O Erro de Charlie

Os assassinatos perpetrados por radicais islâmicos no jornal Charlie Hebdo, em Paris, exigem uma reflexão profunda. A gravidade da situação, no entanto, favorece a que se tomem posturas extremas, muitas vezes flertando alegremente com um maniqueísmo simplista. Muitos querem colocar o lamentável assassinato dos jornalistas franceses sob a bandeira da modernidade contra o atraso, da liberdade contra o autoritarismo. Não sei se é fácil assim. Segundo tais interpretações, há dois lados em tudo distintos e cabe a cada um escolher onde quer lutar essa batalha.

Entretanto, permito-me uma reflexão: estamos, de fato, diante de uma luta entre dois lados antagônicos? O que está em jogo é a liberdade de expressão contra o fanatismo religioso? Ou a liberdade de religião contra o laicismo radical? Entendo que essas leituras não estão corretas. Não se trata de liberdade de expressão nem de religião. O que ocorre, no meu entender, é uma crise entre civilizações.

A mentalidade tecnocrata e laicista que domina atualmente o ocidente imagina que todo homem deve pagar o tributo público do laicismo na sociedade. Segundo essa premissa, todos têm liberdade de religião… da porta de sua casa para dentro. No campo público, as pessoas que pensam assim exigem que os crentes abandonem os sinais públicos de sua fé, pautando suas atitudes apenas pelos critérios (laicistas) da sociedade em que vivem. E o argumento utilizado é que a lei (promulgada por aquela maioria ocasional) obriga que seja assim pra todos.

Ora, nem Jürgen Habermas, filósofo declaradamente ateu, defende uma interpretação tão radical para o laicismo. Diz-nos o filósofo:

“A consciência secular também tem de pagar seu tributo para entrar no gozo da liberdade religiosa negativa. Espera-se dela uma exercitação no relacionamento autorreflexivo com os limites do iluminismo. A concepção de tolerância de sociedades pluralistas de constituição liberal não exige apenas dos crentes que entendam, em suas relações com os descrentes e os crentes de outras religiões, que precisam contar sensatamente com a continuidade de um dissenso, pois numa cultura política liberal exige-se a mesma compreensão também dos descrentes no relacionamento com os religiosos” – Fonte.

Ainda de modo mais claro, o filósofo alemão exige uma contrapartida dos cidadãos secularizados nas sociedades modernas: permitir que os membros crentes se expressem e colaborem com o Estado segundo suas próprias crenças e linguagens:

“A neutralidade ideológica do poder do Estado que garante as mesmas liberdades éticas a todos os cidadãos é incompatível com a generalização política de uma visão do mundo secularizada. Em seu papel de cidadãos do Estado, os cidadãos secularizados não podem nem contestar em princípio o potencial de verdade das visões religiosas do mundo, nem negar aos concidadãos religiosos o direito de contribuir para os debates públicos servindo-se de uma linguagem religiosa” – Fonte.

Ora, o laicismo do Charlie, que não respeita a fé de outros concidadãos, é só mais um modo de totalitarismo, visto que defende a liberdade de expressão dos jornalistas violando outros princípios humanos igualmente importantes. Enfrentar o islamismo ou qualquer fé profunda com esses princípios não trará o entendimento e a compreensão desejados. Não é impondo o laicismo em maior escala que Charlie ou qualquer outro agente social modificará a perspectiva do islamismo. De um lado, o Islã desconsidera um aspecto importante da vida humana, a racionalidade. A fé no Corão é superior e ordinariamente antagônico à compreensão racional do mundo e da humanidade. De outro lado, Charlie desconsidera outro aspecto importante da vida humana, a religião. A fé de Charlie considera inferior e contraditório à racionalidade qualquer prática religiosa, tomando como tarefa pessoal expurgar da vida social esses atos desumanos, os atos de piedade religiosa.

Dois modos de ver o mundo: duas civilizações distintas. Retomar a batalha de charges ou de espadas, sem aperceber-se dessa estrutura de pensamento, é dispor-se a mais derramamento de sangue de lado a lado. A posição média, que concede à razão e à fé, é a única saída definitiva para o impasse no qual o mundo se encontra. Sem falsos simplismos, sem promessas mirabolantes.

Para terminar, gostaria de lembrar que a França democrática e defensora da liberdade de expressão sabe muito bem utilizar os meios governamentais para calar um humorista menos alinhado ao “politicamente correto”, como é o caso de Dieudonné M’bala M’bala. Por sua vez o Islã, que clama por liberdade de religião para seus membros na França, trucida com crueldade sem par os cristãos nos países em que são maioria, como se viu recentemente na Nigéria.

Os Charlie não percebem o erro que cometem. Eles acham que estão combatendo o Islã com suas charges mas estão favorecendo seu crescimento e, pior, se movendo a partir do mesmo leitmotiv: a ditadura da maioria. A maioria laicista francesa não tem o direito de ridicularizar até o limite do desrespeito a fé de quem quer que seja; nos países muçulmanos, a maioria islâmica não pode negar a liberdade de religião para outros credos, ao passo que solicita esse benefício para seus membros mundo afora. O erro de Charlie se confunde com o erro do extremo islã: a tentação autocrática.

 

Robson Oliveira

3 comments for “O Erro de Charlie

  1. Orlandilson
    25 de Janeiro de 2015 at 12:21

    A reviste Charlie não combate o islã. É apenas uma pequena revista satírica que zomba de todos com tiragem de 30.000 exemplares e dificuldades para fechar as contas. Cristãos e judeus também já foram satirizados, com charges bem mais ofensivas, só que elas foram sabiamente ignoradas. Os muçulmanos reclamam da islamofobia do Ocidente, mas eles são os principais responsáveis por essa islamofobia.
    No Niger, 45 Igrejas cristãs foram incendiadas; na Arabia Saudita, o blogueiro Raif Badawi foi condenado a 1.000 chibatadas e a 10 anos de prisão por insulto ao islamismo, eis o “insulto” de Badawi em seu blog:

    “O que me dói mais como um cidadão da área que exportou esses terroristas… é a audácia dos muçulmanos em Nova York que atinge os limites da insolência, não levando em conta qualquer das milhares de vítimas que morreram naquele dia fatídico [11 de setembro] ou suas famílias. O que aumenta a minha dor é esta arrogância (islâmica) machista que afirma que o sangue inocente, derramado por mentes bárbaras e brutais sob o slogan ‘Allahu Akbar’, não significa nada em comparação com o ato de construir uma mesquita islâmica cuja missão será a de… desovar novos terroristas… Suponha que nós nos coloquemos no lugar de cidadãos americanos.

    Será que vamos aceitar que um cristão ou judeu nos agrida na nossa própria casa e, em seguida, construa uma igreja ou sinagoga na mesma área do ataque? Eu duvido. Nós rejeitamos a construção de igrejas na Arábia Saudita, sem termos sido agredidos por ninguém. Então, o que você pensaria se aqueles que queriam construir uma igreja fossem as mesmas pessoas que invadiram a santidade da nossa terra? Finalmente, não devemos esconder o fato de que os muçulmanos na Arábia Saudita não só desrespeitam as crenças dos outros, mas também o acusam de infidelidade, na medida em que consideram quem não é muçulmano um infiel, e, dentro de suas próprias definições estreitas, eles consideram muçulmanos não-Hanbali [a escola saudita do Islã] como apóstatas. Como podemos ser esse tipo de gente e construir… relações normais com 6 bilhões de seres humanos, dos quais 4,5 bilhões não acreditam no Islã?”

    Já está na hora de exigir dos países islâmicos o mesmo tratamento que eles exigem de nós no Ocidente.

  2. Elmiro Gomes
    23 de Janeiro de 2015 at 08:44

    Excelente texto, Robson! Parabéns…
    Tenho pensado seriamente que as sociedades humanas nunca estiveram tão dilaceradas como agora. Os meios de comunicação,cada vez mais velozes e abrangentes, em mãos “ditatoriais”, para usar o termo que você usou, torna-se uma arma contra as “minorias crescentes”. Tempo bélicos esses que vivemos. Questiono-me até quando as pessoas deixarão de respeitar as escolhas e as posturas distintas. Até quando as pessoas deixarão de entender que o exercício da liberdade tem também suas exigências morais? Tempos bélicos, talvez os mais belicosos da história, porque contempla a “ditadura da maioria”.
    Mais uma vez, obrigado pela ótima reflexão!
    Um agrande abraço.

  3. Herbert Burns
    21 de Janeiro de 2015 at 16:09

    O pior é que a estratégia beligerante da frança é lastimável desde a idade média quando eles declaravam guerra com local, dia e hora marcada e seus adversários, inferiores, atacavam na véspera. O mesmo com seus duelos e agora com seus ataques midiáticos. Sempre foram exímios guerreiros, esgrimistas e escritores. Mas querer que seus adversários usem da mesma arma, aí… Provocam até o limite, quando no cardápio escolar colocam carne de porco para crianças muçulmanas e judias, que são obrigadas a ingerirem pela política do “come porco ou passe fome” como eles chamam e não admitem que a religião interfira no cardápio escolar: o Estado é laico, como eles afirmam. Mas a laicidade é permitir o convívio se não fraterno ao menos social das diferentes formas de religião e o que esta tal “laicidade” francês aparenta, por sinal sui generis, é uma verdadeira “religião” ateísta ortodoxa, com dogmas de combate à tudo que se aproxime de religião. Há uma necessidade extrema de negar tudo e todos que lembrem religião seja ela qual for. Há uma guerra fomentada pelo estado ( Le Pen), contra toda forma de religião.

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