“Verdadeira renovação da Igreja”, o que significa para Bento XVI?

No encontro do Papa Bento XVI com os párocos e sacerdotes de Roma, uma frase sua correu o mundo. Estampavam os jornais, revistas e sites do Brasil: “Bento XVI pede renovação da Igreja” (vejam aqui e aqui, como exemplo). No entanto, os jornalistas responsáveis pelas editorias de catolicismo fizeram o favor de mudar o sentido das palavras do Papa. Por exemplo, leiam o texto da Veja sobre o assunto e percebam o viés “reformista” emprestado pelo jornalista. Destaques nossos.

Aos membros do clero, o papa pediu para que os religiosos trabalhem pela renovação da Igreja Católica. Para tanto, apelou ao espírito reformista do Concílio Vaticano II, um marco na modernização litúrgica e doutrinal da Igreja, ocorrido nos anos 60, sob comando do papa João XXIII. “Temos de trabalhar para a realização verdadeira do Concílio e para a verdadeira renovação da Igreja”, afirmou o papa.

Mas o que o Papa Bento XVI quereria dizer exatamente com “renovação”? Certamente, nada tem a ver com “modernização litúrgica e doutrinal”, como afirma o jornalista de Veja. Os 11 leitores de Non Nise Te! podem ler por si mesmos o discurso todo aqui, mas há um momento do discurso que é capital. Tratando do Concílio Vaticano II, diz o Papa:

[…] Havia o Concílio dos Padres – o verdadeiro Concílio – mas havia também o Concílio dos meios de comunicação, que era quase um Concílio aparte. E o mundo captou o Concílio através deles, através dos mass-media. Portanto o Concílio, que chegou de forma imediata e eficiente ao povo, foi o dos meios de comunicação, não o dos Padres. E enquanto o Concílio dos Padres se realizava no âmbito da fé, era um Concílio da fé que faz apelo ao intellectus, que procura compreender-se e procura entender os sinais de Deus naquele momento, que procura responder ao desafio de Deus naquele momento e encontrar, na Palavra de Deus, a palavra para o presente e o futuro, enquanto todo o Concílio – como disse – se movia no âmbito da fé, como fides quaerens intellectum, o Concílio dos jornalistas, naturalmente, não se realizou no âmbito da fé, mas dentro das categorias dos meios de comunicação atuais, isto é, fora da fé, com uma hermenêutica diferente. Era uma hermenêutica política: para os mass-media, o Concílio era uma luta política, uma luta de poder entre diversas correntes da Igreja. Era óbvio que os meios de comunicação tomariam posição por aquela parte que se lhes apresentava mais condizente com o seu mundo. Havia aqueles que pretendiam a descentralização da Igreja, o poder para os Bispos e depois, valendo-se da expressão «Povo de Deus», o poder do povo, dos leigos. Existia esta tripla questão: o poder do Papa, em seguida transferido para o poder dos bispos e para o poder de todos, a soberania popular. Para eles, naturalmente, esta era a parte que devia ser aprovada, promulgada, apoiada. E o mesmo se passava com a liturgia: não interessava a liturgia como ato da fé, mas como algo onde se fazem coisas compreensíveis, algo de atividade da comunidade, algo profano. E sabemos que havia uma tendência – invocava mesmo um fundamento na história – para se dizer: A sacralidade é uma coisa pagã, eventualmente do próprio Antigo Testamento. No Novo, conta apenas que Cristo morreu fora: fora das portas, isto é, no mundo profano. Portanto há que acabar com a sacralidade, o próprio culto deve ser profano: o culto não é culto, mas um ato do todo, da participação comum, e deste modo a participação vista como atividade. Estas traduções, banalizações da ideia do Concílio, foram virulentas na prática da aplicação da reforma litúrgica; nasceram numa visão do Concílio fora da sua chave própria de interpretação, da fé. E o mesmo se passou também com a questão da Escritura: a Escritura é um livro, histórico, que deve ser tratado historicamente e nada mais, etc.

Sabemos como este Concílio dos meios de comunicação era acessível a todos. Por isso, acabou por ser o predominante, o mais eficiente, tendo criado tantas calamidades, tantos problemas, realmente tanta miséria: seminários fechados, conventos fechados, liturgia banalizada… enquanto o verdadeiro Concílio teve dificuldade em se concretizar, em ser levado à realidade; o Concílio virtual era mais forte que o Concílio real. Mas a força do Concílio era real, estava presente e, pouco a pouco, vai-se realizando cada vez mais e torna-se a verdadeira força, que constitui também a verdadeira reforma, a verdadeira renovação da Igreja. Parece-me que, passados cinquenta anos do Concílio, vemos como este Concílio virtual se desfaz em pedaços e desaparece, enquanto se afirma o verdadeiro Concílio com toda a sua força espiritual. E é nossa missão, precisamente neste Ano da Fé, começando deste Ano da Fé, trabalhar para que o verdadeiro Concílio, com a própria força do Espírito Santo, se torne realidade e seja realmente renovada a Igreja. Temos esperança de que o Senhor nos ajudará. Eu, retirado, com a minha oração estarei sempre convosco e, juntos, caminhemos com o Senhor, na certeza de que vence o Senhor!

Ora, não é evidente que o sentido das palavras “verdadeira renovação da Igreja” pouco ou nada tem a ver com “modernização”? Mas então, por que os mass-media vendem essa hermenêutica para os seus leitores? Por causa dos mesmos motivos que levaram a falsificar o evento Vaticano II: produzir desconfiança e confusão em relação aos conteúdos da Igreja. Felizmente, graças à tecnologia, está cada vez mais rápida a contra-informação. Os inúmeros blogs e a capilaridade da internet têm podido dissolver muita da falsa informação e interpretação doutrinal e das palavras do Papa. Não sei onde isso vai dar: censura da internet ou enfraquecimento dos grandes meios de comunicação. Mas o caminho parece ser, cada vez mais, afastar-se dos grandes meios de comunicação para informar-se sobre religião.

Por “verdadeira renovação da Igreja” o Papa quis realmente dizer o que ele disse: a aplicação do real Concílio Vaticano II, com sua força espiritual, vem sendo uma verdadeira renovação para a Igreja.

3 comments for ““Verdadeira renovação da Igreja”, o que significa para Bento XVI?

  1. Amaro Helio
    25 de fevereiro de 2013 at 16:10

    Acho que devemos ser mais claro e dizer realmente a nossa opinião sobre isso tudo, sem medo e sim com fé e esperança. O Direito Canonica da o Direito ao papa de renunciar.

  2. Sérgio Luis
    21 de fevereiro de 2013 at 19:58

    Boa noite, meu nome é Sérgio, e há algum tempo atrás eu e minha noiva Patrícia debatamos junto a vocês o assunto política e aborto, não sei se lembram. Pois bem, venho com outro objetivo… Hoje comecei um debate com um amigo ( o mesmo é meu padrinho de crisma) que anda afastado da igreja católica, o assunto era um vídeo postado numa página protestante na qual o link eu coloco aqui para que todos possam ter acesso >> http://maispreciosasque-rubis.blogspot.com.br/2013/02/noticia-bombastica-sobre-o-apocalipse.html

    O vídeo aborda passagens de Apocalipse e a interpretação supõe que o próximo papa seria o anticristo, gostaria de incluí-los nesse debate para enriquecer o tema e mostrar que a interpretação está errada. Podemos debater aqui nos comentários como da outra vez?

  3. Edson Alves
    17 de fevereiro de 2013 at 13:41

    Acabei de falar isso com a Mari agora… O Papa pede que nesta quaresma sejamos renovados e nos direcionemos a Deus e o título da reportagem é: “Bento 16 suplica que fiéis rezem por próximo papa e pede, mais uma vez, por renovação da Igreja”. E esse deslize editorial não é só no UOL. G1 e Terra tem manchetes no mesmo tom. De fato,o compromisso da imprensa brasileira passa longe da verdade. O objetivo é deformar a favor da opinião deles!

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