Reflexões sobre os Padres Apostólicos – Didaqué – III

Continuando o estudo da Didaqué, vamos ao segundo capítulo do documento. Assim os primeiros cristãos descreveram a vida dos primeiras as testemunhas da primeira hora da pequena comunidade cristã:

CAPÍTULO II

1 O segundo mandamento da Instrução (Didaqué) é: 2 Não matarás, não cometerás adultério não te entregarás à pederastia, não fornicarás, não furtarás, não exercerás magia, nem bruxaria (charlatanice). Não matarás criança por aborto, nem criança já nascida; não cobiçarás os bens do próximo. 3 Não serás perjuro, nem darás falso testemunho não falarás mal do outro, nem lhe guardarás rancor. 4 Não usarás de ambiguidade nem no pensamento nem na palavra, pois a duplicidade é uma trama fatal.  5 Tua palavra não seja falsa, nem vã; mas, ao contrário, seja cheia de sinceridade e seriedade (comprovada pela ação). 6 Não serás cobiçoso nem rapace, nem hipócrita, nem malicioso, nem soberbo. Não nutrirás má intenção contra teu próximo. 7 Não odiarás ninguém, mas repreenderás uns e rezarás por outros, e ainda amarás aos outros mais que a ti mesmo (que tua alma).

No espírito do capítulo anterior, o primeiro catecismo do cristãos põe às claras dois aspectos importantes da vida cristão em suas raízes: a antecedência da fé sobre a lei; a exigência ética que nasce da adesão à fé.

1. Fé e Lei 

Durante todo o capítulo 2 da Didaqué, percebe-se que a reafirmação da Lei de Moisés, acontecida no capítulo atual, é antecedida pelo discurso dos dois caminhos. Uma hermenêutica dos textos deverá considerar a primazia temporal da decisão de fé entre o caminho do bem e do mal, que é chave de compreensão para o novo modo de perceber a fé mosaica. O cristianismo, antes de ser um conjunto de regras e normas éticas, importa uma relação pessoal e voluntária de seguir uma Pessoa. Por esse motivo, antes de descer até os problemas práticos, coloca-se uma questão de princípio: deseja trilhar o caminho do bem? Inverter essa ordem pode parecer razoável e bom, mas não passa de estoicismo passado no microondas pragmático.

Entretanto, não se deduz da primazia cronológica da fé sobre a práxis, que o agir cristão seja indiferente à fé católica. A real preponderância da fé, destacada nos textos paulinos, não admite uma relativização da ética cristã. Muito pelo contrário, para os cristãos do primeiro século já estava claro que a fé mosaica não estava sendo abolida pela fé no Filho do Homem, mas estava sendo elevada a novas alturas. Se alguém imagina que a ato de fé mosaico, caracterizado pelo cumprimento de um conjunto de preceitos, será menos rigoroso no cristianismo, esse ficará decepcionado.

2. Exigência Ética da Fé

A novidade do cristianismo é a radicalidade do amor. O cristão real ama, ama até o fim, até doer no mais fundo de si. Ama até doer a alma. Esse é o testemunho que brota do capítulo e da Didaqué. Tentar suavizar as exigências morais do cristianismo, colocando a vida prática em segundo plano, é uma enorme impostura. De fato, a questão principal acerca dos dois caminhos trata da radicalidade do amor: ou se ama, ou não se ama; ou se segue o caminho do bem, ou não se segue. Não há alternativa. Mas usar esse fato contra as exigências éticas não é honesto. Antes, o cristianismo não apenas considera válidas todas e cada uma das proibições mosaicas (cf. Mt 5, 18), como também leva a alturas impensáveis as prescrições da Lei Mosaica.

Se as Tábuas da Lei prescrevem proibições quanto a mentira, entre os cristãos da primeira hora a proibição se estendia até o pensamento dúbio; se a Lei de Moisés proíbe matar alguém, a Didaqué retoma o Evangelho e exige que se reze pelos que nos perseguem. Veja que o catecismo dos cristãos não relativiza a prática em relação à adesão de fé, mas aumenta enormemente a exigência das prescrições e normas mosaicas.

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Reprodução

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A Didaqué testemunha a importância da unidade intrínseca entre fé e moral, já no início do cristianismo. Qualquer divórcio entre Lei e Graça só não é um absoluto absurdo caso não se considere o testemunho da primeira geração de cristãos.

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