Os vícios de Giotto – V

Em um afresco da Capela Arena, em Pádua, é possível ver um uma figura curiosa: um personagem maltrapilho, com algo semelhante a penas sobre sua cabeça, segura um bastão. O personagem, um tanto abobalhado, tem adereços que lembram um selvagem ou algum homem desleixado com sua aparência. Parece ser um desses tipos carnavalescos, que cultuam a natureza ou algo que o valha. A jocosidade da cena pode levar o espectador da obra a achar que este vício é sem importância ou que não trata de questões capitais para o homem. No esquema das virtudes de Giotto, no entanto, esse personagem encarna a loucura (estultícia) e contrapõe-se à virtude da prudência, conferindo importância ímpar ao tema.

O personagem é representado jovem, talvez fazendo referência ao ensinamento de Aristóteles, o qual sustenta que  o homem prudente necessita de experiência, precisa ter conhecimento prático para tomar decisões acertadas no campo da ética. No entanto, não é preciso que seja experiente em anos, mas é necessário que amadureça espiritualmente para obter o conhecimento suficiente para praticar a prudência. O personagem encarna justamente o inexperiente, que julga mal seus atos concretos. Por sua imaturidade (e aí não importa sua idade cronológica), o estulto não medita suficientemente sobre suas ações, elegendo para si falsos bens e valores.

A organização das virtudes e vícios proposta por Giotto quer indicar que o vício da imprudência, o qual Santo Tomás qualifica como um vício especial (imprudentia est unum vitium speciale – IIª-IIae q. 53 a. 2 s. c.), se identifica com a loucura ou a estultícia. No entanto, há um tipo de loucura que é contraposta, pelo Aquinate, à sabedoria (IIª-IIae q. 113 a. 1 ad 1), tornando assim a reflexão acerca do afresco ainda mais interessante. Sem embargo, a prudência é compreendida classicamente como “auriga virtutum”, isto é, guia das virtudes, a que prepara e organiza todas as outras virtudes. Em contrapartida, a imprudência ou a tolice é o vício que prepara o caminho para os outros vícios, além de desorganizar as virtudes cardeais, dificultando sua aquisição.

Em uma parábola, o Evangelho retrata a espírito do homem estulto, que põe a esperança de uma vida feliz e segura em um silo de mantimentos (Lc 12,13-21). Diante dessa atitude, que até pode assemelhar-se incorretamente à prudência, o Senhor aplica uma reprimenda curiosa: Tolo!, é do que Jesus acusa o personagem. Perceba-se que nada foi mencionado sobre a fé do homem rico. Ele até poderia ser um homem de fé. Também nenhum menção se fez ao fato de ter sido durante toda a vida um homem justo ou injusto. Não foi de injusto ou de incrédulo a acusação que o Senhor fez ao homem rico, mas de estulto, insensato, pois não refletiu suficiente sobre o que colocava sua segurança.

Os vitimados pela imprudência ou tolice sofrem porque elegem, como bens absolutos, bens apenas relativamente importantes. A saúde, a honra, a justiça, são todos bens importantes, mas jamais poderão ser elevados a bens absolutos, com o risco de tornar o agente em um exemplar de homem estulto de Giotto. Como se lê no Antigo Testamento, o Senhor é um Deus ciumento (Dt 4,24).


Fontes:
Stubblebine, James H. Giotto: The Arena Chapel Frescoes.
TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. São Paulo: Loyola, 2002.
Robson Oliveira

2 comments for “Os vícios de Giotto – V

  1. Anderson
    10 de setembro de 2010 at 19:45

    Olá, professor muito interessante o tema das virtudes e vícios. Talvez o senhor poderia escrever algo sobre o vício da ira e tentar comentar a atitude de Jesus ao expulsar os vendilhões do templo (Jo 2,14-17), a partir de um viés aristotélico-tomista ou outro filosófico. Pois, alguns padres da tradição defendem chamam de “ira santa de Jesus”, a atitude de Cristo.

    • Robson Oliveira
      10 de setembro de 2010 at 20:17

      Que bom que a reflexão foi útil, Anderson. Estou preparando o comentário sobre a Ira. Daqui a uns dias deverá estar no ar.

      Abração e aproveite o fim de semana para descansar.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *