Ninguém é Charlie… Gard

Há alguns meses atrás, quando um jornaleco francês preconceituoso, violento e teofóbico foi alvejado por terroristas, as redes sociais ficaram coalhadas de sinais de solidariedade. Da noite para o dia, todo mundo era leitor fiel do tabloide socialista francês. Você entrava na rede e percebia que o Google era Charlie. O Yahoo! era Charlie. O Facebook era Charlie. O Twitter era Charlie. Em nome da liberdade de imprensa, todos eram Charlie. Em nome da liberdade de opinião, todos eram Charlie. Em nome da liberdade de não ter religião, todos eram Charlie. Todos defendiam o jornal mesmo sabendo que os jornalistas de Charlie Ebdo não acreditam na liberdade de imprensa, nem na liberdade de opinião, não são tolerantes com o diferente, nem democráticos, nem aceitam opinião diversa a deles no âmbito religioso.

Mas hoje um outro Charlie, Charlie Gard, um bebê de 10 meses, sofre violência ainda mais cruel. O governo britânico vai matar o bebê de uma família, violando o direito pátrio de tutela dos pais sobre seus filhos. Mas qual foi o crime de Charlie Gard? Ele está doente. Uma doença grave, é verdade. Uma doença que pode ser fatal apesar do tratamento. Mas principalmente, uma doença que exige um tratamento caro. E esse é o ponto! O Estado decide quem tem o privilégio de usufruir dos benefícios dos impostos pagos pelos cidadãos britânicos. Quem proibirá o Estado de estender os limites de sua influência até grupos étnicos específicos, ou grupos etários incômodos, ou grupos de doentes caros?

Na França, foram indivíduos, terroristas, que perpetraram o ataque e levaram à morte alguns cidadãos franceses. Hoje, no Reino Unido, é o Estado quem promove a violência contra a família Gard, é o Estado quem decide quem pode e quem não pode viver, é o Estado quem decide matar o indefeso. Nesse caso, o crime é ainda pior, pois reveste-se de política de governo e não da loucura de uma pessoa. O governo britânico sinaliza que existem grupos de pessoas, tipos de cidadãos, pelos quais o Estado vai se esforçar em proteger e um outro grupo com o qual se não perderá tempo nem investimento: o nome disso é eugenia! 

O que se vê no Reino Unido não é apenas um ato de violência cruel e injustificada contra um inocente. O que se assiste estarrecido são as bases teóricas e práticas da eugenia, a doutrina social que decide, por meio de instrumentos pseudo-científicos, políticos e sociais, qual indivíduo merece a honra de ser chamado humano, de ter sua dignidade outorgada pelos poderes públicos e sua vida respeitada pelo governo. O que se vê é o passo seguinte à violência do aborto e da eutanásia.

Por isso, eu sou Charlie Gard! Por que eu não quero ver meus irmãos sofrendo novamente sob ideologias desumanas e violentas, eu sou Charlie Gard. Por que a eugenia só existe em comunhão com o silêncio, eu sou Charlie Gard. Por que a humanidade não pode permitir que esses monstros voltem sempre, eu sou Charlie Gard. Por que eu quero emprestar minha voz àqueles que não podem gritar, eu sou Charlie Gard! 


Robson Oliveira

3 comments for “Ninguém é Charlie… Gard

  1. Eduardo Araújo
    5 de julho de 2017 at 15:44

    Complementando o comentário anterior: tenho lido pessoas se solidarizando .. Não com o Charlie, mas com a decisão da “Justiça” inglesa e europeia, cheia de pseudo humanitarismo, falando que o bebê não merece mais sofrer tanto. Ou seja, o Estado quer impor sua decisão até quanto à dose de sofrimento que uma pessoa “merece” ou não. Totalitarismo da pior espécie!

    Sugiro um artigo específico sobre essa alegação (“acabar com o sofrimento”) cínica.

    No mais, EU SOU CHARLIE GARD!!!

  2. Eduardo Araújo
    5 de julho de 2017 at 15:41

    Ótimo texto!

    Sobre o Charlie Gard, tenho certeza que se fosse uma operação de mudança de sexo, o Estado inglês não apenas sancionaria como até a financiaria. O ponto, pois, é o materialismo visceralmente antirreligioso e desumanizador. E, claro, a velha sedução da eugenia pairando sobre esses povos europeus.

  3. Patrick
    30 de junho de 2017 at 21:21

    Parabéns pelo texto, muito do que sinto. Onde vamos parar? Quem Deus tenha piedade de nós.

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