O Reverso da Lista de Schindler

Tudo começou com dossiês falsos. Naqueles dias estranhos, pensávamos que o recado era para os maus políticos, mas agora sabemos, era um aviso para os políticos honestos: “se ousarem se levantar contra nós, difamaremos vocês!”. Apesar desse sinal, não percebemos a grandeza da ameaça. Depois surgiu uma prática inédita no Brasil, mesmo para quem viveu o período de chumbo da política brasileira: o assassinato de reputações. Por causa da enormidade de recursos à disposição e da capilaridade da máquina pública, o homem médio nada pode contra o poder do estado e, por isso mesmo, essa é uma atitude funesta justamente para o homem comum. O delegado de polícia e ex-aliado do governo Tuma Jr. deixou-nos testemunho ainda subestimado e pouco investigado, mas que já entrou para história dos desmandos produzidos nesses anos.

Recentemente pretenderam pôr de joelhos o judiciário, em franca atitude anti-republicana. Mas como já havíamos aprendido com o passado, ficou claro o recado. Na verdade, não se pretendia dissuadir o ministro Joaquim Barbosa de suas posições, o verdadeiro objetivo era enviar um recado claro e inequívoco aos juízes que estivessem em dúvida. Os que não se deixassem dominar pela agenda do partido da situação teriam dores de cabeça. Alguns magistrados já mediram bem a febre que toma nossas instituições, outros ainda mantêm esperanças idealistas e pouco razoáveis. Mas o pior foi reservado para esses dias conturbados.

Recentemente aconteceu o inimaginável numa democracia. Algo de semelhante foi produzido apenas no período mais negro da história do país, quando o Brasil sofria sob a ditadura. Utilizando como porta-voz o vice-presidente do partido, Alberto Cantalice, eles produziram uma lista negra de jornalistas. Como aprendemos com suas práticas, o objetivo é – mais que converter os meios de comunicação já resistentes – chantagear os ainda dóceis e obedientes com um aviso inconfundível: “ou se comportam, ou vocês também vão parar aqui”. Na prática isso significa nada de anúncios do governo, nada de práticas ordinárias do fisco, nada de ordenamento jurídico. Aos amigos, tudo; aos inimigos, os rigores (e as exceções) da lei.

Há muito eles têm flertado com o controle político da imprensa. Alguns jornalistas acham que isso é normal e necessário para livrar o Brasil do inimigo, o capitalismo. O que alguns não perceberam ainda é que o inimigo é outro, não é o capitalismo. Eles perseguirão, chantagearão, censurarão todos que ousarem se levantar contra seu plano de poder. Ou se desmascara esse projeto, que tem nessa lista apenas um dos seus perfis mais sombrios, ou mais cedo ou mais tarde a lista chegará até os que hoje defendem o partido. Ou até seus amigos menos subservientes. Não demora e haverá listas de professores, haverá listas de jogadores de futebol, haverá listas de empresários, haverá listas de televisões, haverá – e efetivamente já há – listas de revistas e jornais. Ao contrário da ficção, a lista de jornalistas do PT é o reverso da lista de Schindler, pois não é uma lista que aponta para um futuro de liberdade, mas para um futuro déspota e autocrata.

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