best-sellers do momento.

Em poucos dias o Papa Bento XVI vai visitar à Inglaterra: que ocasião melhor para o mais famoso cosmólogo inglês (entre outros coisas, membro da Academia Pontifícia) afirmar o triunfo da razão pura que afasta definitivamente a necessidade de Deus?

Regozija a mídia anglo-saxã, nestes dias particularmente virulenta contra o Papa; alegra-sa a Inglaterra, tradicionalmente anti-papista e; exultam os autores e editores que estão seguros, pelo menos, de um enorme sucesso econômico. Na realidade, a afirmação de Hawking contém dois saltos lógicos, os quais só podem ser compreendidos imaginando sua mente aguda temporariamente obscurecida pela miragem do lucro.

O primeiro salto lógico, incompreensível em um cosmólogo moderno, é a de crer na existência de uma teoria científica do Todo, que de uma teoria abstrata pretende explicar todos os detalhes fenomenológicos do universo e da sua evolução. Aprendemos, há uma década atrás, que o maior componente do universo, a matéria e a energia escura – 95% de tudo o que existe – era desconhecido e, portanto, tivemos que modificar drasticamente o modelo teórico da evolução do Cosmos.

Quem pode assegurar que os novos telescópios e experimentos futuros, por exemplo as observações do telescópio Planck lançado recentemente, não revelará outros componentes ou detalhes importantes da evolução hoje desconhecidos? Como bem destacou Karl Popper, a física teórica é intrinsecamente passível de ser “falsificada” e é através de sucessivas crises ou falsificações que o conhecimento teórico pode avançar.

Pensar em chegar ao topo da ciência com a Teoria do Todo demonstra uma incrível ingenuidade epistemológica. O segundo salto lógico, que demonstra uma notável ignorância acerca da pesquisa teológica, é sustentar o Criador como um simples demiurgo que acende um interruptor.

Este não é, certamente, o conceito que os cristãos têm de Deus e, imaginando durante a visita papal um hipotético encontro entre Bento XVI e Hawking, o Papa poderia oferecer-lhe sua encíclica “Deus Caritas est”: não acredito que o “Grande Design”, de Hawking, forneça uma equação matemática que comprove a existência do amor incondicional e talvez perceba então que o “deus” que ele acredita ter eliminado não existe realmente,  pois não é nem o Logos encarnado, nem qualquer Pessoa da Santíssima Trindade.

Fonte: Il Sussidiario

2 comments for “Hawking e a novíssima Filosofia da Ciência

  1. mthereza
    7 de setembro de 2010 at 19:52

    Penso nele principalmente porque luta sempre, defendendo idéias, sem nunca hesitar, sem nunca esmorecer. E na sua resistência de soldado.
    Priscas eras, quando o li pela primeira vez, já diminuído pela doença, apenas dizia que queria “procurar o graal da ciência”. Palavras de quem conhece bem a astrofísica e seu avesso, dono de um conhecimento rico, aliado a uma grande capacidade de observação do universo.
    Hawking abriu perspectivas científicas para sondar as dimensões ocultas do universo, na tentativa de explicar quem somos e para onde vamos, e estava bem próximo de comprovar a existência de Deus através da física teórica. Muitos o invejavam, e talvez o invejem ainda. Se depender da sua genialidade, Hawking voltará com Uma Breve História do Tempo – Ligeiramente mais Longa, e, com seu escárnio divertido, voltará a sugerir que a ideia da criação divina é compatível com a compreensão científica do Universo.
    Deus seja louvado! E tenha piedade de nós!

    • Robson Oliveira
      7 de setembro de 2010 at 22:17

      Sua admiração é louvável, Thereza. Mas a postura atual de pesquisador do Hawking, não condiz com o seu histórico de perseguidor da verdade. Se ele, de fato, propuser uma nova leitura do universo, que inclua o transcendente, ele terá que desdizer o que acabou de escrever no novo livro.

      Até mais!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *