Mitos acerca do Matrimônio – II

É incrível a quantidade de pessoas (e de meninas principalmente) que acredita, no fundo da sua alma, que uma “alma gêmea” a aguarda em algum lugar. 

Seguindo a série “Mitos acerca do Matrimônio“, há um mito bastante curioso e muito comum entre os idealistas de todas as idades: o “Mito da Cara-Metade”, também conhecido por “Mito da Alma Gêmea”. As pessoas que se deixaram enganar por esse mito acreditam ingenuamente que há, em algum lugar, uma outra pessoa que é perfeitamente compatível com elas. Sem qualquer motivo, creem que há uma metade delas perdida no mundo, uma metade que as completa. O lema dessas pessoas é: “a metade da minha felicidade está lá fora”; ou “minha alma gêmea está me esperando”. Por isso, a tarefa do homem no mundo é encontrar essa metade escondida e, se encontrada, fazer de tudo para casar-se com ela. Encontrando-a e casando-se com ela, a felicidade está garantida. Não é necessário pensar muito para ver que isso é um mito, e bem descarado. Mas é incrível a quantidade de pessoas (e de meninas principalmente) que acredita, no fundo da sua alma, que uma “alma gêmea” a aguarda em algum lugar.

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Este mito é perigoso por vários motivos. Um dos maiores problemas é a premissa equivocada de que cada pessoa é incompleta. O mito da metade perdida assegura aos que nele acreditam que, em sua natureza afetiva mais íntima, todo homem precisa de um complemento para que sua felicidade seja completa. Esse princípio é falso, ora bolas! A Antropologia Filosófica ensina, já desde Aristóteles, que todos os homens são unos e não partidos. Isto quer dizer que, em si mesmos, todos possuem as condições necessárias para sermos felizes, sem que seja necessário encontrar algum elemento externo (objeto ou pessoa) que complemente a natureza humana supostamente defeituosa. Se não é conveniente que “o homem esteja só”, isso nada tem a ver com alguma imperfeição individual, mas certamente diz respeito ao Dom de Si, que deve ser toda vida humana. O matrimônio é o lugar onde este Dom surge mais concretamente, inclusive com a geração de filhos. Se o homem encontra no Amor sua perfeita realização não é porque lhe falte algo, mas porquanto o Amor eleva a natureza humana a alturas superiores, alturas inimagináveis apenas por suas próprias forças.

Ora, é verdade que um companheiro justo, honesto, carinhoso, bom, ajuda muitíssimo na caminhada árdua por essa vida cheia de obstáculos. É claro também que uma companheira atenta, educada, laboriosa, gentil colabora na santificação de todos na família. Contudo, é um erro sem tamanho transferir para outra pessoa a responsabilidade pela própria felicidade. E mais: é tremendamente injusto (com o cônjuge!) desejar que outra pessoa, que por sua natureza é falível e limitada, sacie  o desejo de infinito que mora no coração de todo homem. Se alguém pode saciar a sede humana de Verdade, de Bondade, de Beleza, de Totalidade, esse é Deus. Qualquer outro objeto de amor que rivalize com o Amor a Deus torna-se Bezerro de Ouro, pois rouba  o culto que só a Ele se deve.

Deus mesmo inspira, sustenta e guia cada criatura para a felicidade (Familiaris Consortio, 34).

Portanto, esperar encontrar outra pessoa que traga-me a felicidade desejada é transformar o outro em ídolo, esse sim um erro crasso. Afinal, quem conhece a natureza humana um pouquinho sabe que todos os homens temos defeitos (grandes ou pequenos). Todos fomos marcados pelo Pecado Original, o que torna o matrimônio cristão uma longa viagem entre feridos, uma caminhada com feridos. É mais feliz nessa viagem quem compreende a “doença” que toca o outro e ajuda-lhe na cura.

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Outro equívoco comum entre os que acreditam na “Alma Gêmea” é famigerada “compatibilidade”. Tem de ter muita fé – fé irracional, é bom que se diga – para realmente acreditar que há por aí alguma pessoa, educada em outra família, talvez falando outra língua, com costumes e hábitos distintos do seu, com uma psicologia inversa à sua, que seja compatível com exatamente tudo o que você pensa. E se a compatibilidade é “sexual”, aí o problema é maior, pois reduz o relacionamento humano a um elemento, o físico, bastante mutável e com data de validade para acabar: a impotência acabará com o amor do matrimônio.

Pelo contrário, o fato é que não há duas pessoas, nem gêmeas, que sejam 100% compatíveis sobre qualquer assunto. O que se dirá de dois cônjuges? O matrimônio é justamente o exercício humano de adequação, diálogo, tensões (por que não?), em que as pessoas que compõem o matrimônio mudam de opinião, abrem mão de desejos, tudo pelo bem do outro. O matrimônio não é uma estojo de caneta chique, todo acolchoado, em que os elementos se encaixam perfeitamente, sem barulho, sem impacto, sem incômodos. Quem anela se dar em matrimônio precisa saber que o outro terá nas suas mãos parte importante de seu coração e que isso é desejado por Deus. É Deus mesmo quem abençoa os matrimônios, como que solicitando aos cônjuges (se possível fosse) que O auxilie na tarefa de santificação do esposo ou esposa.

O sacramento do matrimónio, que retoma e especifica a graça santificante do baptismo, é a fonte própria e o meio original de santificação para os cônjuges. Em virtude do mistério da morte e ressurreição de Cristo, dentro do qual se insere novamente o matrimónio cristão, o amor conjugal é purificado e santificado: ‘O Senhor dignou-se sanar, aperfeiçoar e elevar este amor com um dom especial de graça e caridade’.

O dom de Jesus Cristo não se esgota na celebração do matrimónio, mas acompanha os cônjuges ao longo de toda a existência. O Concílio Vaticano II recorda-o explicitamente, quando diz que Jesus Cristo ‘permanece com eles, para que, assim como Ele amou a Igreja e se entregou por ela, de igual modo os cônjuges, dando-se um ao outro, se amem com perpétua fidelidade… Por este motivo, os esposos cristãos são fortalecidos e como que consagrados em ordem aos deveres do seu estado por meio de um sacramento especial; cumprindo, graças à energia deste, a própria missão conjugal e familiar, penetrados do espírito de Cristo que impregna toda a sua vida de fé, esperança e caridade, avançam sempre mais na própria perfeição e mútua santificação e cooperam assim juntos para a glória de Deus’ (Familiaris Consortio, 56).

Todo cônjuge é o Agente Especial para causa da Santificação (AES) do outro elemento do matrimônio, agente enviado e abençoado por Deus na celebração matrimonial. Nada de facilidades, nada de simplismos, nada de atalhos.

Esperando a “Alma Gêmea”

As pessoas que se sentem atraídas pelo “Mito da Cara-Metade” têm a mesma matriz psicológica: elas temem. Temem que, dando seu coração, dando o que têm de mais íntimo, sejam traídas. Por isso esperam alguém perfeito, alguém totalmente compatível, com quem não haverá disputas, nem brigas. Alguém assim pode garantir-lhes o sucesso matrimonial. Felizmente essa pessoa não existe. Os que esperam a “Alma Gêmea” precisam aprender com o desenho animado Nemo: nas dificuldades e riscos é quando mais crescemos. Nesta vida há riscos.

Finalmente, quero deixar um questionamento aos que realmente acreditam nesse mito. Os que defendem o “Mito da Cara-Metade” têm alguns problemas para resolver: o que aconteceria àquelas pessoas que não encontraram sua cara-metade, ou por que elas morreram de acidente de trânsito, ou por que simplesmente casaram antes com outra pessoa, ou por que não querem casar-se? A resposta fria deveria ser: Essas pessoas seriam infelizes necessariamente, pois a “outra metade de sua laranja” não estaria disponível para viver “feliz para sempre” nesta vida. Vocês realmente acham que isso é razoável? Se sim, boa sorte na sua “busca”. Para os que sabem que o matrimônio é uma escolha, não o arbítrio de um destino cego, deixo uma meditação: amor, para ser de verdade, deve ser integral. Não pode depender de retribuição ou condições. Tem de ser eterno!

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Robson Oliveira

11 comments for “Mitos acerca do Matrimônio – II

  1. AMARO HELIO COSTA DOS SANTOS
    13 de março de 2013 at 14:19

    O que as vezes finda um casamento é o pensamento de alguns que a outra pessoa é tudo em sua vida (“…sem ela não vivo!”.)> Um casamento erguido a esses moldes, colocando uma carga imensa sobre o outro estará fadado ao fim.

  2. M. Virginia Castro
    22 de julho de 2012 at 21:45

    Prof. dentre os vários textos essefoi muito bom…. inspirador… caloroso como sua maneira de falar, que venha mais!!!!!!

    • 23 de julho de 2012 at 02:39

      Olá, Virginia! Obrigado pelo elogio. Ficaria muito feliz se você comentasse mais vezes. Sua crítica sempre me ajudou.

      Abração!

  3. Maurício Mendes
    16 de julho de 2012 at 17:05

    Se Romeu e Julieta não fossem um conto e também sem suicídio, hein?
    Eles poderiam até estarem juntos, mas o mar de rosas da emoção já tinha se confrontado naturalmente com os problemas do cotidiano: Filhos; Dificuldades; Tensões; Perdas; Intrigas; Doençase; etc. A vida como realmente é!
    E como lutar contra tudo isso?
    Relacionamento é Cumplicidade, Disponibilidade, Respeito, Amadurecimento Constante, Identificação; Doação. Objetivos, desejos e interesses igualados. Exclusão do “EU’. Inclusão do “Nós”: Nossas lutas; nossas conquistas; nossos desafios, nossas batalhas. Esvaziamento de vaidades. Alegria e dificuldade compartilhadas. Tolerância sempre. Amizade. Transparência. Amadurecimento. Clareza. Fé. Razão. Entendimento. Bondade. Iluminação. Amor.

  4. 14 de julho de 2012 at 15:01

    Primeiro, parabéns pela canção, “When I fall in love”, amo!
    Concordo que ninguém seja “incompleto”. Não me sinto uma metade, como mulher, mas uma pessoa, inteira, de defeitos e qualidades como todos.
    O casamento nunca foi minha prioridade, desde a adolescência. Lembro-me de nunca pensar nisso, nunca brincar de “casinha”, nem gostar de bonecas.
    Eu me casei, simplesmente porque aconteceu.
    O mito do “amor que completa” talvez esteja presente no imaginário das meninas devido aos contos de fadas, onde o príncipe é aquele que “salva” a mocinha, de alguma forma, beija-a, casa-se com ela e “são felizes para sempre”.
    Outro fator que contribui para esses sonhos das donzelas é a própria criação. As famílias ainda criam seus filhos, especialmente as moças, para o casamento, para uma família, os filhos e blá, blá, blá. Coisas como “quando você casar”… a gente ouve desde a mais tenra infância.
    Até mesmo os afazeres domésticos nos são ensinados não com o objetivo de um dia precisarmos usá-los, pois estaremos morando sozinhas, ou estaremos num convento, ou numa república estudantil, enfim, precisamos aprender a cozinhar, lavar e passar porque um dia vamos nos casar.
    Parece um destino, um fato. Com isso, espera-se, ao menos, que exista alguém “perfeito” para tal.
    Abraços.

  5. Zaíra
    13 de julho de 2012 at 19:32

    Meu filho faz, hoje, 16 anos de casado e minha filha faria amanhã 29 anos de casamento.

    • 14 de julho de 2012 at 07:30

      Zaíra, que essa data seja mais um motivo para dar louas a Deus, que unirá novamente sua família, quando formos todos diante dEle, Justo Juiz, para recebermos o pagamento por nossas ações.

      Abraço fraterno!

  6. Zaíra
    13 de julho de 2012 at 19:30

    NAT KING COLE: Ai meus tempos!!!!

  7. Luciana Hilario
    12 de julho de 2012 at 21:45

    Robson, suas palavras são muito sábias: realmente somos inteiros, diante de Deus e dos homens! Não existe pessoa que tenha os mesmos gostos e opiniões, para que nunca aconteça uma discordância. Mas uma coisa sempre ouvi e tento colocar em prática no meu casamento: casais maduros não brigam, apenas discordam. Parabéns pelo texto!

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