Luxúria e Imprudência

Uma das maiores causas de embotamento da razão, isto é, de obscurecimento da capacidade de julgar, é o vício da luxúria. Ora, a tradição moral sustenta que o vício da luxúria nunca se instala sem antes instalar-se o vício da gula. […] Como diz o Aquinate, a estultice nasce quando o “sentido espiritual está embotado e não é mais apto a julgar coisas espirituais”[1]. Santo Tomás sustenta que os sentidos venéreos são os que mais absorvem o homem e, portanto, mais causam este obscurecimento dos sentidos. Entretanto, ele não descuida de outros prazeres, como a gula, que podem ser causa da perda do gosto pelas coisas espirituais, fazendo os indivíduos que são tomados pela tolice voltarem sua atenção para os prazeres do paladar, por exemplo, em detrimento de bens e valores maiores. Aliás, o Doutor Angélico afirma com clareza que a causa da tolice encontra-se no fato de seu paciente estar de tal modo “mergulhado pelos sentidos nas coisas terrestres que se torna inapto a perceber as coisas divinas”[2].

 

[1] AQUINO, Tomás de. STh II-IIae, q. 46, a. 3, co.: “sensus spiritualis hebetatus est, ut non sit aptus ad spiritualia diiuducanda”.

[2] AQUINO, Tomás de. STh II-IIae, q. 46, a. 2, co.: “inquantum immergit homo sensum suum rebus terrenis, ex quo redditur eius sensus ineptus ad percipiendum divina”.

 

Robson Oliveira

2 comments for “Luxúria e Imprudência

  1. Marcelo Gomes
    23 de setembro de 2015 at 07:46

    …Um dos pontos em que inexperiência e prudência se opõe uma à outra é que a primeira, em sua consciência, seu agir e discurso, está em geral relacionada apenas a um tu genérico e indeterminado, portanto, seu comportamento não muda muito conforme a aparência das pessoas com quem ela tem relação, mas deposita a sua confiança na medida, independentemente da figura do tu que esteja à sua frente; ademais, também aplica na mesma medida a sua cautela para ocultar e encobrir as próprias fraquezas e defeitos, sem ponderar se acaso o tu ao qual se esforça violentamente por agradar, forçando a própria natureza, é uma figura fugida das mais estranhas ou um vigia constante e participativo. Já a prudência, ao contrário, considera sempre a pessoa: uma é para ela digna de confiança incondicional, outra não merece nenhum crédito; diante de um observador, ela se coloca em alerta durante anos e refreia a mais tênue manifestação daquilo que tem que ser encoberto, ao passo que diante de outro expressa abertamente a verdadeira natureza, sem em momento algum se avergonhar disso…Quanto mais comum essa prudência é na sociedade humana, tanto mais se nota a sua carência. Mas se, na idade madura, aquela inexperiência nos envolver por completo, então podemos concluir que estamos inclinados a um elevado grau de limitação intelectual ou de genialidade…

    [Pois sim, meu querido, emprega as habilidades que aprendeste…Sê cauteloso, prudente e racional!]

    Homero, Ilíada, XXIII, vs. 313, 343

  2. Amaury Cury
    20 de setembro de 2015 at 12:51

    Gostaria de receber sempre os artigos

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