Reflexão sobre a Lumen Fidei – por Pe. Matheus Pigozzo

O texto do Pe. Matheus Pigozzo é bastante revelador do espírito anti-clerical e anti-católico que ronda os meios de comunicação e alguns não poucos católicos, que veem sempre com desconfiança tudo que vem do Vaticano. A análise do estudante revela que a Carta Encíclica Lumen Fidei não é um rompimento com a doutrina católica, nem um aggiornamento traidor dos mártires, dos doutores, dos apóstolos ou da fé. Vale a pena ler as palavras do jovem estudante.


Reflexão sobre a Lumen Fidei

Por ocasião do ano da fé, o Santo Padre o Papa Francisco, seguindo a ideia de seu antecessor o Papa Bento XVI, publicou no dia 29 de junho de 2013 a Carta Encíclica Lumen Fidei – Luz da Fé – que, segundo Francisco, Bento XVI “já tinha quase concluído um primeiro esboço desta carta encíclica sobre a fé” (n.7). A Lumen Fidei conclui a trilogia das cartas sobre as virtudes teologais: Deus Charitas est – Caridade; Spe Salvi – Esperança e a presente carta sobre a Fé.

Cabe aqui refletirmos sobre alguns pontos importantes da primeira Encíclica do Santo Padre, o Papa Francisco. Nada mais oportuno é, para nós católicos, estudarmos e determos nossa atenção no que se refere à Fé. Não é ela que deve orientar a nossa vida? Não é pela fé que nos reunimos, que trabalhamos e que caminhamos? Pois bem, iniciemos nossas considerações.

A primeira frase da Carta nos traz uma afirmação muito importante: “A Luz da fé é expressão com que a tradição da Igreja designou o grande dom trazido por Jesus” (n.1). A fé, antes de tudo, é dom, não é um produto do homem, não é algo que se apoia em minha subjetividade, pelo contrário, sua característica principal é que vem de fora de mim, vem de Deus e ilumina minha existência de criatura. “Ora, para que uma luz seja tão poderosa, não pode dimanar de nós mesmos; tem de vir de uma fonte mais originária, deve provir em última análise de Deus.” (n.4).

Entender a fé como dom é desconfortante no mundo antropocêntrico de hoje. Estamos acostumados a confiar em nós mesmos, em dar importância ao que nós fazemos, ao que conseguimos produzir em nossos laboratórios, ao que pode ser medido pelas nossas seguranças matemáticas. Essa realidade é tão forte que acabamos caindo na tentação de sustentar uma fé produzida por nós. Se a fé é algo criado por mim então ela tem as exigências que eu coloco, as brechas que eu quero e os acentos que proponho. Isso é perigoso!!! É desta mentalidade que vem as frases: “Sou católico, mas esse ponto é radicalismo”; “Creio em Jesus, mas isso é invenção medieval”; “Sou da Igreja, mas essa é a minha vida particular” etc… Mas, mas, mas… Essas posturas no fundo se fundamentam na concepção da fé como produto e não com dom do alto.

Esse dom da fé, recebemos num encontro, diz a Lumen Fidei: “A fé nasce do encontro com o Deus vivo, que nos chama e revela o seu amor: um amor que nos precede e sobre o qual podemos apoiar-nos para construir solidamente a vida” (n.4). A fé não é um manual de normas estabelecias ou um cabedal de prescrições religiosas. Ela é a claridade do encontro com a verdadeira Luz, ela nos vem de um relacionamento com o Deus criador. Quando, aí sim vem a nossa parte, nos abrimos à luz, nos dispomos ao encontro com Ele, somos “Transformados por este amor (e), recebemos olhos novos” (n.4). A fé “aparece-nos como luz para a estrada orientando nossos passos…” (n.4). O autêntico encontro com a Luz verdadeira é tão forte e tão maravilhoso que a sua consequência coerente é uma mudança de vida. Tudo é visto com outros olhos; por detrás de nossas ações sempre tem a intenção do encontro definitivo com Deus – o céu. O que fazer? Que ambientes frequentar? Como enfrentar as situações? Tudo será iluminado pela fé, por isso posso construir, mesmo que por um caminho exigente, solidamente minha vida, não temendo mais o desmoronamento de uma existência fundada nas volúveis areias no meu eu.

Depois de ver em linhas gerais a fé como dom de Deus e abertura humana (resposta), destaco outro ponto trazido no texto pontifício – A salvação pela fé. Longe de ser uma entrega subjetivista ou um esforço farisaico, somos salvos pela fé em Cristo que nos transforma “em nova criatura, (recebemos) um novo ser, um ser filial, torna-se filho no Filho” (n.19). A confiança de nos salvar pela fé não se embasa nos nossos milimétricos atos que visam nos justificar a nós mesmos, nem em uma mera confiança desencarnada de que sou revestido pelo amor de Jesus. Salvação pela fé é mais que isso, é mais radical. Do encontro com a Luz nós não só somos revestidos dela, vai além, nós somos transformados por ela, nosso ser é mudado “deixando que a salvação atue em nós e torne a vida fecunda, cheia de frutos bons.” (n.19). Deixando-nos transformar pela fé, permitindo que Cristo seja em nós, nossos atos refletirão o encontro, mostrarão o rosto do Encontrado.

Outra ideia relevante é a conexão de fé e verdade. “Sem a verdade, a fé (…) não torna seguros nosso passos (…) reduzir-se-ia a um sentimento bom que consola e afaga, mas permaneceria sujeito às nossas mudanças de ânimo, à variação dos tempos, incapaz de sustentar um caminho constante na vida.” (n.24). Não poderíamos confiar nossa vida a um sentimento, a fé é real, a fé é verdade. A sociedade impõe-nos aceitar como verdadeiro só o que pode ser medido e calculado, e por isso desconsideramos a fé como verdade apresentável ao outros, deixamos ela somente como verdade para nós. Não devemos impor a fé, mas devemos apresentá-la ao demais. Não temos que nos sentir desconcertados por crermos, como se a fé fosse um “conto de fadas” que eu aceito; precisamos estudar e saber dar argumentos de nossa fé, mostrando que ela não está em contradição com a razão e muito menos que seja irracional.

A Lumen Fidei apresenta o aspecto comunitário da fé. “É impossível crer sozinho. A fé não é só uma opção individual (…)verifica-se sempre dentro da comunhão da Igreja” (n.39). Para cremos na fé verdadeira, nos dados objetivos da fé, devemos crer dentro do nós ‘Igreja’. Pelo batismo somos inseridos na Igreja, destinatária da revelação de Deus. Devemos crer no que a ela guarda e professa como verdade recebida do próprio Deus, não há espaço para manipulações e recortes. Também é na Igreja que alimentamos a fé e a sustentamos, de modo especial pelos sacramentos onde nós somos envolvidos por Deus de forma plena e somos mudados por Ele. A fé não pode estar emancipada dos sacramentos. Daí vem a necessidade de constantemente nos deixarmos encontrar por Deus na confissão e em especial na Eucaristia onde a “natureza sacramental da fé encontra a sua máxima expressão” (n.44).

No quarto capítulo, a Encíclica ainda expõe a característica social da fé. “A fé não nos afasta do mundo (…) sua luz não ilumina o âmbito da Igreja nem serve somente para construir uma cidade eterna no além, mas ajuda também a construir as nossas sociedades de modo que caminhem para um futuro de esperança (…) As mãos da fé levantam-se para o céu, mas fazem-no ao mesmo tempo em que edificam, na caridade, uma cidade construída sobre relações que têm como alicerce o amor de Deus” (n.51). Como a fé ilumina toda existência humana, não poderia excluir-se da vida social do homem, pelo contrário, o crente encontra na fé a força e a luz para saber se relacionar com caridade, para denunciar as injustiças e trabalhar pelo bem comum. O primeiro e principal espaço que deve ser iluminado pela fé e deve formar na fé é a família, no amor verdadeiro entre um homem e uma mulher devem ser educados os filhos para serem autênticos homens da Igreja e da sociedade.

Muitas teorias, supostamente religiosas, tentaram durante anos fazer uma militância social com capa de catolicismo. Em detrimento da espiritualidade, visavam construir um paraíso na terra, o afã por uma fé inserida e uma sociedade sem opressão era tão grande que se ofuscou a meta final de todo o ser humano – o Céu. Essas teorias não são católicas, não são motivadas pela verdadeira fé. A pessoa de fé nunca perde de vista o seu objetivo final, não pretende encontrar aqui sua realização, quer, pelo contrário, iluminar a sociedade com a esperança do encontro definitivo com o grande Amor – Deus.

Por fim a Lumen Fidei apresenta Maria, mãe de Deus, como o protótipo de crente: “na Bem-aventurada Virgem Maria, se cumpre aquilo em que insisti anteriormente, isto é, que o crente se envolve todo na sua confissão de fé” (n.59). Em Maria vemos a realização de uma fé autêntica, contemplamos a resposta ao dom recebido com todas as suas consequências e tocamos os frutos da vida tomada e guiada por Deus. Maria não só é modelo é também poderoso auxílio para os cristãos se deixarem iluminar pela grandiosa Luz da Fé.

Pe. Matheus de Barros Pigozzo
Arquidiocese de Niterói

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