Santo Tomás de Aquino e o Espírito do Ecumenismo

Semana passada Bento XVI nos lembrou de uma tarefa da Igreja: a Unidade. Sim, com maiúscula! Pois esta Unidade é um Dom Imerecido de Deus à Igreja Católica. O texto que o Papa escreveu gerou reflexões. Permitam-me expor as minhas.

A discussão acerca do papel que Santo Tomás de Aquino possui na reflexão sobre o ecumenismo não pode limitar-se a expor os aparentes pontos discordantes entre a doutrina do Angélico e os documentos pontifícios sobre o assunto. E mais: não pode tratar apenas de um Santo Tomás caricatural, longe dos fundamentos que inspiraram seu pensamento e, principalmente, ignorando seus textos e reflexões.

Com efeito, o ecumenismo não é um tema apenas de Teologia Revelada, isto é, os elementos que constituem suas reflexões não se submetem apenas aos dados oferecidos aos homens pelas Escrituras e Magistério. Seus conteúdos possuem também aspectos próprios da reflexão filosófica sobre Deus. A abordagem metafísica sobre Deus e suas propriedades não é algo que se possa prescindir, como se a abordagem teológica suprimisse ou substituísse os dados filosóficos. E me parece que nessa discussão tem muita teologia e pouca filosofia.

O erro fundamental é apostar que, de posse dos conteúdos da Graça, poder-se-ia dispensar a natureza. Contudo, como é de conhecimento comum na teologia, a Graça supõe a Natureza. E Santo Tomás vai mais longe e ensina-nos: a lei da Graça não anula, nem nega, nem submete a lei da Natureza:

Ubi considerandum est quod dominium et praelatio introducta sunt ex iure humano, distinctio autem fidelium et infidelium est ex iure divino. Ius autem divinum, quod est ex gratia, non tollit ius humanum, quod est ex naturali ratione (STh II, II, q. 10, a. 10).

O texto acima afirma, em poucas palavras, que o direito divino não suprime o direito humano.  Os assuntos ecumênicos – ainda que necessitem e se submetam ao Magistério em última instância – podem e devem ter aprofundamentos próprios, cabendo à ordem da natureza explicitar e aprofundar alguns destes problemas, ficando outros para exclusiva reflexão do teólogo.  Como mestre de humanidade (Doctor Humanitatis), Santo Tomás de Aquino entende bastante bem que – mesmo sendo indispensável a conversão do homem – o discurso teológico precisa supor a natureza humana, comum a fiéis e infiéis, sendo esta muitas vezes o único campo de diálogo entre as pessoas. Quanto à separação dos campos próprios da Natureza e da Graça, já está apontado no Evangelho, na passagem do imposto de César (Mt 22, 21), que há espaços deixados para a ação autônoma do ser humano, espaços esses onde não existe submissão entre as esferas naturais e sobrenaturais.

Apesar das desconfianças, o espírito do ecumenismo pode ser encontrado em Santo Tomás de Aquino. O motor, a alma, o seu espírito é o desejo expresso do Senhor Jesus: “que todos sejam um” (Jo 17, 21).  No Aquinate encontram-se essas palavras do Senhor quando esforça-se para tratar da maior das divisões entre os cristãos até então: a disputa do Filioque com o Cisma do Oriente. Além disso, ecoa o Mandamento da Unidade quando escreve e prega para que que os infiéis se convertessem reconhecendo o verdadeiro Deus e Senhor. Permanece fiel a este desejo do Senhor quando abre-se a seu mundo, lendo, escrevendo e ensinando sobre Aristóteles, muitas vezes visto como um infiel e inimigo da fé.  Sem dúvida, Santo Tomás foi precursor do ecumenismo. Não deste tipo que se faz por aí, de banho de pipoca, mas daquele que reconhece tudo o que há de verdadeiro no outro – como Paulo no Areópago, e nunca omitindo o Único Caminho, Nosso Senhor.

Que o Senhor não permita que fiquemos surdos a esse mandamento: Ut Unum Sint!

Robson Oliveira

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