Reflexões sobre os Padres Apostólicos – Didaqué – II

Dando início à leitura e comentário da Doutrina dos Apóstolos, também chamada de Didaqué, vamos ao primeiro ponto do documento, que pode ser datado, para alguns historiadores, do primeiro século do cristianismo. Podemos ler no primeiro capítulo:

CAPÍTULO I

1 Há dois caminhos: um da vida e outro da morte. A diferença entre ambos é grande. 2 O caminho da vida é, pois, o seguinte: primeiro amarás a Deus que te fez; depois a teu próximo como a ti mesmo. E tudo o que não queres que seja feito a ti, não o faças a outro. 3 Eis a doutrina relativa a estes mandamentos. Bendizei aqueles que vos amaldiçoam, orai por vossos inimigos, jejuai por aqueles que vos perseguem. Com efeito, que graça vós tereis, se amais os que vos amam? Não fazem os gentios os mesmos? Vós, porém, amai os que vos odeiam e não tenhais inimizade. 4 Abstém-te dos prazeres. Se alguém te bate na face direita, dá-lhe também a outra e tu serás perfeito. Se alguém te obrigar a mil (passos), anda dois mil com ele. Se alguém tomar teu manto, dá-lhe também tua túnica. Se alguém toma teus bens, não reclames, pois de todo o jeito não podes. 5. Dá a todo aquele que te pedir, sem exigir devolução. Pois a vontade do Pai é que se dê dos seus próprios dons. Bem-aventurado é aquele que dá conforme a lei, pois é irrepreensível. Ai daquele que toma (recebe)! Se, porém, alguém tiver necessidade de tomar (receber), terá que se responsabilizar pelo motivo e pelo fim por que recebeu. Colocado na prisão, ele não sairá de lá, até ter pago o último quadrante (vintém). 6 Mas é verdade que a este propósito também foi dito: que tua esmola sue em tuas mãos, até que souberes a quem dar.

Vamos nos concentrar em três pontos desse capítulo: o problema do relativismo cultural, a regra de ouro e os princípios da vida cristã.

1. Sobre o relativismo entre os primeiros cristãos (1,1)

As comunidades cristãs mais próximas dos Apóstolos tiveram muitos desafios: escolas filosóficas de viés gnóstico, perseguições romanas e questões internas. Mas um dos pontos incontroversos era a clara distinção entre o bem e o mal. O relativismo ético e cultural não era uma questão para os cristãos da primeira hora. Para o nosso tempo, em que o relativismo cultural é um dogma incontestável, pode ser estranho testemunhar a retidão diáfana da doutrina moral já no início do cristianismo. A clareza de ideias documentada nesse breve texto rechaça qualquer leitura que pretenda amenizar os embates dos cristãos com o poderoso Império Romano. O “vejam como eles se amam” não permite a interpretação adocicada e politicamente correta que se faz hodiernamente.

Segundo Bento XVI, o homem contemporâneo padece sob a influência da religião do momento: o relativismo. De tal modo essa religião é onipresente e constrangedora, que é preciso coragem e perseverança para ultrapassar a arrebentação relativista, que impõe a aceitação de que todos os caminhos são indiferentes, que não é correto averiguar se há caminhos melhores que outros, que não caminhos bons ou maus. Só ignorando o Evangelho e os primeiros escritos patrísticos para se satisfazer com uma leitura indiferente da doutrina moral cristã. A Didaqué não admite a relativização ética que se pretende justificar com a distância e a romantização da vida concreta dos cristãos dos primeiros séculos. Afinal, estamos falando de um modo de governo autocrático, o Império Romano, que desejava intrometer-se até o máximo na vida dos seus dominados, inclusive obrigando-os a recenseamentos constantes e oferendas religiosas a divindades oficiais. A Doutrina dos Apóstolos, que circulou entre os cristãos do primeiro século, é segura no que diz respeito à negativa à relatividade moral: só há dois caminhos e a diferença entre eles é grande.

Reprodução

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2. Sobre a Regra de Ouro (1,2)

A Lei de Talião é uma das normas éticas mais antigas da humanidade e pode ser resumida no adágio: olho por olho, dente por dente. O princípio ético pretende alcançar a justiça aplicando ao agressor reprimendas semelhantes ou idênticas às cometidas contra os agredidos. Assim, segundo Talião, é justo ferir com ferro ao que com ferro fere. A quem bate numa face é justo apanhar na outra. Sempre fazer aos outros o mal que os outros nos impuseram, esse é o resumo de Talião. Mas há outros princípios éticos tão antigos quanto esse.

A Regra de Ouro é tão antiga quanto a Lei de Talião e está no extremo oposto no que diz respeito às exigências morais. Se Talião pretende honesto responder o mal com o mal, a Regra de Ouro incentiva práticas diferentes. Concretamente, o que se chama Regra de Ouro trata de princípios práticos da ação humana e pode ser descrita de dois modos: negativamente, exigindo que nunca se faça aos outros o mal que não se deseja a si mesmo; ou positivamente, incentivando que se faça aos outros o bem que se deseja a si próprio. Na análise da Didaqué, percebe-se a raiz do cuidado por evitar o mal ao outro, assim como o desejo do bem ao próximo: o amor ao irmão por causa do Pai Comum. Por causa da universalidade do Deus Criador, os homens todos são irmãos e aos irmãos não se deseja o mal, mas o bem. Tudo isso está suposto nesse ponto de Didaqué.

3. Sobre os 3 inimigos do cristão (1,3-6)

Por último, a Didaqué oferece um resumo das primeiras etapas do cristianismo. Como o início da vida pública de Nosso Senhor nos ensina, no episódio das tentações do deserto, três são os tentadores mais comuns dos homens: a gula, a avareza e o orgulho. Num dos primeiros documentos do período patrístico, já está estabelecido que o cristão precisa levantar-se contra esses três inimigos, que pretendem usurpar não tanto na teoria, mas na prática, o Senhorio que só se deve a Um.

Primeiramente, a Didaqué incentiva que os cristãos sejam humildes (1,3). Amar quem nos odeia é um sinal inequívoco de submissão aos mandamentos, pois não é nada natural essa atitude interna. Cumprir esse preceito exige obediência aos desígnios de Deus, por isso os desafios propostos pelo texto eram um ataque à soberba e ao orgulho.

Depois, os primeiros cristãos eram incentivados a saírem de suas comodidades (andar mais do que é pedido; dar mais do que necessário; abster-se de prazeres, mesmo os honestos, etc.) (1,4). Percebe-se na Didaqué um chamado à sobriedade dos sentidos, um convite à moderação no uso dos bens. E assim, os cristãos eram incentivados ao combate à gula.

Finalmente, confirmando o ensinamento evangélico de que não se pode servir a Deus e ao dinheiro (1,5), o texto incentiva os cristãos da primeira hora a darem esmolas. O combate à avareza, como a Didaqué nos relembra de modo tão claro, está na raiz, no fundamento, no início da vida de qualquer cristão. Descuidar dessa batalha é começar a luta perdendo.

Os três inimigos de todo cristão foram apresentados na Didaqué: a soberba, a intemperança e a avareza. Contra esses inimigos, a tradição cristã criou práticas para tornarem mais fácil o caminho dos que buscam o Senhor. São eles os votos de obediência, castidade e pobreza. Cada um deles combatendo os vícios que tentaram inclusive o Senhor Jesus no deserto.

Pois é, parece que a primeira geração de cristãos tem muito a nos ensinar!

Robson Oliveira

2 comments for “Reflexões sobre os Padres Apostólicos – Didaqué – II

  1. maria nubia s barbosa
    17 de julho de 2015 at 23:59

    E importante saber ao minimo sobre a origem do que acreditamos , nesse caso : o cristianismo , que se refere ao nosso amado Deus. Outro dia um protestante me indagou sobre a didaque , então o pouco que aprendi no seminário , com Pe. Wallace , consegui dialogar com ele. Agora vou aprender mais um pouco com VC , Prof. Robson . Muito grata. Núbia.

  2. Beth Dias
    17 de julho de 2015 at 23:45

    Num texto tão breve, tamanha riqueza. …

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