Papa e as interpretações da Bíblia

Reprodução

Um interessante artigo surgiu em um famoso blog inglês: First Thoughts (o artigo em inglês pode ser lido aqui). Em resumo, o autor Joe Carter, protestante, comentando o texto de um outro colega protestante, indaga se a existência de um Papa é, de fato, garante de que as discussões teológicas serão menores do que na adoção da premissa Sola Scriptura. É por causa deste princípio, argumentam os católicos, que as denominações protestantes se dividem infinitamente, muitas vezes negando dados da fé importantíssimos, como a presença do Senhor Jesus na Eucaristia, a existência de outros sacramentos além do batismo, dentre outras questões importantes. Segundo o Kevin DeYoung, porém, a experiência mostra que mesmo na Igreja Católica há uma diversidade de interpretações da Bíblia, mesmo sob a tutela de um Papa. Importa esclarecer.

Um primeiro ponto importante é sobre a preponderância do texto sagrado para a fé cristã. Com efeito, a Bíblia é fonte inequívoca do cristianismo. A Palavra de Deus sempre fecunda e frutifica em quem a escuta com boa disposição. No entanto, não é a única fonte. E mais: nem a primeira. Antes da Palavra Escrita há a Palavra Pregada, fonte de todo texto do Novo Testamento. Toda a Bíblia deve ser interpretada não à luz do texto frio, mas do testemunho daqueles que viveram com o Cristo. A pregação dos apóstolos inspira e dá sentido ao texto sagrado. Por isso, a Bíblia nasce da Igreja e é um absurdo crer na santidade dos textos bíblicos e duvidar da santidade da Igreja Católica. A Palavra Escrita é antecedida pela Palavra Pregada.
Ademais, e aqui o erro do articulista é grande, os católicos jamais defenderam uma leitura unívoca da Sagrada Escritura. Só para ficar no século XIII, é tradicional a divisão dos sentidos da Bíblia de Santo Tomás de Aquino (sentidos histórico, alegórico, moral e anagógico). A questão do Papa não se coloca sobre as disputas de interpretação de textos particulares da Escritura, mas do conjunto da mensagem cristã. Apenas quando uma interpretação em particular coloca em xeque um ponto mais geral da doutrina é que a autoridade Papal surge para dirimir os problemas.
O ponto mais central, porém, é outro. Por causa da centralidade da Igreja no Mistério de Cristo, o tema da reflexão teológica questionar o Papado nem se coloca. As discussões teológicas no catolicismo são distintas da autoridade eclesial, justamente porque é anterior e superior a estas mesmas questões. De outro modo, a Igreja  não serve ao teólogo, é o teólogo quem serve à Igreja.
A Tradição (na figura do Papa) não significa univocidade; significa proteção especial do Espírito Santo.
Robson Oliveira

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *