Reflexões sobre os Padres Apostólicos – Didaqué – I

Jubileu do Vaticano II é momento especial para refletirmos sobre as diversas correntes teológicas que conviviam nesse evento eclesial ímpar, cujas consequências já são bem sentidas nesses 50 anos. Dentre as correntes que influenciaram os caminhos do Concílio, havia os que defendiam um retorno às fontes cristãs primitivas: a Nouvelle Théologie. Esse grupo se caracterizaria pelo esforço por retornar às tradições cristãs, para revisitá-la e corrigi-la de eventuais erros; ou para revisitá-la e redescobri-la para os homens do século XX. A primeira postura é bastante inovadora e revolucionária, a segunda mais investigativa e comprometida com o Magistério. Vê-se que são dois os grupos que compunham a Nouvelle Théologie: um grupo mais comprometido em atualizar a doutrina católica para acomodá-la a nossos tempos, cujos maiores nomes são Hans Küng e Karl Rahner; e outro mais interessado em descobrir a doutrina dos primeiros cristãos, sob a orientação do Magistério, cujos nomes são Hans Urs von Balthasar, Henri De Lubac e Joseph Ratzinger. Por isso, em um estudo sobre os Padres da Igreja, não basta ir às fontes do pensamento e da prática cristãs para que se garanta uma boa compreensão do cristianismo. Antes, é necessário ir a tais fontes com o espírito correto. Nesse estudo da Didaqué, também chamada Doutrina dos Apóstolos, importa advertir-se do espírito que impulsiona tal empreitada.

Espírito para a leitura da Didaqué

O estudo da Didaqué se faz por diversas razões. Conhecer testemunhos mais próximos das comunidades cristãs primitivas é um motivo para estudarmos a Doutrina dos Apóstolos. Afinal, é possível que a vida daqueles cristãos mais próximos dos Apóstolos ilumine alguns ensinamentos por si mesmos difíceis até os nossos dias. Além disso, a lida com textos antigos da comunidade cristã primitiva traz a antiquíssima e bimilenar tradição eclesial para iluminar as questões e problemas atuais, problemas esses que não são nada originais. Pense, por exemplo, na exploração do homem pelo homem, não há nada de novo nisso. Os Padres da Igreja já conviveram com injustiças e abusos sociais e têm ensinamentos importantes sobre esse assunto em seus testemunhos e ensinamentos. Mas há também um modo equivocado de se ler a Didaqué.

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O Bom Pastor – século V.

1. Um equívoco frequente na leitura da Doutrina dos Apóstolos e, grosso modo, no estudo dos Padres da Igreja de modo geral, é a pretensão de razoabilidade dos textos apenas pela proximidade com os primeiros Apóstolos. Alguns acreditam que a distância temporal é natural impedimento ao encontro da verdade e que, portanto, a proximidade temporal é garantia de certeza de per si. Mas não é nada assim. Afinal, mesmo os Padres da Igreja mais próximos do último Apóstolo tiveram alguma distância temporal entre si, ainda que pequena. Mas tal distância não era impedimento para a compreensão da doutrina e da vida do cristianismo primitivo, como hoje se concede. Na verdade, pensa-se que os textos do início do cristianismo são peças-chave para compreensão da liturgia, da ética, da dogmática do cristianismo primitivo. Entretanto, esquece-se que mesmo lá há um gap temporal. De outro modo, se a verdade é impedida pela distância temporal, mesmo aos Padres da Igreja estão impedidos de alcançá-la pois há alguma distância, mesmo que pequena, entre os Apóstolos e eles. O tempo é condição para interpretação, não impedimento. Portanto, não se pode utilizar a historicidade como impedimento e causa de distorção da compreensão dos ensinamentos cristãos, pois o argumento recairia com igual força também sobre o período patrístico e sobre seus textos.

2. Outro equívoco comum que pode ocorrer na leitura da Doutrina dos Apóstolos é a busca pela “autêntica comunidade cristã”. A tara por autenticidade, que tomou conta das ciências humanas nos últimos 100 anos, não poupou a reflexão teológica e exigiu dela seu tributo. Na segunda metade do século XX, foram inúmeros os teólogos que se dedicaram a decifrar, na multidão inexpugnável de escolas e perspectivas pós-pascais das comunidades cristãs primitivas representadas nos Evangelhos, quais eram as palavras “autênticas” de Jesus. Aplicadas às práticas comunitárias, não foram poucos os que também tentaram encontrar a práxis ordinária das primeiras pequenas comunidades, que se oporiam às práticas inautênticas ou falsas. Ir aos textos patrísticos, como a Didaqué, por exemplo, procurando encontrar a comunidade cristã autêntica, é dedicar-se a uma tarefa impossível, pois não é possível saber, sem dúvida, como era o cristianismo nesses primeiros séculos. Ao homem não é dada possibilidade de compreender o fato histórico sem condicionamentos. A busca pela comunidade autêntica ou pelo Evangelho autêntico parte da premissa de que a leitura do relato da vida cotidiana da comunidade trará ao leitor a experiência da comunidade sem intermédios, assim como a hermenêutica correta do texto grego com o método histórico-crítico trará à luz as palavras autênticas de Jesus. É preciso lembrar que o mito do conhecimento puro, da autenticidade e da objetividade absoluto surgiu na filosofia moderna.

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Batismo de Cristo, século V.

Robson Oliveira

1 comment for “Reflexões sobre os Padres Apostólicos – Didaqué – I

  1. Douglas
    26 de Maio de 2015 at 10:43

    Robson,

    muito proveitoso o texto. Principalmente pq me vejo caindo nesses dois equívocos.

    Agora, esclarece uma coisa. As vezes, em conversas com amigos “relativistas” a respeito do que Jesus quis dizer como por exemplo o Reino de Deus, vem tantas interpretações quanto mais cabeças estiverem na roda de conversa. O que eu costumava dizer é que ‘por mais que você diga isso e eu aquilo, Jesus quis dizer alguma coisa com isso, então temos que ler a totalidade da mensagem de Jesus (nos evangelhos) para ter a interpretação correta daquilo que Jesus quis dizer’.

    Mas sobre os equívocos que colocou no texto fiquei confuso se minha linha de raciocínio é correta ou não.

    Então vou te perguntar o seguinte: a interpretação por passar por determinados condicionamentos ela já não tem certo grau de relativismo? Que seria inerente a qualquer interpretação e sendo assim toda interpretação tem uma certa incerteza. É certo isso?

    Abraços

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