Salvação Universal: é possível?

No fim dos tempos, ou haverá uma restauração de todas as coisas à sua pureza original (e não se pode escolher entre café ou chá), ou não se terá certeza de que todas as pessoas serão salvas (mas se poderá escolher entre Mozart ou Beethoven)

Apocatástase (¢pokat£stasij, em grego) é o termo utilizado por alguns Padres da Igreja para a doutrina da renovação universal, que acontecerá ao final da história, retornando toda a criação ao estado de pureza original. Nicola Abbagnano[1] coloca Orígenes entre os padres entusiastas dessa tese. Contudo, a apocatástase dos cristãos não é idêntica às doutrinas estoica e pitagórica, que entendiam o termo como um retorno cíclico do cosmos não à sua pureza original, mas a um caos primitivo, a partir do qual o mesmo mundo retornaria, seguindo o mesmo script: com os mesmos personagens e as mesmas etapas. Para os Padres, o ciclo de mundos teria início em uma queda original; além de os mundos que se sucedem não serem os mesmos, pois entra em jogo a liberdade. E esse é o ponto importante!

TrindadeCom efeito, muito se tem falado sobre a possibilidade da salvação universal dos homens no fim da história. Mas parece que a atenção está demasiadamente voltada para a capacidade de salvar-nos e para o desejo de nos dar a vida feliz, ambas realidades no Deus Todo-Poderoso. Há outro aspecto pouco refletido. De fato, a crença em uma salvação ou restauração universal, à revelia dos indivíduos e alheia à sua vontade, impacta muitos aspectos teológicos, como a Onipotência ou a Providência Divina. Mas há também a questão antropológica de fundo. Se a vida humana atual é um teatro, uma brincadeira de crianças que fingem ser médicos, que fantasiam ser esportistas, que imaginam ser donas de casa, se a vida humana é só isso: um sonho conjunto em que acreditamos sermos livres, então é possível que o final da história reserve uma surpresa um tanto desagradável aos que vivem conscientemente fugindo das virtudes, das responsabilidades ou de Deus. Entretanto, se a vida não é um teatro e se as escolhas cotidianas entre café ou chá; entre Flamengo ou Vasco; entre bem e mal; se essas escolhas são reais, se o homem é livre afinal, então não tem cabimento imaginar uma ação divina no apagar das luzes da história, que salvasse a todos, inclusive aqueles que não querem ser salvos, aqueles que querem ficar longe do bem, da verdade e da beleza.

O assunto é complexo, mas pode ser simplificado na seguinte expressão: no fim dos tempos, ou haverá uma restauração de todas as coisas à sua pureza original (e não se pode escolher entre café ou chá), ou não se terá certeza de que todas as pessoas serão salvas (mas se poderá escolher entre Mozart ou Beethoven). De outro modo, o que está em jogo é a liberdade! Se a tese da salvação universal é verdadeira e não há escolha entre servir a Deus ou não, então a vida humana é uma piada, uma pegadinha de Deus. Ao final da caminhada humana Ele dirá a todos: agora chega! Todos me adorem! Não, os cristãos somos dogmáticos quando o assunto é liberdade. Cremos que o homem é livre, o que dá outro peso às ações pessoais em sociedade, mas tem como consequência a responsabilidade inescapável diante da aceitação do convite de Deus à sua vida na Graça.

Na verdade, quem espera a salvação universal, quem acha que tanto faz seguir esse ou aquele deus, deve gostar muito do Serginho Mallandro! Eu, sinceramente, não gosto muito desse tipo de piada… Os cristãos têm clareza do peso de ter a salvação por um fio, mas também da concomitante graça de ser filho e livre; de outro lado, não veem razões para a defesa da salvação universal, com o preço de tornar os homens escravos de um destino. Somos imagem e semelhança de Deus. Por isso, não é razoável afirmar que Ele violentaria a liberdade da criatura que criou para amá-lO livremente.

 

 


[1] ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

Robson Oliveira

1 comment for “Salvação Universal: é possível?

  1. Marco Esmanhotto
    11 de fevereiro de 2014 at 01:31

    Sendo a salvação universal, ou seja, destinada a todos os homens, isto não significa que aqueles que crêem em Deus e em Jesus Cristo terão idêntica sorte que os que não creem. O crer em Jesus Cristo como Filho de Deus e Salvador da humanidade é condição necessária para a entrada no Reino de Deus, então os que morrem em descrença terão que passar por um estágio preparatório para poderem ingressar no Paraíso. Além disso, mesmo os cristãos terão que passar pelo purgatório, caso tenham áreas de suas vidas que não foram tratadas em conformidade com os valores do Reino de Deus. Portanto, prevalece o Amor de Deus por todos, salvado a todos; mas a justiça de Deus também permanece, fazendo com que todos sejam preparados e tornados dignos do Céu. Então qual a vantagem do cristão que se santifica já nesta vida? Muitas, sendo as principais a participação no reinado e no sacerdócio real de Jesus, e a imediata entrada no Reino após sua morte terrena, sem necessidade de passar pelo terrível sofrimento do inferno.

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