Matrix e a heresia gnóstica

Fica a dica para o caro crismando sabichão: seja mais humilde. Você não é tão esperto quanto pensa. O cristianismo não tem 2.000 anos de reflexão e doutrina pra um moleque de 16 anos, mascando chiclete e ouvindo Hip Hop, desmascarar sua mentira com uma simples pergunta. Não, você não se funde com Deus depois da morte. Abandone esse mito hollywoodiano de que é possível controlar o tempo e o espaço, como o Neo. Deus não é uma máquina, meu caro! No Céu tem tempo sim, só é diferente do que você está acostumado

 

É bastante comum, mesmo entre os mais bem formados filosófica e teologicamente, um equívoco a respeito da natureza das bem-aventuranças. Falando propriamente, o problema não é tanto a respeito da natureza do Céu, mas da natureza do tempo. Por esse motivo, o tema se reveste de importância filosófica, ainda que sua raiz esteja na compreensão equivocada do Divino. Vamos lá!

Tempo

Só em Hollywood o homem escapa fisicamente aos ditames do tempo cronológico

Por razões pedagógicas, prefiro apresentar o tema como ele costuma aparecer, frequentemente tratando do tema das bem-aventuranças. O crismando “descolado”, ao ouvir da existência de dois juízos após a morte, o Juízo Particular e o Juízo Universal, sorri por dentro, coça a cabeça, levanta a mão deliberadamente titubeante e solta, com a certeza interna de que acabou de pegar uma contradição do cristianismo: “Mas professor, como haverá dois juízos se para Deus não há tempo? Ele já não sabe tudo sobre todos agora? Eu sempre ouvi dizer que no Céu não tem tempo…”. É assim que o tema vem à baila ordinariamente. Normalmente, para entender o dado da fé, confronta-se um pensamento comum em nossos dias, acerca da natureza de Deus.

De fato, o aluno tem alguma razão na provocação: se Deus existe, Ele não pode estar submetido às leis da temporalidade, como a precariedade e a corrupção, por exemplo. Deus deve ser Eterno e não pode padecer as mazelas da temporalidade. A análise do argumento do aluno, porém, demonstra que o equívoco evidente está no nível antropológico. O aluno desatento, sem perceber o que dizia, acabou por fazer os santos se tornarem eternos. Na mente do crismando confuso, ao entrar no Céu os santos escapam à temporalidade humana tal qual como a conhecemos e adentram a eternidade. E como Deus, eles não estão mais submetidos às regras do relógio. Como o personagem de Matrix, Neo, os santos estão além dessas regrinhas tolas de homens normais. E aqui está o erro de modo claro e cristalino: na mente do aluno, os homens mergulham em Deus, quase fundindo sua natureza com a natureza Divina. Como não ver influências gnósticas e orientais nessa percepção da natureza humana? O aluno sabichão pode não saber – e quase sempre não sabe mesmo -, mas sua percepção da antropologia está eivada de erros graves, que afastam sua compreensão do modo como o cristianismo e sã filosofia vêem o homem e aproximando-o do modo como heresias gnósticas e religiões orientais o compreendem. Tentaremos esclarecer alguns desses erros.

Questão

Antes, entenda-se que a temporalidade, tal como a conhecemos, é propriedade cosmológica. Mais: é a marca do material (em linguagem cristã e mais precisa filosoficamente, é signo do criado). Tudo o que é criado possui início e, portanto, encontrará seu fim. Ainda que demorem milhões  e milhões de anos, tudo o que é criado colapsará! Dessa experiência deduz-se que tudo o que tem início e fim traz o selo do temporal. Santo Agostinho dizia que o tempo é a medida entre um antes e um depois. É nesse sentido que se diz que Deus não tem tempo pois nEle não há um antes ou um depois: Ele É.

Logo, pensando na natureza de Deus e aplicando a definição de tempo de Santo Agostinho, não há mudança em Deus, não há um antes e um depois, não há tempo. À luz da doutrina agostiniana, e usando tão somente as luzes da razão humana, não se pode conceber temporalidade em Deus, pois isso comportaria admitir precariedade, mudanças, imperfeições, todas essas noções incompatíveis com a Divindade.

E é assim que o aluno cai na armadilha filosófica: se o homem é temporal por natureza (marcado por um antes e um depois), e se Deus é o atemporal ou Eterno por essência (sem antes e sem depois), quando o homem morre e está diante de Deus ele não pode mais estar submetido às exigências da temporalidade. Daí até a afirmação que o homem “está fora do tempo” é menos do que um pulo. Ocorre, contudo, que o homem não se dissolve na natureza de Deus após a morte, como pensam as doutrinas orientais. O homem continua um indivíduo, com inteligência e vontade, consciência e sentimentos, continua um indivíduo distinto da Divindade. Como resolver essa questão?

Veja, é necessário introduzir um terceiro elemento para resolver o problema. Se só há dois elementos – o Eterno e o Temporal – não há solução possível. Pois ao morrer, o homem ou se fundiria a Deus ou seguiria obedecendo as leis da temporalidade que vigiam antes da morte. Mas há uma terceira via. O homem, diferente do resto do mundo criado, não é finito simplesmente. Ele foi criado no tempo, sim, mas sua alma escapa das garras da morte, o homem é imortal. Então, classificar o homem como temporal (o que tem início e fim) não é tão correto como parece. O homem tem início mas não tem fim, pois sua natureza racional tem funções que ultrapassam os limites do tempo. Ora, ainda que seja assim, o homem não se torna Deus ao morrer, pois o Divino também não possui início. Assim, relativamente ao cosmos visível, a natureza do homem é ímpar pois não é essencialmente divina, nem simplesmente material e criada. A reflexão teológica – em consonância com a sã filosofia – criou um termo que desse conta dessa realidade humana tão difícil de perceber: é a eviternidade, que trata do que foi criado mas é imortal.

Se pensarmos bem, veremos que outros entes fazem parte da eviternidade. Os anjos, por exemplo, na medida em que são criados, não podem ser eternos, pois têm início em algum momento. Entretanto, diferente do que é material, não possuem um fim natural. Desse modo, não se enquadram no conceito de temporalidade cronológica, nem no de eternidade. Eles são, com os homens, entes que estão sob a marca da eviternidade. São doutrinas orientais que difundem a ideia de que, após a morte, cada indivíduo se unirá à luz, à força cósmica, à divindade, ao princípio do universo, e com ele tornar-se-á um. Isso é panteísmo e um erro filosófico crasso: não podem haver dois perfeitos, Deus e você!

Fica a dica para o caro crismando sabichão: seja mais humilde. Você não é tão esperto quanto pensa. O cristianismo não tem 2.000 anos de reflexão e doutrina pra um moleque de 16 anos, mascando chiclete e ouvindo Hip Hop, desmascarar sua mentira com uma simples pergunta. Não, você não se funde com Deus depois da morte. Abandone esse mito hollywoodiano de que é possível controlar o tempo e o espaço, como o Neo. Deus não é uma máquina, meu caro! No Céu tem tempo sim, só é diferente do que você está acostumado.

ESQUEMA

Eterno – Sem Início e Sem Fim – Apenas Deus

Eviterno – Com Início e Sem Fim – Homens e Anjos

Temporal – Com Início e Com fim – A Criação

Manuscrito

2 comments for “Matrix e a heresia gnóstica

  1. Douglas Esteves
    27 de Abril de 2015 at 14:21

    Muito interessante o tema e a explanação.

    Eu na minha adolescência e inicio da juventude, vivi afastado de Deus e era mais afeito a crer como o crismando. Matrix foi um filme que me chamou muito a atenção, mas não tinha conhecimento para ver essa falsa doutrina que apresentou no texto.

    Graças a Deus fui encontrado pela Verdade que é Cristo Jesus. E graças a Igreja em seus sacramentos e doutrina é mais difícil eu cair no papo das falsas doutrinas. Mas sem isso, talvez estivesse propagando essas falsas doutrinas como a coisa mais racional a se conceber, como muitos aí tem propagado.

    De fato, hoje as pessoas em geral não conhecem a Deus no seu íntimo. Alguns pensam em saber muito sobre Deus, buscando-O em todas as doutrinas para ai tirar uma conclusão sobre o Divino. Como se a conclusão mais acertada fosse tirar a média aritmética entre as diversas doutrinas. Ovelhas sem Pastor caindo na mão de mercenários.

    Queria propor uma reflexão a quem se interessar:

    Todo aquele que é da Verdade escuta a voz de Jesus (como lemos em Jo18,37), certo?

    Meu questionamento de cristão é: como fazer que esses jovens que não conhecem a voz de Jesus possam vir a reconhecê-la e serem libertos dessas falsas doutrinas? Em outras palavras, aproveitando a liturgia desse domingo, são ovelhas sem pastor, como se evangeliza essas ovelhas?

    Abraços

    • 27 de Abril de 2015 at 21:54

      Muito obrigado pela participação, Douglas. Vamos pensar nessa sugestão e em breve responderemos.

      Abraço fraterno!!!

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