Os vícios de Giotto – I

A cultura ocidental deve muito dos seus valores e desenvolvimento às reflexões e ao trabalho do cristianimo. Desde a criação das universidades, passando por inovações na arquitetura e, principalmente, na reflexão sobre o que é próprio da humanidade, o ocidente teve avanços significativos graças ao engenho e trabalho de autores cristãos. Um dos momentos ímpares é a Pintura Renascentista. E um dos nomes que fundaram esta escola é Giotto di Bondone.
Giotto (1266—1337) foi decisivo na elaboração dos princípios formadores da Pintura Renascentista: perspectiva, profundidade, óleo, foram algumas inovações técnicas importantes; temas naturais, espaço cênico e antropocentrismo introduziram conteúdos formais desconhecidos para a pintura bizantina ou céltica. Espetacular é o afresco sobre as virtudes e os vícios, elaborado pelo pintor na Capela Arena, em Pádua. Ele projetou as virtudes em contraposição aos vícios. As virtudes são: Prudência, Coragem, Temperança, Justiça, Fé, Caridade e Esperança. E os vícios: Imprudência, Loucura, Ira, Injustiça, Infidelidade, Inveja e Desespero. Causa estranheza a lista de virtudes, pois o pintor anexa as virtudes teologais (aquelas que são dom imerecido de Deus) às virtudes humanas (as quais só se conseguem com esforço e repetição). A lista de vícios não é menos problemática, mas a contemplação destas obras agrada e educa-nos sobre a natureza humana. O primeiro afresco que vamos analisar é o da inveja.

Reprodução

A inveja (em latim, invidia) foi representada por Giotto como uma velha, encurvada pelo peso da vida. Da boca dessa pessoa, explicitamente amarga, sai uma serpente que, ao invés de atacar os outros, investe contra a própria velha, cegando-a com seu veneno. Com força, a personagem aperta contra si uma sacola, com algum bem pessoal, que parece desconsiderado em vista do bem do outro. A velha tem uma orelha desmesuradamente grande que, atenta aos burburinhos, fica tão preocupada com os outros, que nem percebe que está sobre uma fogueira. Isso é a inveja: uma cobra que mora em nós e que envenena nossos olhos em relação aos outros e faz-nos esquecer da situação que estamos ou podemos ficar.
Segundo a tradição filosófica, a inveja é um tipo de tristeza: a tristeza que se abate sobre alguém pelo bem que um outro possui. Nesta representação de Giotto, esse aspecto da inveja fica claro no modo como a figura segura seu bem mais precioso: a bolsa. Segura com força, mas parece preocupar-se com outras coisas, como se se lamentasse pelo bem que aos outros acontece. Etimologicamente, “invidia” significa não ver. Não ver o bem ou, envenenada pelo mal que sai de si mesma, transformar esse bem em mal a seus olhos.
Fontes:
Stubblebine, James H. Giotto: The Arena Chapel Frescoes.
Robson Oliveira

4 comments for “Os vícios de Giotto – I

  1. Zaíra Vargas
    6 de novembro de 2010 at 19:55

    Boa Noite
    Parei um pouco de ver seu blog porque o senhor estava muito envolvido com as eleições. Como não entendo de política e minha arma nunca acertou um alvo bom, começando aos 20 anos votando em Jânio Quadros,não quis conversa. Aliás não quis nem votar, já que este é um direito que me assiste. Rogo a Deus que a presidente eleita faça um bom governo.
    Peço desculpas por hoje de manhã. Tive uma fraqueza e a tristeza tomou conta quando o senhor falou sobre providência e exemplificou falando do anjinho Guilherme. Lá fora constatei um dos remédios contra a tristeza – amigos, quando senti sua mão amiga consolando-me.Preciso saber se esse remédio também causa dependência.
    Sábado que vem mostrarei a minha força. Tudo posso Naquele que me fortalece.Acho que as vezes Jesus se cansa de tanto me carregar no colo.
    Bom domingo para o senhor e sua família
    Zaíra

    • Robson Oliveira
      8 de novembro de 2010 at 10:06

      Obrigado pela participação, Zaíra. E vamos rogar mesmo pela “presidenta”.

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