Um caniço no deserto

São Policarpo caminha em direção a seus perseguidores. A aparência frágil daquele homem, já octogenário, talvez tenha alimentado a esperança de seus algozes de que seria fácil conseguir que abandonasse a fé de Cristo Jesus; o corpo certamente combalido pela idade e pela perseguição levada pelos imperadores romanos debilitaram suas forças. Diante dos poderes políticos da época, Policarpo está vulnerável: será fácil dobrá-lo, talvez pensassem os torturadores.

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Surpreende a todos que esse homem fraco, sem vigor físico, por todos desacreditado, sofresse os suplícios a ele impostos sem sequer pestanejar, sem tergiversar sobre a sua fé, enfim, sem jamais separar-se daquEle que por Policarpo morreu. Segundo o ensinamento de São João, de quem dizia ter sido discípulo, certamente ouviu que o amor a Deus exige o cumprimento dos mandamentos. E como amar a Deus sem cumprir o primeiro mandamento: do senhorio de Deus sobre todas as coisas? Diante das ameaças de morte lançadas ao rosto de Policarpo pelos torturadores com o intuito de o amedrontar, o Santo a certa altura respondeu:

Eu tenho servido Cristo por 86 anos e ele nunca me fez nada de mal. Como posso blasfemar contra meu Rei que me salvou? 

Depois de mostrar a seus perseguidores que nada o separaria do amor de Cristo, nem a espada, e a fim de não testemunharem uma chuva de rebeldes cidadãos cristãos a enfrentar o império romano, restava aos perseguidores a pena mais grave para o frágil senhor diante deles, a pena capital. E São Policarpo, um fraco e idoso homem que acabara de enfrentar o império romano de peito aberto e apenas com a força da sua fé, caminhou confiante para o martírio do fogo, do qual foi poupado por Deus, caindo sob o martírio da espada. E aquele senhor octogenário, outrora reputado débil e inconstante, contado como mais um a abandonar o cristianismo, a todos surpreendeu. Com sua postura clara e firme trouxe luz sobre a real natureza do império romano: um império erguido sobre a lança e a espada, um governo manchado de sangue, sangue dos que não se submetem. Outros impérios tomaram o lugar do romano, mas a sede de sangue não cessa.

Na dia 24 de novembro alguns meios de comunicação noticiaram – com certa satisfação perceptível nos títulos de suas manchetes (p. ex. Bispo algoz de Dilma na eleição se aposenta – O Estado de São Paulo) – que o bispo de Guarulhos, Dom Luiz Gonzaga Bergonzini, deixaria seus serviços por razão de aposentadoria compulsória. Para estas mídias, o agora bispo emérito de Guarulhos representa um atraso, ele significa tudo do que se deve se afastar. Sua aposentadoria seria, portanto, uma vitória dos que estão satisfeitíssimos com o status quo, em politiquês, seria um avanço para os que estão no poder, na situação. Afinal, quem é que teme os velhos, quem se amedronta diante de doentes, quem receia a força dos fracos? O que pode um aposentado? Quem teme um caniço?

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Ah, se conhecessem um pouco de história… Se essas pessoas ainda lembrassem… Se o nosso tempo tivesse memória certamente saberia que homens como D. Bergonzini são raríssimos. Se houvesse senso histórico, os que comemoram a aposentadoria do leão de Guarulhos saberiam que, diante de alguém que não espera nada desse mundo, nenhuma ameaça alcança resultado. Saberiam que nada há de mais poderoso que um homem sem medo; saberiam que nada paralisa um homem cuja própria morte não causa temor. Se ainda houvesse memória entre nós, os mass media saberiam que nada nem ninguém atemoriza pessoas como Policarpo ou Bergonzini.

Não se está identificando o mártir do primeiro século com o bispo emérito de Guarulhos. Apenas se está a dizer que, diante de atitudes corajosas e claras em favor do Evangelho e da Igreja de Cristo, a verdadeira face do poder desse mundo se revela. Diante dos fracos deste mundo, as mãos manchadas de sangue tornam-se patentes. Portanto, ao invés de comemorarem a aposentadoria do leão de Guarulhos, eles deveriam tremer. Por que de onde veio esse discurso (PT e Dilma são o pai e a mãe das mentiras e da corrupção) pode vir muito mais!

Robson Oliveira

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