São Tomás de Aquino e a Formação do Teólogo

O Papa Bento XVI, continuando a reflexão da quarta-feira passada, apresenta aos cristãos e aos homens de boa vontade a figura de Santo Tomás de Aquino, um verdadeiro luzeiro em meio ao ambiente acadêmico do Brasil. A todos os que pretendem entender o que é a verdadeira abertura para o outro, o espírito de pesquisa em comunidade e, principalmente, o diálogo como motor da reflexão seja filosófica, seja teológica, invistam na leitura e meditação da obra do Aquinate.

Catequese de Bento XVI sobre São Tomás de Aquino (parte 2)

Bollettino della Sala Stampa della Santa Sede
(tradução de Leonardo Meira – equipe CN Notícias)

Queridos irmãos e irmãs,

hoje desejo continuar a apresentação de São Tomás de Aquino, um teólogo de tal valor que o estudo de seu pensamento foi explicitamente recomendado pelo Concílio Vaticano II em dois documentos, o decreto Optatam totius, sobre a formação ao sacerdócio, e a declaraçãoGravissimum educationis, que trata da educação cristã. Além disso, já em 1880 o Papa Leão XII, grande apreciador e promotor dos estudo tomísticos, quis declarar São Tomás Patrono das Escolas e Universidades Católicas.

O motivo principal deste apreço reside não somente no conteúdo de seu ensinamento, mas também no método por ele adotado, sobretudo a sua nova síntese e distinção entre filosofia e teologia. Os Padres da Igreja encontravam-se confrontados por diversas filosofias de tipo platônico, nas quais apresentava-se uma visão abrangente do mundo e da vida, incluindo a questão de Deus e da religião. No confronto com essas filosofias, eles mesmos haviam elaborado uma visão abrangente da realidade, partindo da fé e usando elementos do platonismo, para responder às questões essenciais dos homens. A essa visão, baseada sobre a revelação bíblica e elaborada com um platonismo correto à luz da fé, eles chamavam de “filosofia nostra”. A palavra “filosofia” não era então expressão de um sistema puramente racional e, como tal, distinto da fé, mas indicava uma visão complexa da realidade, construída à luz da fé, mas tornada própria e pensada pela razão; uma visão que, certamente, ia além das capacidades próprias da razão, mas que, como tal, era também por ela satisfeita. Para São Tomás, o encontro com a filosofia pré-cristã de Aristóteles (morto cerca de 322 a.C.) abria uma perspectiva nova. A filosofia aristotélica era, obviamente, uma filosofia elaborada sem conhecimento do Antigo e do Novo Testamento, uma explicação do mundo sem a revelação, através da pura razão. E esta racionalidade consequente era convincente. Assim, a antiga forma da “filosofia nostra” dos Padres não funcionava mais. A relação entre filosofia e teologia, entre fé e razão, tinha de ser repensada. Existia uma “filosofia” completa e convincente em si mesma, uma racionalidade precedente à fé, e, também, a “teologia”, um pensar com a fé e na fé. A questão premente era esta: o mundo da racionalidade, a filosofia pensada sem Cristo, e o mundo da fé são compatíveis? Ou se excluem um ao outro? Não faltavam elementos que afirmavam a incompatibilidade entre os dois mundos, mas São Tomás esta firmemente convencido da sua compatibilidade – também que a filosofia elaborada sem o conhecimento de Cristo quase que esperava a luz de Jesus para ser completa. Essa foi a grande “surpresa” de São Tomás, que determinou o seu caminho como pensador. Mostrar esta independência entre a filosofia e a teologia e, ao mesmo tempo, a sua recíproca relacionalidade foi a missão histórica do grande mestre. E, assim, entendemos que, no século XIX, quando se declarava fortemente a incompatibilidade entre a razão moderna e a fé, o Papa Leão XIII tenha indicado São Tomás como um guia para o diálogo entre uma e outra. Em seu trabalho teológico, São Tomás supõe e concretiza esta relação. A fé consolida, integra e ilumina o patrimônio da verdade que a razão humana adquire. A confiança que São Tomás dispensa a estes dois instrumentos de conhecimento – a fé e a razão – pode ser atribuída à convicção de que ambos provêm da única fonte de toda a verdade, o Logos divino, que atua seja no âmbito da criação, seja no da redenção.

Juntamente com o acordo entre a razão e a fé, deve-se reconhecer, por outro lado, que elas se utilizam de processos cognitivos diferentes. A razão acolhe uma verdade por força de sua evidência intrínseca, mediata ou imediata; a fé, contudo, aceita uma verdade com base na autoridade da Palavra de Deus que se revela. Escreve São Tomás no início de sua Summa Theologiae: “Há dois gêneros de ciências. Umas partem de princípios conhecidos à luz natural do intelecto, como a aritmética, a geometria e semelhantes. Outras provêm de princípios conhecidos mediante uma ciência superior; como a perspectiva, de princípios explicados na geometria, e a música, de princípios aritméticos. E deste modo é ciência a doutrina sagrada (isto é, a teologia), pois deriva de princípios conhecidos à luz de uma ciência superior, a saber: a de Deus e dos santos”(I, q. 1, a. 2).

Essa distinção assegura a autonomia tanto das ciências humanas, quanto das ciências teológicas. Isso, no entanto, não equivale à separação, mas implica, acima de tudo, uma mútua e benéfica cooperação. A fé, de fato, protege a razão de toda a tentação de desconfiança nas próprias capacidades, a incentiva a se abrir a horizontes sempre mais amplos, mantém viva a busca dos fundamentos e, quando a razão mesma é aplicada na esfera sobrenatural do relacionamento entre Deus e o homem, enriquece o seu trabalho. Segundo São Tomás, por exemplo, a razão humana pode definitivamente iniciar a afirmação da existência de um único Deus, mas somente a fé, que acolhe a Revelação divina, é capaz de alcançar o mistério do Amor de Deus Uno e Trino.

Por outro lado, não é somente a fé que ajuda a razão. Também a razão, com os seus meios, pode fazer algo de importante pela fé, tornando-se um tríplice serviço que São Tomás resume no prefácio de seu comentário ao De Trinitate de Boezio: “Demonstrar os fundamentos da fé; explicar mediante semelhanças a verdade da fé; rejeitar as objeções que se levantam contra a fé” (q. 2, a. 2). Toda a história da teologia é, no fundo, o exercício desse esforço de inteligência, que mostra a inteligibilidade da fé, a sua articulação e harmonia interna, a sua racionalidade e a sua capacidade de promover o bem-estar humano. A exatidão dos raciocínios teológicos e o seu real significado cognitivo são baseados no valor da linguagem teológica, que é, de acordo com São Tomás, principalmente uma linguagem analógica. A distância entre Deus, o Criador, e o ser das suas criaturas é infinita; a dessemelhança é sempre maior que a semelhança (cf. DS 806). No entanto, em toda a diferença entre Criador e criatura, existe uma analogia entre o ser criado e o ser do Criador, que nos permite falar com palavras humanas sobre Deus.

São Tomás estabeleceu a doutrina da analogia, bem como, com base em argumentos puramente filosóficos, também o fato de que com a Revelação Deus mesmo falou a nós e, portanto, nos autorizou a falar d’Ele. Considero importante chamar atenção para esta doutrina. Essa, de fato, nos ajuda a superar algumas objeções do ateísmo contemporâneo, que nega que a linguagem religiosa seja fornecida com um significado objetivo, e sustenta, ao contrário, que tenha apenas um valor subjetivo ou simplesmente emotivo. Essa objeção decorre do fato de que o pensamento positivista está convencido de que o homem não conhece o ser, mas somente as funções experimentáveis da realidade. Com São Tomás e com a grande tradição filosófica, estamos convencidos de que, na realidade, o homem não conhece apenas as funções, objeto das ciências naturais, mas conhece algo do próprio ser – por exemplo, conhece a pessoa, o Tu do outro, e não apenas o aspecto físico e biológico do seu ser.

À luz desse ensinamento de São Tomás, a teologia afirma que, embora limitada, a linguagem religiosa é dotada de sentido – porque tocamos o ser -, como uma flecha que se dirige a uma realidade que significa. Esse acordo fundamental entre razão humana e fé cristã é identificado em outro princípio básico do pensamento de Tomás de Aquino: a Graça divina não anula, mas supõe e aperfeiçoa a natureza humana. Essa última, de fato, também após o pecado, não está completamente corrompida, mas ferida e enfraquecida. A Graça, concedida por Deus e comunicada através do Mistério do Verbo encarnado, é um dom absolutamente gratuito com o qual a natureza é curada, fortalecida e ajudada a perseguir o desejo inato no coração de todo o homem e toda a mulher: a felicidade. Todas as faculdades do ser humano são purificadas, transformadas e elevadas pela Graça divina.

Uma importante aplicação desta relação entre natureza e Graça encontra-se na teologia moral de São Tomás de Aquino, que mostra-se de grande atualidade. No centro de seu ensinamento neste campo, ele coloca a nova lei, que é a lei do Espírito Santo. Com um olhar profundamente evangélico, insiste no fato de que esta lei é a Graça do Espírito Santo, dada a todos aqueles que creem em Cristo. A tal Graça une-se o ensinamento escrito e oral das verdades doutrinais e morais, transmitidas pela Igreja. São Tomás, sublinhando o papel fundamental, na vida moral, da ação do Espírito Santo, da Graça, para cultivar as virtudes teologais e morais, nos faz entender que todo o cristão pode alcançar as altas perspectivas do “Sermão da Montanha” se vive uma relação autêntica de fé em Cristo, se se abre à ação de seu Santo Espírito. Mas – acrescenta o Aquinense – “também se a graça é mais eficaz que a natureza, todavia a natureza é mais essencial para o homem” (Summa Theologiae Ia, q. 29, a. 3), pelo que, na perspectiva moral cristã, há um lugar para a razão, a qual é capaz de discernir a lei moral natural. A razão pode reconhecê-la considerando o que é bom e o que deve-se evitar para alcançar aquela felicidade que é desejada por todos, e que impõe também uma responsabilidade para com os outros, e, portanto, a busca do bem comum. Em outras palavras, as virtudes humanas, teologais e morais, estão enraizadas na natureza humana. A Graça divina acompanha, sustenta e incentiva o compromisso ético, mas, de per si, segundo São Tomás, todos os homens, crentes e não crentes, são chamados a reconhecer as exigências da natureza humana expressas na lei natural e a se inspirar nela para a formulação das leis positivas, isto é, aquelas emanadas pelas autoridades civis e políticas para regular a convivência humana.

Quando a lei natural e as responsabilidades que implica são negadas, abre-se dramaticamente o caminho para o relativismo ético no plano individual e ao totalitarismo do Estado no plano político. A defesa dos direitos universais do homem e a afirmação do valor absoluto da dignidade da pessoa postulam um fundamento. Não é exatamente a lei natural este fundamento, com os valores não negociáveis que indica? O Venerável Papa João Paulo II escreveu na sua Encíclica Evangelium Vitae palavras que permanecem de grande atualidade: “Para bem do futuro da sociedade e do progresso de uma sã democracia, urge, pois, redescobrir a existência de valores humanos e morais essenciais e congênitos, que derivam da própria verdade do ser humano, e exprimem e tutelam a dignidade da pessoa: valores que nenhum indivíduo, nenhuma maioria e nenhum Estado poderão jamais criar, modificar ou destruir, mas apenas os deverão reconhecer, respeitar e promover” (n. 71).

Em conclusão, Tomás nos propõe um conceito da razão humana amplo e confiante: amplo porque não é limitado aos espaços da assim chamada razão empírico-científica, mas aberto a todo o ser e, portanto, também às questões fundamentais e irrenunciáveis do viver humano; e confiante porque a razão humana, especialmente se acolhe as inspirações da fé cristã, é promotora de uma civilização que reconhece a dignidade da pessoa, a intangibilidade de seus direitos e a irrefutabilidade de seus deveres. Não surpreende que a doutrina acerca da dignidade humana, fundamental para o reconhecimento da inviolabilidade dos direitos humanos, tenha sido amadurecida no ambiente de pensamento que recolheu o legado de São Tomás de Aquino, que tinha um conceito altíssimo da criatura humana. A define, com a sua linguagem rigorosamente filosófica, como “o que há de mais perfeito em toda a natureza, isto é, um sujeito subsistente em uma natureza racional” (Summa Theologiae, Ia, q. 29, a. 3).

A profundidade do pensamento de São Tomás de Aquino surge – não o esqueçamos nunca – da sua fé e da sua devoção fervorosa, que expressava em orações inspiradas, como esta em que pede a Deus: “Concede-me, te peço, uma vontade que te busque, uma sabedoria que te encontre, uma vida que te apraza, uma perseverança que espera em ti com confiança e uma confiança que ao final chegue a possuir-te”.



Que Bento XVI continue inspirando os cristãos à leitura do Doutor Angélico, a fim de que bebamos da sua doutrina e conhecimento.

Robson Oliveira

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