Tu es Petrus!

Tu es Petrus, et super hanc petram aedificabo Ecclesiam meam; et portae inferi non praevalebunt adversum eam (Mt 16,16ss)

Talvez não seja possível fazer uma abordagem distante de assunto tão próximo a corações e mentes. Igualmente, talvez não seja simples tratar apenas humanamente de um “Vicarius Christi“. Afinal, a mera indicação de que há um homem que faz as vezes de Deus Filho na terra é para fazer meditar cada ser humano vivente. Ainda que seu resultado conclua por sua impossibilidade, a existência de alguém que se diz representante de Deus na terra é algo relevante. Com efeito, o que se pretende com essa reflexão é meditar sobre os elementos que cercam a eleição do Papa Francisco, o 266° Sucessor de São Pedro na Sé de Roma.

Mass Media em alvoroço

Faz pouco mais de uma semana desde o anúncio de José Mario Bergoglio, argentino e jesuíta, para a Cátedra de São Pedro. Um papa latino-americano, o primeiro da Companhia de Jesus, o primeiro a tomar Francisco por onomástico! Todos esses débuts tornaram o papa Francisco “um ícone”, um “sinal de esperança”, “um sopro de ar fresco” para os meios de comunicação em massa, ansiosos por novidades e mudanças, ansiosos por imporem suas pautas e agendas à Igreja Católica. Para um tempo em que aparência é tudo, um papa econômico nos símbolos, com uma vida frugal desde o sacerdócio, simples nas suas ações, um papa assim ganha espaço numa mídia interessada em criar uma distância – e até uma contradição – entre Francisco e Bento XVI.

Reprodução

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Nos meios de comunicação de massa, comprometidos com o politicamente correto, multiplicam-se os editoriais que fazem do Papa Francisco o salvador da Igreja Católica. Nos meios de comunicação alternativos, divide-se a interpretação em que o Papa Francisco salvará ou perderá a Igreja Católica, segundo a orientação mais tradicionalista ou mais modernista de seus editores. Para os blogs mais liberais, a Igreja Católica inicia uma primavera com o novo papa, o que deixa clara a indução que – antes de Francisco – a Igreja sofria em um tenebroso inverno. Para esses blogueiros, todos os males da Igreja eram causados pelos outros papas, “de direita” e imperialistas, seja lá o que esses conceitos anacrônicos signifiquem. Tenho de discordarPara os blogs mais tradicionalistas, surpreendentemente no espírito moderno de ruptura e contestação da autoridade do Sucessor de Pedro, tudo já ia mal por causa dos outros papas pós-conciliares e tudo ficará ainda pior por causa do Papa Francisco. Para esses comentaristas, a Igreja vivia um primavera pré-conciliar e, desde o Vaticano II, sofre um rigoroso inverno em razão de um clero “de esquerda” e revolucionário. Também tenho de discordar. Para uma mídia de massa e para alguns blogs autônomos, o novo papa tem proporcionado motivos de apreensão. Curiosamente, ambos encontram-se no mesmo panorama.

O pano de fundo: Falta fé

Percebe-se que, em relação ao Papa Francisco, os discursos catastrofistas ou entusiastas revelam uma profunda falta de fé no Evangelho de Nosso Senhor. Para uns, o novo papa sozinho conseguirá aquilo que os pecados de todos os fiéis juntos e durante dois mil anos não conseguiram: demolir a Igreja de Nosso Senhor e pôr fim ao cristianismo; para outros, ele sozinho conseguirá o que nenhum outro santo na história da Igreja conseguiu – nem Nosso Senhor Jesus Cristo: a purificação da Igreja nesta vida. Aliás, para os que esperam do Papa Francisco alguém capaz de purgar a Igreja dos pecadores “de direita” e “de esquerda”, há um texto desanimador destas pretensões. Diz o evangelista ser necessário que o trigo e o joio cresçam juntos (cf. Mt 13, 24-30). Ora, se Nosso Senhor sofreu traições e insubordinações; se entre os Apóstolos houve invejinhas e disputas por poder quando Ele mesmo fez seu colégio apostólico, não se espere que estas fraquezas sejam expurgadas do colégio dos bispos ou cardeais só porque o Papa Francisco é sinceramente pobre e humilde, simples e amável. Nosso Senhor era tudo isso e muito mais e não conseguiu apenas com seus exemplos – e nem com seus milagres! – arrancar do coração do homem o pecado. Ainda que o Papa Francisco se entregasse a morte por amor ao homem, para que este visse a riqueza de uma vida simples e pobre, ainda assim nada garantiria que a Igreja na sua hierarquia e no seu corpo assumisse esses valores como algo seu. A verdadeira alegria e a certeza tranquila do sucesso do pontificado de Francisco não advêm de dados externos. A causa do amor a esse homem vem da fé. Importa relembrar o ensinamento de Nosso Senhor aos cristãos de sempre a esse respeito:

Tu es Petrus, et super hanc petram aedificabo Ecclesiam meam; et portae inferi non praevalebunt adversum eam (Mt 16,16ss)

E injusta, como foi dito em outro lugar, a acusação de que os cristãos amam demais essa pessoa especial, o papa. Papalatria é uma palavra que sai de lábios que rejeitam a autoridade incômoda dada por Deus a um homem como os outros, e se pode pronunciar essa acusação de qualquer lado da margem. Se é norma cristã e evangélica amar o inimigo, que se dirá de alguém dado aos homens por Nosso Senhor, como é o caso do Chefe Visível da Igreja? De certa forma, os otimistas têm razão, o  papado de Francisco será um sucesso, mas não pelas razões por eles aduzidas. Será um sucesso pois não é possível a qualquer homem fazer frente a Deus, muito menos quando este homem é justamente por Ele escolhido para uma missão específica, ainda que não se saiba – nem se concorde – com ela. A hermenêutica catastrofista ou messiânica criada em torno do Papa Francisco é, na verdade, crise de fé, “de esquerda” ou “de direita”. Quem pode realmente fazer mal à Igreja é o pecado, não o papa; quem pode salvar a Igreja é Nosso Senhor e não as decisões pessoais de cada cristão, e ponto de exclamação.

O ÓBVIO E ALÉM DO ÓBVIO

Contra os tradicionalistas – que veem uma primavera pré-conciliar difícil de acreditar – é necessário dizer com todas as letras: se as pessoas não se converteram ao Evangelho no passado não foi por culpa de Paulo VI ou Pio XII; Bento XVI ou Pio X. E mais: a simpatia de Francisco também não converterá os que agora o adulam clamando por um “papa dos pobres”. O que faz com que as pessoas não aceitem converter-se a Deus é o Evangelho: amar o inimigo, lutar contra si e seus desejos, obedecer a outros, enfim, morrer na cruz, esse é o verdadeiro motivo pelo qual o cristianismo não agrada a esse mundo. Como ocorreu no tempo de Nosso Senhor, os mesmos que agora cantam “Hosana” a Francisco, crucificar-lo-ão quando ele reafirmar as doutrinas e dogmas da Igreja Católica sobre os temas capitais da fé e da moral. Como aconteceu na Argentina, enquanto ainda cardeal, Francisco colecionou inimigos dentro e fora dos muros eclesiais, justamente por não agradar nem a uns nem a outros. Por certo, o “Domingo de Ramos” de Francisco vai acabar e, então, os que agora aclamam-no por escolher certa cor de sapatos ou tipo de anel terão a escolha capital diante de si: ir até o Calvário para chorar e morrer com Francisco os pecados do tempo hodierno ou para pregar eles mesmos os pregos por Francisco ter traído seus “ideais de uma igreja pobre, acolhedora, tolerante” e indiferente! É óbvio que Francisco não agradará a todos, o que não está evidente é que o motivo é já agora o mesmo: o Evangelho integral!

Papa Bento XVI comemorando o Natal com pobres dos arredores do Vaticano

Papa Bento XVI comemorando o Natal com pobres dos arredores do Vaticano

Num mundo que vive de aparência, um papa benevolente cai bem. Mas não se aceite a conclusão escondida de que a virtude da benevolência é exclusividade do Papa Francisco! Não se permita esquecer que Bento XVI sentou com vítimas de pedófilos e com eles chorou… Que João Paulo II perdoou àquele que atentou contra sua vida… Se o sorriso do “Papa Bom” ajuda a aproximar os descrentes do Evangelho, louvado seja Deus! Que todos amem a Deus e à sua Igreja, à Virgem e os sacramentos. Mas chegará a Cruz – mais cedo ou mais tarde – e então saber-se-á se a simpatia de Francisco ensinou os homens a ver o Amor de Deus também ali onde só há desolação e sofrimento. Esse deve ser o verdadeiro motivo do sorriso largo: lembrar aos homens do amor de Deus nas horas em que faltarem alegrias.

Num mundo resistente a tradições e autoridade, um papa que destaque à tradição bimilenar da Igreja é excelente. No entanto, não se diga que o Papa Francisco é um risco para os dogmas bimilenares da Igreja, pois ele alcançou a inimizade de políticos e religiosos justamente por não abrir mão de pontos capitais da doutrina cristã. Ele sofreu por não submeter-se ao status quo teológico da América Latina nas décadas de 1980 e 1990; ele conseguiu irritar a família Kirchner porque não submeteu-se ao politicamente correto no caso do aborto e do “casamento” homossexual na Argentina. Colar a imagem de revolucionário e teólogo da libertação no Papa Francisco para pôr em dúvida sua fidelidade à Igreja e a Nosso Senhor não é honesto com a história deste Sucessor de Pedro.

O Papa Francisco necessita de orações, mas não porque é melhor ou pior que os outros. Ele precisa de orações porque tem uma função grande demais para qualquer pessoa. Sem o apoio e sustento de Deus qualquer homem sucumbiria.

Oremos por Pedro! Oremos por Francisco!

2 comments for “Tu es Petrus!

  1. Priscila
    25 de Março de 2013 at 15:47

    Sempre lúcidas as palavras deste amigo! Obrigada!

  2. 25 de Março de 2013 at 15:37

    Prof. Roboson,
    muito bom ler este texto, ajuda a refletirmos melhor e acalmar, sendo sicero a postura inicial do Papa Francisco de recusar muitas coisas me deixou apreensivo, pensando, o que mais será que ele vai rejeitar?

    Mas, como bem lembrado, ainda não entedendemos porque e praque ele foi escolhido por Deus, temos que confiar e aguardar.

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