Os vícios de Giotto – VI

Ao estudar as paixões da alma, tema que não se pode ignorar quando o assunto é ética, uma questão se coloca: se as paixões são eticamente neutras (como foi dito anteriormente), isto é, se sobre elas não cabe caracterizações sobre sua malícia ou bondade, por que Giotto classifica a ira como vício? Será que há alguma distinção entre a paixão e o vício ira?

Os que estudam ética não podem esquecer-se de que a ira é uma paixão especial. E ela é especial porque, diferentemente do amor ou do ódio, ela pode ter muitas causas. O amor ocorre sempre pela representação de bem que certo objeto possui a um agente, aproximando-o naturalmente; enquanto o ódio ocorre sempre pela representação de mal que um objeto contém ao agente, afastando-lhe de si. A ira, e isso já é instrutivo, acontece quando uma tristeza específica se abate sobre o indivíduo pela presença de um mal atual. Ou também ocorre a ira quando há um desejo acerca de um mal que pode ser revidado; ou a esperança de um bem que pode ser negado a alguém. É o próprio Santo Tomás quem  adverte que três são as causas da ira (Iª-IIae q. 46,  a. 1 co):

a. Tristeza

b. Desejo

c. Esperança

A ira pode acontecer por causa de uma das paixões individualmente ou, em um caso hipotético, pode reunir todas as paixões citadas em um único movimento. Por exemplo, pode haver ira porque houve algo que acarretou a tristeza do agente. Essa tristeza, que nem precisa ser justa, pode gerar o desejo de recuperar algo perdido ou negado pela tristeza. E a esperança de vingar-se pode alimentar e consolidar a paixão denominada ira. Se não houver a esperança de vingar-se, o desejo não elabora o melhor modo de execução da vingança e, portanto, aquele ato gerador da tristeza termina em si mesmo.

Como a tristeza pode ser boa (ver aqui), nem sempre a ira é um vício, o que já responde a segunda pergunta desta reflexão. Pode acontecer, e comumente acontece, de a ira ser um movimento da alma por causa da justiça (como no caso da Ira Divina). Mas o que mais acontece é que a ira destempere o irado, o qual não busca mais o bem perdido na tristeza, mas o mal daquele que provocou a perda. Este é o caso do afresco pintado por Giotto. A primeira questão da reflexão recebe do afresco informações que ajudam a distinguir a ira, simples movimento das paixões, da ira vício.

No afresco de Giotto, o vício da ira é representado na pessoa de uma mulher que, com o rosto transtornado e visivelmente desequilibrada, rasga suas vestes. Além dos cabelos longos em desalinho, o outro único dado que indica o espírito da personagem é a gestualidade da personagem: cabeça lançada para trás, busto levemente arqueado para frente e as mãos exageradamente apertadas esticando as vestes dão a impressão de que aquele que é tomado pela ira tem atitudes desmedidas, chegando a ser excessivamente inconveniente.

Apesar de ser a primeira impressão, o irado não perde o controle ou a racionalidade ao agir tomado de ira. Por ser uma paixão da parte irascível da alma, ela sempre exige de suas vítimas algum tipo de conivência com esta paixão. A causa do destempero está mais ligado ao bem concupiscível que inicia o processo de ira. Pois vejamos:

Se a paixão da ira possui três fontes, é justo que o vício da ira também possua um tripé que o origine. Pois bem, as fontes que geram a ira (tristeza, desejo e esperança) tratam, quase todas, de paixões relacionadas à sensibilidade. O irado fica triste por algum bem que lhe foi negado. Esta negativa gera o desejo de reparar esta perda, produzindo, aí sim, uma paixão do irascível, a esperança, que maquina como recuperar este bem. A execução disso tudo é a ira! Compreenda-se que todo o processo começa com a supervalorização de um bem sensível, causando no indivíduo a sensação de perda.

 

Como Santo Tomás de Aquino já nos disse, “as paixões do concupiscível (amor, ódio; alegria, tristeza; desejo, aversão) são causas das paixões do irascível” (IIª-IIae q. 46,  a. 3, ad 3). O amor a si mesmo é que causa a ira de uma palavra de correção mais dura de um amigo; a tristeza pela honra manchada (justa ou injustamente) é que gera o desejo de vingança, último passo da ira; a aversão por um mal evitável pode gerar a ira irracional contra Deus (afinal, não será possível consumar a vingança). A causa da ira está, quase sempre, no amor a si mesmo. Os que não perdem de vista a sua pequenez, raramente são tomados de ira, pois sabem que, mesmo se as críticas e males não sejam justas, nada obsta que um dia elas sejam.


Fontes:
Stubblebine, James H. Giotto: The Arena Chapel Frescoes.
TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. São Paulo: Loyola, 2002.

2 comments for “Os vícios de Giotto – VI

  1. Priscila
    24 de setembro de 2010 at 21:09

    Excelente reflexão…
    É interessante perceber a relação da ira com a sensibilidade…
    Talvez seja por isso que esse vício tente tomar conta de mim no período da tpm rsrs
    Sério,a mulher biologicamente, em razão do turbilhao de hormonios que se agitam durante esse periodo, fica mais sensível e mais suscetível…
    Tá aí, algo a se observar…a fragilidade e a possibildiade de se irar por algo tão simples…e no fim chegamos lá, ‘de onde não deveriamos ter saído’: reconhecer nossa pequenez, exercitar nossa humildade…

    • Robson Oliveira
      24 de setembro de 2010 at 21:52

      Não à toa a personagem é uma mulher… rsrsrsrs

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