Reflexões sobre a moral sexual – II: os métodos naturais

Questão: A Ética e a Moral Teológica sustentam que o ato sexual, para ser legítimo, deve ser aberto à vida, isto é, não pode impedir ou tentar impedir voluntariamente que o fim do ato sexual, a concepção, aconteça. Por isso, toda ação que pretenda separar a possibilidade da transmissão da vida artificialmente repugna a reflexão filosófica e a moral teológica. No entanto, o uso dos ritmos inférteis das mulheres não repugna a moral, pois são ações que não introduzem intermediários para dificultar ou impedir a geração da vida. Mas existem os que acham os métodos naturais tão ilícitos quanto os artificiais. Dizem: se o ato sexual deve estar aberto à vida, usar os períodos inférteis para manter relações sexuais é igualmente anti-ético. Logo, os casais que usam os métodos naturais (tabelinha, temperatura, método da saliva ou Billings) são hipócritas, pois acusam os métodos artificiais mas fazem o mesmo com  os naturais. No entanto, não é bem assim.

Dentes de uma pessoa bulímica, corroídos pelo suco gástrico

Os que identificam o uso dos métodos naturais aos métodos artificiais pensam deste modo: não importam os meios se o fim é o mesmo. Não há erro mais crasso. Os meios são importantes, sim, para alcançar um fim justo. Ou alguém defende que conseguir manter sua família roubando e trabalhando é a mesma coisa? Ou que passar nas provas do colégio estudando ou colando equivalem? Pelo contrário, alguns meios – ainda que alcancem o fim desejado – são prejudiciais. Por exemplo, os que pretendem usufruir dos benefícios da alimentação, mas sem aceitar o fim desta ação, que é a nutrição e a absorção destes alimentos no organismo, podem facilmente cair em um erro moral, que pode transformar-se até em um problema médico. A bulimia é um caso em que se deseja o prazer gustativo sem aceitar também o fim da alimentação. É uma doença que indica um problema na relação do indivíduo com um bem naturalmente lícito: o alimento. No entanto, escolher alimentos que, apesar do prazer gustativo, impactam menos na dieta não tem nada de imoral, contanto que não se interponham instrumentos ou ações para, deliberadamente, impossibilitar a absorção dos alimentos, restando do ato próprio da alimentação apenas o prazer anexo ao alimentar-se.

Casal Billings, criador do método natural de espaçamento de filhos

Ora, quanto ao prazer sexual – que é semelhante ao prazer gustativo, na medida em que orienta a ação respectiva para um fim que transcende a própria ação – também é lícito desfrutar do prazer anexo ao ato sexual, desde que sejam usados os ciclos naturais do homem e da mulher para ordenar o legítimo uso desse apetite humano. Deve-se notar, porém, que entre o início da instalação do vício da gula e o a gula instalada, há um espaço onde não se sabe exatamente o que é vício e o que ainda é lícito. O mesmo ocorre com o ato sexual: há uma busca do prazer sexual que é lícita aos casados, mas que, no entanto, pode dar lugar ao vício da luxúria, que é a desordem do apetite sexual e caracteriza-se pela satisfação do apetite sexual com a concomitante rejeição do fim mesmo desse apetite, que é a prole. Há de se cuidar para que não se caia na armadilha da moral laxa e para isso, importa não raro o olhar de fora, de um conselheiro, para que não se passe por prudência ou cuidado o que é simplesmente calculismo e egoísmo frios.

Os métodos naturais de espaçamento de filhos são, portanto, moralmente lícitos, do mesmo modo que o cafezinho depois do jantar não é gula. E hoje, mais que ontem, o conhecimento e divulgação desses métodos é bastante útil. Pois estes métodos colocam freios ao apetite sexual, que pode tornar-se feroz e desordenado em nome da “obediência à lei do multiplicai-vos”. Não se diga que por detrás de uma família grande se esconde um coração generoso e de uma família pequena, corações pequenos. Assim como não se pode dizer que de corpos esbeltos deduz-se ascética e de gordinhos, gula. Em famílias grandes também pode haver apetites sexuais irrefletidos, que redundam em prole numerosa – graças a Deus -; e em famílias pequenas podem esconder-se suores e lágrimas, por causa do dever de educar, também anexo à vocação matrimonial.

Robson Oliveira

4 comments for “Reflexões sobre a moral sexual – II: os métodos naturais

  1. Oswaldo
    4 de março de 2014 at 01:23

    Parece-me que algumas afirmações há dissonância com o ensinamento da Igreja:
    1) SOMENTE quando há motivos GRAVES se pode fazer uso da continência periódica; devendo um confessor de bom critério averiguar a solidez dos motivos, para não instrumentalizar os métodos naturais por comodismo, consumismo, egoísmo, etc.

    2) quanto ao louvor da família numerosa:
    Catecismo nº 2373 A Sagrada Escritura e a prática tradicional da Igreja vêem nas famílias numerosas um sinal da bênção divina e da generosidade dos pais.
    São Josemaría Escrivá, Questões atuais do cristianismo Abençôo os pais que recebendo com alegria a missão que Deus lhes confia, têm muitos filhos. Convido os casais a não estancarem as fontes da vida, a terem senso sobrenatural e coragem para manter uma família numerosa, se Deus a envia.

    Paz!

    • 4 de março de 2014 at 07:38

      Obrigado pelo comentário, Oswaldo:
      1) Em nenhum momento se diz o contrário sobre os motivos do uso dos métodos naturais, caro. O objetivo do texto não é esse. Quando falamos da prole (http://humanitatis.net/blogs/nonnisete/reflexoes-sobre-a-moral-sexual-%E2%80%93-i-a-prole), tocamos no assunto. Sobre o conselheiro, falamos no texto, embora ninguém substitua a família na decisão sobre o espaçamento da prole.

      2) Não quis discutir o louvor à família numerosa. Quis dizer e mantenho a sentença de que nem sempre família grande é generosa, assim como nem sempre família pequena é egoísta. Afinal, não é verdade que há magrinhos gulosos e gordinhos penitentes? Pois é.

      Abraço fraterno!

  2. Virginia
    21 de agosto de 2011 at 17:15

    Ola! como vai prof? gostei da forma como o texto aborda oassunto e gostaria de fazer copia para estudar com o grupo q da suporte aos recem-casados. Um abraço.

    • Robson Oliveira
      21 de agosto de 2011 at 19:06

      Pode utilizar sem problema, Virginia. A ideia é justamente dar algum apoio para quem trabalha o assunto e não quer submeter-se ao status quo. Abração, com saudades e ave-maria!!!

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