Michael Sandel: o estatuto do embrião humano

Em seu livro Contra a perfeição, o filósofo americano Michael J. Sandel apresenta razoáveis argumentos para não se submeter ao instrumentalismo que relativiza o dom da vida em nome da pesquisa e do produto na era do consumo e das commodities. Ele diz claramente que a vida é um dom incontestável e que os cientistas deveriam ter mais “reverência” pela vida (cf. SANDEL, Michael J. Contra a perfeição: ética na era da engenharia genética. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013, p. 111). Contudo, no final do livro, o autor quase pede desculpas pelas suas palavras duras contra o mercado e – meio reticente – defende a pesquisa com células-tronco embrionárias: “Neste epílogo, ofereço uma defesa da pesquisa com células-tronco embrionárias” (Idem, p. 112). Enfim, o filósofo se contradisse descaradamente.

Ciência, Biologia

Para justificar sua posição política, o filósofo norte-americano distingue estatuto moral de ontológico, dizendo que a questão principal está em saber se o embrião é sujeito ou não de dignidade (cf. Idem, p. 113). Está claro, porém, que o primeiro a se averiguar não é a condição moral do embrião, mas a sua natureza metafísica. A primeira questão é de nível ontológico-metafísico, donde se seguirão questões ética e morais derivadas, de tal forma que a dignidade ou não do embrião será reconhecida ou negada, nunca debatida. Não se trata de outorgar dignidade humana a uns embriões e não a outros. Trata-se de reconhecer se os embriões, concebidos naturalmente ou não, são em si mesmos humanos. É só isso! Desviar o foco para o campo da ética é jogar areia nos olhos dos que dialogam.

Contra os que defendem a dignidade do embrião, o autor afirma que ninguém compara as sementes de carvalho com o carvalho adulto. Ele diz que seria ridículo defender a dignidade da bolota igualando-a ao da floresta de carvalhos. Mas será? Não é verdade que se todas as bolotas desaparecessem a própria existência dos carvalhos estaria em xeque-mate? E mais: a legislação de diversos países discorda da opinião do autor. Afinal, atacar ovos de tartaruga é atacar não uma tartaruga em potência mas a continuação da espécie inteira. Se é assim, por que pôr em risco a vida de um embrião e agir distintamente de outros entes? A resposta do pesquisador: pela utilidade dessa atitude.

Sandel diz que “fins valorosos” (cf. Idem, p. 118), como a cura de doenças justificam esses meios. Mas será que os fins justificam os meios? Em qual mundo isso aconteceria? No mundo de Josef Mengele, certamente. Mas quem defenderia que, para alcançar um bem, qualquer sacrifício é válido? Houve gente que pensou assim e é perturbador que Michael Sandel não perceba a aproximação com tais teorias. Sandel e Mengele estão mais próximos do que o filósofo americano pensa.

E a bicefalia de Sandel fica clara no parágrafo abaixo:

É importante deixar claro, em primeiro lugar, de qual embrião se extraem as células-tronco. Não é um feto. Não possui formas ou traços humanos reconhecíveis. Não é um embrião implantado crescendo no útero de uma mulher. É, em vez disso, um blastocisto (um grupo de 180 a 200 células) crescendo numa placa de Petri e que mal é visível a olho nu. O blastocisto representa um estágio tão inicial do desenvolvimento embrionário que suas células ainda não se diferenciaram, nem assumiram propriedades de tecidos ou órgãos específicos – rins, músculos, medula etc. É por esse motivo que as células-tronco extraídas do blastocisto carregam em sia promessa de se transformarem, por meio do incentivo correto no laboratório, em qualquer tipo de célula que o pesquisador deseje estudar ou reparar. As controvérsias políticas e morais surgem do fato de que extrair as células-tronco destrói o blastocisto – Idem, p. 121.

Corretamente, o blastocisto pode se tornar qualquer célula… humana! Não é indiferente o blastocisto bovino e o humano. Não! Mesmo nesse estágio inicial da pessoa humana, há já informação genética que diz que esse blastocisto é humano e se tornará célula, órgão, tecido humano e não caprino. Logo, alegar uma indiferença entre homens e outros animais é ridícula e o próprio Sandel reconhece isso: “É inegável que o blastocisto é uma ‘vida humana’, ao menos no sentido óbvio de que está vivo, e não morto, e que é humano, e não, digamos, bovino” (Idem, p. 123). Com esse argumento ele quer dizer que as células do embrião não são pessoa assim como as células da pele não são pessoa. Mas será assim mesmo?

Argumentamos que, sim, o tecido epitelial é humano e vivo, e nenhuma célula epitelial se confunde com a pessoa. Contudo, se retirados todos os tecidos epiteliais de uma pessoa tiraremos a vida dessa mesma pessoa. Assim, é verdade que o conjunto de tecidos epiteliais não é pessoa, mas a pessoa depende da proteção desses tecidos, de tal forma que arrancá-los de um indivíduo é condená-lo à morte. O mesmo acontece com as células-tronco tiradas dos embriões. Não são a pessoa, mas retirá-las do embrião é condenar a pessoa à morte.

Enfim, o texto de Michael Sandel equilibra-se entre a exigência da lógica e da pesquisa científica honesta e o desejo de ser “politicamente correto”, o desejo de não desagradar a opinião pública. Ele vê corretamente a vida como um dom, mas para justificar o uso de embriões em pesquisas ele introduz a classificação entre embriões de primeira classe (zigotos) e os de segunda classe (clonotos) (cf. p. 124). Como não ver aqui a política eugênica e racista do nazismo e dos regimes totalitaristas? O livro de Michael Sandel é, portanto, uma armadilha politicamente correta.

Robson Oliveira

1 comment for “Michael Sandel: o estatuto do embrião humano

  1. Maria Odilia Conceiçao da Silva
    11 de maio de 2014 at 11:59

    Eu era a favor do aborto ha muitos anos atrás ate que tive um sonho.Neste sonho eu viajava num túnel e descia como um tobogã havia muito barulho,como num estádio de futebol.De repente,sofri um tranco,como de elevador e todo barulho cessou.Reparei que via uma luz,a principio difusa,mas a medida que me acomodava ,reparei que a luz estava sobre mim,e ao mesmo tempo que me aquecia,me envolvia e me amava profundamente.Fui inchando de alegria sob aquela luz ate que me dividi.Minha concepção.Descobri que alguém nos escolhe ainda quando somos espermatozoide indo ao encontro do ovulo mais que somos profundamente amados quando nos tornamos ovo e só dá inicio a blástula sob uma luz que gera em nós uma alegria em êxtase.uma felicidade profunda em ter sido escolhido pelo amor.

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