Lições de Thomas More

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Um pouco de história não faz mal a ninguém…

Em 1535, durante a manhã de Londres, um homem de estado honrado e internacionalmente conhecido, Thomas More, foi decapitado por discordar de posturas políticas do rei da Inglaterra, Henrique VIII. O motivo do assassinato do ex-Primeiro Ministro é conhecido: ele não cedeu às pressões do Rei para submeter todos os cristãos do país ao seu governo, acima do Papa no campo religioso. Essa história, com final trágico e injusto, tem um papel pedagógico ímpar na situação em que o Brasil se encontra nesse período eleitoral de 2010.

Algumas vezes, durante todo o processo que redundou com sua morte por decapitação, Thomas More teve chance de escapar de seu fim anunciado. Bastava assinar um documento que reconhecesse o poder e autoridade real nas questões em que o país estava envolvido, inclusive religiosas, e ele não correria qualquer risco de morte. Para alguns de seu tempo (inclusive clérigos), a prática da religião é íntima e pode caminhar em descompasso com a vida exterior. Para estes, More poderia ter assinado um documento reconhecendo a autoridade do rei se, no seu interior e em consciência, repugnasse o ato externo e reafirmasse sua fidelidade à Igreja de Cristo e ao Papa. Seria muito mais inteligente do que, por teimosia, perder os bens que alcançou, pondo em risco também a sua vida. A objeção de consciência tornaria o ato externo indiferente moralmente. O que esquecem os que assim argumentam é que essa postura de More não foi original. Ela já havia sido antecedida pelos mártires do cristianismo nos primeiros séculos.

Os Padres da Igreja, dos quais somos herdeiros e testemunhas, também tinham o mesmo dilema a resolver: ou oferecer uma oferta a um deus pagão (muitas vezes, a oferta era a simples entrega de duas rolas em um templo qualquer), ou lutar contra as feras no Coliseu. Pois bem, o que contemporaneamente se classifca como “decisão de consciência“, para os Padres da Igreja era considerado um pecado gravíssimo! Os que cediam e davam as oferendas para fugir das feras e da morte, mesmo que espiritualmente discordantes da prática de idolatria, eram tratados pelos cristãos da Igreja como apóstatas, isto é, como pessoas que tinham abandonado a fé, e só retornavam ao convívio dos cristãos com muito esforço. Thomas More sabia que sua assinatura em um papel, mesmo que feita em segredo e solitariamente, como sugerira seu adversário, Thomas Cromwell, não era “só uma assinatura”. Era uma negação do Cristianismo, era o abandono da fé em que acreditava, que embora fosse feita às escondidas, chegaria o dia em que seria anunciada sobre os telhados.

 

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Nesse momento histórico ímpar, os candidatos católicos do Brasil deveriam olhar para nossos pais na fé e lembrar que não se trocam princípios fundamentais do cristianismo por benesses mundanas. Algumas pessoas podem pensar: “mas o que é que tem??? É só uma rolinha?? É só um ramalhete de flores nos pés de Apolo??” Não, não é só uma oferenda. É a negação do Senhorio de Cristo, é o abandono dos princípios cristãos, é a aceitação de normas e práticas em tudo discordantes do Evangelho e da doutrina bimilenar da Igreja Católica.

 

Alguns podem dizer: “que é que tem? É só uma fotinha do lado do Lula e da Dilma…” Não, não é só uma fotinha. É a concessão de que sua vida espiritual não se relaciona com sua vida pública. Ora, isso não é verdade. O que se crê é o que se vive! No momento mesmo em que se negocia sua fé por benefícios eleitoreiros, já se perdeu o Cristo. É preciso ter coragem e deixar de confiar nos bens humanos para realizar, de fato, a mudança que o cristianismo pode fazer no Brasil.

Neste momento difícil da relação entre cristãos e política, gostaria fazer pessoalmente a esses candidatos a pergunta que, diz a hagiografia, São Pedro ouve sair dos lábios de Cristo, quando aquele está fugindo de Roma para não ser martirizado: “Quo Vadis??” Aonde vais, que não haja perseguição aos que Me seguem! Aonde pensas ir, que não alcance a Minha cruz?? Achais que sob a bandeira do PT estareis abrigados?? Aos que se dizem católicos, lembrem-se que seu mandato público é dado por nós para que sejam nossa voz. Se não for assim, não se digam católicos.

Que São Thomas More, padroeiro dos políticos, os ajude a ser fiéis aos mandamentos de Cristo e da Igreja!

12 comments for “Lições de Thomas More

  1. 2 de agosto de 2014 at 08:40

    Mais uma eleição chegando e os mesmos problemas voltando…

  2. roberto quintas
    21 de setembro de 2010 at 19:49

    curioso…quando são pessoas que são decapítadas [ou executadas, muitas vezes das formas mais horríveis e abjetas] pela Igreja [ou em defesa das doutrinas dela], ninguém elogia as lições que eles nos deixaram.

    • Robson Oliveira
      21 de setembro de 2010 at 21:03

      Seja mais específico, Roberto.

      Quem foi executado injustamente pela Igreja? E que lições importantes são essas?

    • Leandro Lopes
      22 de setembro de 2010 at 09:13

      Tenho que discordar.
      – Joana d’Arc deixou uma grande lição para a Igreja.
      – O que foi feito em exesso pela Inquisição Espanhola deixou uma lição para a Igreja.

      Fazendo uma observação. Esses casos foram abusos cometidos quando o braço secular se imiscuia com o braço religioso. Não podemos ser anacrônicos e julgar esses casos como se fossem hoje. Existia uma mentalidade jurídica na época que hoje não podemos avaliar perfeitamente dentro do contexto.

      Podemos até ir mais longe sem contar somente as mortes:
      – A secção protestante deixou uma lição para a Igreja.
      – Os casos de pedofilia deixou uma lição para a Igreja.

      A Igreja aprende sempre. Se assim não fosse não teríamos dobrado o primeiro século.

  3. 21 de setembro de 2010 at 18:34

    Excelente reflexão… gostaria que um certo candidato meditasse nisso e revisse sua postura !!!

  4. Luciana
    20 de setembro de 2010 at 12:03

    Mestre Robson, com certeza aprender, adquirir conhecimento nunca é demais, faz bem a alma e a inteligência. Infelizmente muitos não querem se dar ao trabalho de aprender mais sobre a história da humanidade, e principalmente a história do povo de Deus, antes e depois de Cristo, que fortalece nossa fé. “A quem muito será dado, muito será cobrado.” Viver na ignorância é mais fácil.
    Parabéns pela coragem e por nos ensinar a também ter coragem!
    Se você enviasse esse texto à algum jornal ou até mesmo como carta para tais políticos. No mínimo vai incomodar bastante.
    Abraços.

    • Robson Oliveira
      20 de setembro de 2010 at 12:54

      Já disse, elogio de amiga não vale… rsrsrsrsrs….

      Mas ficaria satisfeito só em que um ou outro candidato refletisse mais sobre suas práticas.

      Abraço fraterno, amiga!

  5. Priscila
    18 de setembro de 2010 at 17:23

    Nossa…como esse pequeno texto foi profundo. Amei esse misto de história com reflexão…rs!
    Digno de coluna de grandes jornais…Isso deveria virar carta aberta..O que acha?!
    “Avançai…”

    Abraços e conte comigo!

  6. Claudio
    17 de setembro de 2010 at 11:23

    Amigo Robson,
    Parabéns!
    Acredito que historicamente, grandes mudanças sociais ocorreram em momentos difícieis. Pois bem, estamos atravessando com certeza um momento difícil… somos ainda um país imaturo politicamente, mas acredito que vozes maduras como a sua incitam à revolução… não a uma revolução armada e violenta, mas uma revolução política, moral e ética… podemos ser um povo imaturo, mas não burro… somos corajosos, e quando preciso sairemos como infantaria da “Verdade”, da Verdade que é Cristo (“Eu sou o caminho, verdade e a vida.” Jo 14,6). Com certeza não há mais volta, os absurdos que estamos ouvindo estão nos ferindo como espinhos e flechas que atingem nossa consciência cristã… e até das não cristãs, pois até eles não suportam mais tanta aberração, falsidade, corrupção, falácia, e cara de pau. Com certeza falta no nosso país heróis de verdade (não os BBB’s, Ronaldinhos, Popozudas etc.), mas outros “Thomas More” que eticamente atraiam as pessoas de bem, e revolucionem nossa nação!

    [Editado a pedido]

    • Robson Oliveira
      17 de setembro de 2010 at 13:52

      Caríssimo amigo!

      O trabalho é grande, mas temos que botar a mão na massa. Espero a ajuda de vocês em breve.

      Abração!

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