Sobre o Natal do Senhor – São Leão Magno

O Blog Non Nise Te! deseja a todos os leitores e colaboradores um Natal repleto das bênçãos de Deus. Que o Senhor Jesus continue a encontrar, com a Graça do Amor de Deus, um refúgio seguro em nossas mentes e corações nesse mundo tão avesso à Vontade do Pai.


Fonte: Papa São Leão Magno. Segundo Sermão no Natal do Senhor, 1-2.

Caríssimos, deixemo-nos transportar de alegria e demos livre curso ao júbilo espiritual, pois raiou para nós o dia de uma redenção nova, dia longamente preparado, dia de felicidade eterna.

O ciclo do ano nos traz de volta o mistério de nossa salvação, mistério prometido desde o começo dos tempos e concedido no fim, feito para durar sem fim. Nesse dia é digno que, elevando nossos corações, adoremos o mistério divino, a fim de que a Igreja celebre com grande júbilo aquilo que procede de um grande dom de Deus.

Reprodução

O Deus Todo-Poderoso e Clemente, cuja natureza é Bondade, cuja Vontade é Poder e cuja ação é Misericórdia, desde o instante em que a malícia do diabo, pelo veneno de seu ódio, nos trouxe a morte, determinou, na própria origem do mundo, os remédios que Sua Bondade usaria para dar novamente aos mortais seu primeiro estado; Ele anunciou, pois, à serpente a Descendência futura da mulher, Descendência que, com sua força, lhe esmagaria a cabeça altaneira e malfazeja, isto é, Cristo, que viria na carne, designando assim Aquele que, ao mesmo tempo Deus e homem, nascido de uma Virgem, condenaria, por seu nascimento sem mancha, o profanador da raça humana. Com efeito, o diabo se gloriava de que o homem, enganado por sua astúcia, tinha sido privado dos dons de Deus e, despojado do privilégio da imortalidade, estava sob uma impiedosa sentença de morte; para ele era uma espécie de consolo em seus males ter encontrado alguém que participasse de sua condição de prevaricador; o próprio Deus, segundo as exigências de uma justa severidade, tinha modificado Sua decisão primeira a respeito do homem, que ele tinha criado em tão alto grau de dignidade. Era necessário, portanto, caríssimos, que, segundo a economia do desígnio secreto, Deus, que não muda e cuja Vontade não pode ser separada de sua Bondade, executasse por um mistério mais oculto o primeiro plano de seu amor; e que o homem, arrastado para a falta pela astúcia do demônio, não viesse a perecer, contrariamente ao desígnio divino.

Caríssimos, tendo-se, pois, cumprido os tempos pré-ordenados para a redenção dos homens, Jesus Cristo, Filho de Deus, penetrou nessa parte inferior do mundo, descendo da morada celeste, sem deixar a Glória do Pai, vindo ao mundo de modo novo e por um novo nascimento. Modo novo, porque, invisível por natureza, tornou-se visível em nossa natureza; incompreensível, quis ser compreendido; Ele, anterior ao tempo, começou a estar no tempo; Senhor do universo, tomou a condição de servo, velando o brilho de sua majestade; Deus impassível, não negou ser homem passível; Imortal, aceitou submeter-se às leis da morte. Nascimento novo esse pelo qual Ele quis nascer, concebido por uma Virgem, nascido de uma Virgem, sem que um pai misturasse a isso seu desejo carnal, sem que fosse atingida a integridade de sua mãe. Com efeito, tal origem convinha Àquele que seria o Salvador dos homens, a fim de que Ele tivesse em si o que constitui a natureza do homem e estivesse isento daquilo que mancha a carne do homem. Porque o Pai desse Deus que nasce na carne é Deus, como atesta o arcanjo à bem-aventurada Virgem Maria: “O Espírito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo vai te cobrir com sua sombra; por isso, o Santo que nascer de ti será chamado Filho de Deus”.

Reprodução

Origem dessemelhante, natureza comum: que uma Virgem conceba, que uma Virgem dê à luz e permaneça Virgem é humanamente inabitual e insólito, mas depende do Poder Divino. Não pensemos aqui na condição daquela que dá à luz, mas na livre decisão Daquele que nasce, nascendo como queria e também como podia. Procurais a verdade de Sua natureza? Reconhecei que humana é sua substância. Quereis saber Sua origem? Confessai que Divino é seu Poder. Com efeito, o Senhor Jesus Cristo veio para eliminar nossa corrupção, não para ser sua vítima; para trazer remédio aos nossos vícios, não para ser sua presa. Ele veio curar toda enfermidade, conseqüência de nossa corrupção, e todas as úlceras que manchavam nossas almas; como ele trazia para nossos corpos humanos a Graça nova de uma pureza sem mancha, foi necessário que ele nascesse segundo um modo novo. Foi necessário, com efeito, que a integridade do Filho preservasse a virgindade sem exemplo de sua mãe, e que o Poder do Divino Espírito, derramado sobre ela, mantivesse intacto esse recinto sagrado da castidade e essa mansã da santidade, na qual ele se comprazia; porque Ele tinha decidido elevar o que era desprezado, restaurar o que estava quebrado e dotar o pudor de uma força múltipla, para dominar as seduções da carne, a fim de que a virgindade, incompatível,  nas outras, com a transmissão da vida, se tornasse para as outras Graça imitável ao renascerem.


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *