Religião “Universitária”

Está em marcha uma religião “universitária”, isto é, uma religião que tem vergonha de si e quer “atualizar-se” para ser oferecida no altar da opinião pública

Os 27 leitores assíduos do Non Nise Te! devem estar estranhado o silêncio do blogueiro nos últimos dias. A matéria-prima para reflexões ácidas e repletas de conclusões incômodas está abundante: tem professor de universidade católica xingando seus chefes e pagadores dos seus salários (com o bolso cheio de nosso dinheiro); tem professora eleita pela maioria do corpo docente de universidade católica para reitoria sendo achincalhada como se fosse golpista, só porque no geral não teve a maioria dos votos (maioria, aliás, que o atual reitor da mesma faculdade também não alcançou na última votação, mas mesmo assim foi escolhido pelo Chanceler da Universidade); a “missa toblerone” (parece que é um ato litúrgico misturado com mágica – sic!). O tempo, porém, é curto e este fim de semestre exige muito de nós. Nesta tarde, porém, um momento surgiu. Então, vamos pôr pimenta na chuleta!

Esses recentes eventos têm alimentado uma reflexão que, de todo modo, pode ser encontrada em outros blogs católicos desde há muito e pode ser identificada com a antiga insatisfação humana com a natureza das coisas: o homem jamais se satisfaz com o rumo com que a natureza corre e procura minimizar essa aspereza. Para não parecer duro demais, chato demais, enfadonho demais, aterrorizante demais, boçal demais, inventa-se adjetivos que tem a propriedade mágica (diria, toblerônica) de tornar o horrível, belo; o ruim, bom; o chato, agradável; o profano, sagrado. No Brasil, essa propriedade mágica tem cabido ao adjetivo “universitário”.

Já perceberam que tudo o que é ruim, monótono, rasteiro, até imoral, tem recebido o adjetivo “universitário”, com o intuito de minimizar as debilidades próprias dessas manifestações? Se o evento cultural tem uma carga histórica desagradável, aplica-se a ele o adjetivo “universitário” e tudo resolvido. Se tenho vergonha de um certo tipo de produção musical, que lembra interior, pobreza, ignorância, acrescenta-se ao produto o epíteto “universitário” e pronto. Houve um tempo em que tentou-se emplacar, no Rio de Janeiro, o Pagode “Universitário”, que teria o poder fantástico de tornar as músicas sentimentalmente melosas e conceitualmente raquíticas em verdadeiras obras-primas do cancioneiro popular, capazes de trazer um público mais “refinado” para as rodas de samba. Noves fora a pretensão injustificada de que alunos matriculados em qualquer instituição superior do Rio de Janeiro sejam mais refinados que quaisquer outro morador da cidade, o objetivo mesmo desse “quase” sufixo do pagode era atrair um público com mais poder aquisitivo, tentando distanciar o gênero musical de arquétipos culturais muito arraigados no carioca, muito embora bastante preconceituosos. O mesmo acontece com algum Sertanejo “Universitário” que, acreditando em sua recentíssima ascendência cultural superior, atrai um grupo de poder aquisitivo bastante alto, enquanto canta a plenos pulmões a esperteza de ter um colchonete no baú de uma Fiorino, para saciar suas paixões na madrugada do interior do país. Há até vampiros “universitários” nos cinemas, personagens engraçadinhos, fofinhos, quase humanos, nada lembrando o que são de verdade: predadores naturais dos homens.

Ser “universitário” parece significar hodiernamente deixar de ser o que se é, a fim de ser mais agradável, inclusive ignorando limites morais. Quando surge o adjetivo “universitário” o que se diz entrelinhas é que não basta o que se é, urge que se atualize, negando o que a opinião pública condena para ser aceito. Assim, há o samba “universitário”, que não é samba, pois não representa a alma do sambista; existe o sertaneja “universitário”, que não é sertanejo, pois até renega seu berço, o interior do país; até se pode encontrar o terror “universitário”, que não tem nada de aterrorizante, pois pasteuriza o tema do temor para alcançar o público conceitualmente hemofílico da atual juventude. Tudo isso, claro, movido pelo “politicamente correto”, pela opinião pública. É neste sentido que vai nossa reflexão: está em marcha uma religião “universitária”, isto é, uma religião que tem vergonha de si e quer “atualizar-se” para ser oferecida no altar da opinião pública.

A religião, como evento também cultural, não fica impassível a essa tentativa de pasteurização da ação humana. É frequente surgirem expressões religiosas que poderiam caracterizar-se “universitárias”, pois têm como proposta justamente negar o próprio do ato religioso. E aos católicos é ainda mais urgente a rejeição a essa pasteurização, pois – diferentemente dos gêneros musicais – seus conteúdos e preferências doutrinais não dependem de si mesmos. O que ocorre nas PUC’s do Brasil é justamente isso: a tentativa de anular o papel indecomponível da religião. A pressão que se faz a essas universidades tem a tarefa de pasteurizar a religião. Eles diriam: “tudo bem, vocês podem ser PUC’s, mas devem ser ‘universitárias’ “. Isto é, devem abandonar tudo o que é contrário aos dogmas da cultura laica, pois só assim a religião é tolerável: neutralizada, retirando-a da vida pública e, especialmente, da vida acadêmica.

O laicismo pretende calar os cristãos, aprisioná-los na vida privada. Notícia ruim: não vão conseguir, sem derramar (muito) sangue. O laicista não entende que ele lida com gente morta. E nada atemoriza os que não têm nada a perder. Ainda que haja os religiosos “universitários”, sempre restará aqueles que preferem o autodidatismo. E não se enganem: 12 pescadores são muito mais que o suficiente para mudar um país!

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