Os vícios de Giotto – IV

Giotto descreve a inconstância como alguém que está sobre uma roda, equilibrando-se com dificuldade para não cair. Para piorar esta situação de insegurança e instabilidade, aquele que é vítima da inconstância está sempre incomodado com problemas, sente-se sempre em dificuldades extremas, reclama ordinariamente de questões aparentemente difíceis, que tiram sua atenção. São ventos que fazem com que o equilíbrio da personagem fique comprometido e são representados no afresco pelo esvoaçar de sua vestimenta. Aparentemente, o inconstante não se incomoda com o que lhe ocorre. Um pouco mais de cuidado faz ver, porém, que o personagem está assustado, como sem saber como sair da situação na qual se encontra.

Como ensina a tradicional reflexão sobre o vício da inconstância, sua falta afeta todas as virtudes. Santo Tomás de Aquino (Suma Teológica I-II, q. 123, a.12) nos ensina que a falta de constância interfere na execução de todas as outras virtudes, desde as mais racionais, como são a prudência, até as mais ligadas ao bem de fácil alcance, como é o caso da temperança. Apesar de parecer bastante inocente, este vício pode interferir muito profundamente na vida de todo homem, até em potências muito nobres, como é o caso da prudência.

Por este motivo, as vítimas da inconstância vivem suas vidas como se estivessem em um plano inclinado. Sem a estabilidade e segurança necessárias, todas os aspectos de suas vidas patinam, não avançam: a luta contra a gula e a luxúria não prospera; a justiça igualmente sucumbe às dificuldades do cotidiano; o homem prudente claudica em suas decisões por causa da inconstância. Por isso, Giotto representa o personagem encastelado sobre uma roda, que passeia instável sobre um plano inclinado. O inconstante tem problemas que vão desde a falta de frequência na oração até a ausência a compromissos importantes. O Aquinate sustenta que a inconstância, quando instalada, atenta contra todas as virtudes visto ser a estabilidade característica comum a todas elas. Deste modo, a instabilidade mina igualmente a eficácia de todas.

Como ocorre ordinariamente, da simplicidade e singeleza brotam experiências ricas de espiritualidade e frescor de santidade. Esse afresco tão simples ensina muito sobre a natureza humana. Giotto era genial, realmente.


Fontes:
Stubblebine, James H. Giotto: The Arena Chapel Frescoes.
TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. São Paulo: Loyola, 2002.

8 comments for “Os vícios de Giotto – IV

  1. Adriana
    23 de fevereiro de 2012 at 15:58

    Gostei muito desse site!

  2. Maurício
    25 de agosto de 2010 at 12:49

    Excelente reflexão. Acho interessante poder avaliar em diversos ângulos, seja no âmbito religioso, social ou familiar, as fragilidades que em tempo podemos apresentar. Em forma resumida o texto me levou a analisar de forma estruturada muitas condições que podem envolver o ser humano numa cilada de pensamentos e ações.
    Obrigado Robson por oferecer sempre grandes oportunidades para refletirmos e aprender.
    Um Abraço do seu ex-aluno Maurício e cuide muito bem da minha mãe Laci que esse ano ela se forma.
    Saudações Tricolores…

    • Robson Oliveira
      25 de agosto de 2010 at 15:09

      Estou cuidando dela, sim, Maurício. Dona Laci é espetacular!!!

      E quem sabe a gente se vê mais vezes??? Queria muito que você continuasse o curso.

      Abração e comente mais.

  3. Zaíra Vargas
    23 de agosto de 2010 at 19:48

    Obrigada, professor, desculpe a amolação. A Paz de Cristo!

  4. Zaíra Vargas
    22 de agosto de 2010 at 13:51

    Obrigada, isso eu entendi. Falo do vício de fumar, por exemplo. Não é o meu caso.
    É pecado? Bom domingo.

    • Robson Oliveira
      22 de agosto de 2010 at 14:23

      Pode ser. Depende de algumas circunstâncias. Para o diabético, o açúcar pode ser mortal, sendo assim um pecado mortal, pois colocaria sua vida em risco. Neste mesmo raciocínio, para alguém que tem problemas respiratórios, o fumo pode sim, ser pecado mortal. Aprofundaremos mais esses temas em breve.

      Abração!

  5. Zaíra Vargas
    21 de agosto de 2010 at 14:25

    O vício é pecado? Não está na lista dos capitais. Está em outra lista? Giotto fala na temperança, na prudência que são virtudes que ajudam a eliminar alguns pecados capitais.
    Bom fim de semana! Abraço na Márcia.

    • Robson Oliveira
      21 de agosto de 2010 at 22:46

      Oi Zaíra. Os vícios, por natureza, são disposições habituais para a realização de atos contrários ao bem humano. Por isso, todos os vícios são ou pecados em si mesmos ou pecados que geram outros pecados. Esses últimos são chamados pecados capitais. A inconstância é condenada pelo Senhor no Evangelho, quando acusa os que pegam no arado, mas olham para trás. Em outro lugar, o Senhor lembra das virgens que não foram constantes no vigiar. E em outros tantos momentos o próprio Senhor insta-nos: batei, pedi incessantemente. Se a constância é sugerida pelo Senhor, por que não seria a inconstância censurada?

      Abraço, Zaíra.

      As questões que rondam as turmas podem ser esclarecidas neste espaço, pessoal.

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